Mais poeta que lavrador por José do Carmo Francisco

Quando D. Dinis (n.1261) subiu ao trono em 1279, dando início a um reinado de quase meio século, uma das primeiras medidas que tomou foi ordenar a plantação do Pinhal de Leiria cuja madeira foi utilizada na construção das naus que iriam abrir o caminho do Mar Atlântico. De seguida convidou e deu o título da Almirante ao navegador genovês Manuel Pessanha para fomentar a arte da navegação em Portugal. Em 1290 criou o Estudo Geral de Lisboa onde se aprendia gramática, retórica, dialéctica, aritmética, astrologia, geometria e música. Quem quisesse seguir os estudos e obter graus universitários tinha que partir para Salamanca, Paris, Avinhão, Bolonha ou Oxford. Quando D. Dinis morreu em 1325 dele se disse que «fez tudo quanto quis» e são-lhe atribuídas 138 poesias conhecidas. É lembrado como o rei lavrador. Um aspecto curioso da sua vida tem a ver com o número de mulheres que amou de facto. São sete ao todo: Isabel de Aragão (a Rainha), Aldonça Rodrigues, Marinha Gomes, Branca Lourenço e Grácia Froes, isto além de outras duas senhoras cujo nome não me chegou e de quem teve dois filhos. Além de ser um número mágico, o sete dá neste caso a dimensão da paixão multiplicada. Ser poeta é também isso: procurar novos amores, outros amores, outras paixões, viver outras vidas na única vida que nos é dado viver. D. Dinis surge na História como pai de vários filhos que ao tempo se diziam bastardos por serem relativamente ilegítimos. Claro que é tudo relativo nestes casos como aquele preceito do Direito Romano que diz «o pai da criança é o marido d mulher». No caso deste rei os filhos são poemas no sentido em que são o resultado directo de um amor. Tal como os poemas conhecidos e reconhecidos, os filhos são apostas no futuro incerto, são juízes prontos a valorar o bem e o mal como se viver fosse enfrentar a barra do tribunal. Todos os dias, a todas as horas. Em resumo: mais poeta que lavrador.

José do Carmo Francisco, escritor

Leave a Reply