Pedro Paulo Câmara sobre a obra de Armando Côrtes-Rodrigues por Vamberto Freitas

Assim, não ocorre antagonismo, desdobramento ou afastamento formal e temático entre Violante e Armando Côrtes-Rodrigues, já que se completam.

Pedro Paulo Câmara, Violante De Cysneiros: Obra Reunida

     A obra completa de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971) é muito mais extensa e diversificada do que alguns de nós, os da minha geração, pensavam ou conheciam. Pela minha parte, conhecia alguma da sua poesia e prosa que o grande escritor açoriano foi deixando em revistas. Depois do seu regresso definitivo a São Miguel escrevia em jornais micaelenses e de Angra do Heroísmo, todos eles, esses jornais, desaparecidos e existiram na primeira metade do século passado. Estou sempre a citar Pedro Paulo da Câmara: “O Autonómico” e “Actualidade”, assim como a “Folha de Angra”. O que o autor de Violente De Cysneiros: Obra Completa escreve em dois grande textos de contextualização de toda a escrita conhecida do autor de Vila Franca é como que assistir a um ou dois seminários em que recebemos informação e considerações literárias sobre um escritor que ainda hoje permanece, creio eu, numa penumbra indesculpável – para mim, não falo de outros. É certo que eu já tinha lido os primeiros grandes analistas e comentadores de Armando Côrtes-Rodrigues, nomeadamente Eduíno de Jesus e Onésimo Teotónio Almeida. Escrevem ambos sobre a nossa herança literária, a “identidade” açoriana. Bem sei que muito disto já caiu em questionamentos de problematização. Dizer que o local é que é “universal” tornou-se uma frase feita, cansativa para quem sempre soube que era assim na literatura do mundo. A condição humana não muda nem com a geografia e muito menos com línguas do nosso desconhecimento, que depois as lemos, algumas ou muitas delas, em traduções da maior criatividade. Falar da nossa vivência em qualquer parte é dizer do “coração humano em conflito consigo próprio”. A arrogância é também a ignorância. Tudo isto para dizer que Armando Côrtes-Rodrigues é dos mais importantes e consequentes escritores açorianos, e que Pedro Paulo Câmara resgata com investigação aturada e prosa clara um autor que já andava mais ou menos esquecido e raramente citado.

     A história de Armando Côrtes-Rodrigues na literatura dita “nacional” começa no primeiro número da revista Orpheu, fundada e dirigida por Fernando Pessoa, com o poeta Mário de Sá Carneiro e o dinheiro do seu pai a financiá-la. Nessa primeira edição Armando Côrtes-Rodrigues assina alguns poemas em nome próprio, e o escândalo da Orpheu no seu todo foi de tal modo que Fernando Pessoa escreve-lhe para São Miguel a dizer da alegria pela “tareia” inusitada que levaram no diário A Capital. Deveriam ir todos, dizia o jornal na primeira página e há muito desaparecido,  para um manicómio. Nascia então o chamado primeiro modernismo literário português, os génios finalmente davam a saber de si publicamente e cortavam com toda a tradição literária. Há algo de muito estranho na 2ª edição da revista. Pessoa achava que precisavam de uma poeta – ou poetisa “louca”. Paulo Pedro Câmara conta-nos tudo isto como se fosse a normalidade daquele grupo de génios do modernismo literário português. Fernando Pessoa dispara ao que viria a ser um dos nossos mais importantes e reverentes escritores: essa mulher vai ser tu, disse-lhe Pessoa, e já tenho um pseudónimo para ti, que é um nome medieval: Violante De Cysneiros. Imaginemos agora, só pudemos imaginar, como se sentiu o homem que acabava de se formar em Lisboa e permanecia um conservador católico e temperado pelas suas origens açorianas.

     A beleza de uma vila açoriana viria a ser logo após o seu regresso a São Miguel sempre continuada no mistério da nossa ruralidade, ora pacífica ora em conflito entre uns e outros. Escreve para Ilha Terceira com as saudades dos seus interlocutores, que ele sabe muito bem que eles ou elas conjugam as mesmas ansiedades e a forma de estar, a fé de que ficaremos bem perante tremores de terra e, sim, pobreza vinda desde o povoamento.

   Isto é a universalidade do nosso povo em convivência com todos os outros para além do horizonte onde, como alguém me disse um dia, “o mar beija o céu”. O termo “açorianidade” viria um pouco depois, em 1932. Já tínhamos de todos os séculos anteriores esses sentidos e vivência, a consciência de sermos quem somos e quem fomos. A maioria dos nossos escritores sempre o entenderam, sentiram, tudo isso e algo mais. Ser ilhéu a ser do mundo – por vontade ou por sonho. Ficar cá mais nada significa do que nunca esquecermos os outros lados do mar em todas as direções. É isso mesmo que Armando Côrtes-Rodrigues nos diz na sua poesia e prosa, e noutros variados escritos.

      Violante De Cysneiros: Obra Reunida de Pedro Paulo Câmara também funciona como uma espécie de psiquiatria literária. Sugestão: parem de falar no que eu chamo com um riso nada disfarçado de a Santíssima Trindade da Literatura açoriana. Existiu o escritor Armando Côrtes-Rodrigues, entre todos os outros que o seguiram. Por outro lado, tentem perceber ou tenham pelo menos uma noção mínima de como dois escritores tão radicalmente diferentes, como Fernando Pessoa e Armando Côrtes-Rodrigues, se tornaram amigos durante quase uma vida inteira – Fernando Pessoa, o génio “louco”, e Armando Côrtes-Rodrigues numa ilha longe de Lisboa. Segundo Pedro Paulo Câmara, era a Armando Côrtes-Rodrigues que Fernando Pessoa despejava em todas as suas cartas as suas mais profundas intimidades. Seria que Pessoa tinha a perfeita consciência de que era portador de uma “memória açoriana” através da mãe, mesmo que tenha estado na Terceira com ela só 13 ou 14 dias? E a abordagem em Lisboa a Armando Côrtes-Rodrigues para que fosse ele a poetisa “louca” da Orpheu?

     Violante De Cysneiros: Obra Completa é-me, repito, um livro de grande informação investigada e criatividade ensaística. Esqueçam as minhas considerações finais sobre a amizade e confiança entre os dois grandes escritores. Pedro Paulo Câmara mantém em todas as suas páginas o conhecimento factual. É isso mesmo que leva um leitor a especular. É isso mesmo que faz de um livro um grande livro, ou no mínimo uma das grandes fontes de conhecimento sobre quem fomos e somos.

Vamberto Freitas, critíco literário

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    Pedro Paulo Câmara, Violante de Cysneiros: Obra Completa, Insulana: Órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada,  Volume LXXIII, no. I, 2026.  Este texto foi publicado na Insulana numa versão bem mais extensa e aqui transformada sem retirar o seu sentido inicial.     

Texto publicado no Açoriano Oriental, edição de 28 de agosto de 2026                              

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