Joel Avila – como de repente nasceu um historiador do Pico*

Tenho repetido várias vezes em vários lugares, por escrito e oralmente, os meus comentários sobre as mudanças de atitude relativamente a Portugal e aos Açores que tenho vindo a observar nos EUA, sobretudo na última década. São várias as razões que não vem para aqui de momento analisar. Essa mudança em relação a Portugal atinge também os emigrantes e luso-descendentes. Era frequente ouvir-se emigrantes de visita aos Açores dizerem que tinha sido a última visita de regresso. Haviam matado saudades, mas isso era suficiente. Não seria necessário voltar.

Entre os emigrantes, a viragem começou mais cedo do que nos EUA em geral. Os jovens, que antigamente sentiam as férias em Portugal como um sacrifício da sua parte em benefício dos pais, foram os primeiros a apreciar as mudanças que no arquipélago foram acontecendo a todos os níveis da vida social, política, económica e cultural. Mas foi naturalmente a modernização do estilo de vida, as profundas alterações das estruturas físicas, a multiplicação de ofertas de lazer, tal como a liberdade e a segurança que sentiam no dia a dia, em contraste com a vida nos EUA, que levaram os jovens descendentes de emigrantes açorianos a querer voltar e permanecer por mais tempo.

Esse fenómeno ocorreu também com outro grupo de descendentes de açorianos: aquele que cedo se distanciou da vida étnica agarrada ao universo da L(USA)lândia – essa ilha portuguesa rodeada de América por todos os lados, instintivamente construída pelos emigrantes para se refugiarem e defenderem o seu modus vivendi no novo mundo. Foi esse afastamento deliberado que lhes permitiu singrar profissionalmente em carreiras várias inseridas na vida cívica e social norte-americana. Na sua maioria, essas pessoas cortaram raízes com o passado, ou pelo menos colocaram-no entre parêntesis; por vezes esconderam-no mesmo, a fim de evitarem ser vítimas de preconceitos contra o estilo de vida português que tinham sentido na pele já logo na escola primária.

Vários desses profissionais, ao atingirem a aposentação, também foram apanhados pela nova vaga de interesse em Portugal. Cada um terá tido as suas razões nuito pessoais, mas vários deles confessaram-me experiências semelhantes de, numa viagem a Portugal, ou aos Açores, terem tido uma espécie de epifania que os despertou para a curiosidade sobre o seu passado português, até ali reprimida, levando alguns deles a sentirem um enorme desejo de mergulhar na cultura dos seus antepassados para conhecê-la melhor e, na verdade, para se conhecerem melhor.

Pressenti que registar este novo fenómeno seria uma boa maneira de contextualizar a minha apresentação de Joel Avila aqui na sua terra natal. Na verdade, ele escapa em muitos aspetos ao retrato que atrás tracei, a começar por não ser um descendente de emigrantes, visto ter nascido no Pico e emigrado em criança.

Conheci o Joel através de um amigo comum, o Gil Perry, outro luso-americano que despertou para as suas raízes portuguesas depois da aposentação. Encontramo-nos os três (e por vezes com a preseça de outros) com regularidade para longos almoços e jantares em que nos esquecemos da comida e nos embrenhamos na conversa sobre a cultura e a história portuguesas, e açoriana em particular. Para mim, tem sido uma experiência magnífica. Desenvolvemos uma amizade que eu julgava impossível acontecer nesta fase da vida.

Percebi logo que o Joel Avila não brincava em serviço. Lia a fundo e começou cedo a embrenhar-se na história do Pico. Lançou-se a investigar questões específicas que tinha latentes na memória, ou que lhe foram surgindo nas leituras. Atirou-se em várias direções. Pediu-me alguns contactos e seguiu todas as pistas que lhe pareceram frutíferas. Aos poucos, devido à sua perspicácia e persistência, começou a encontrar novidades inesperadas. Nas suas viagens de férias ao Pico, nos intervalos de cuidar da restauração da casa dos pais na Manhenha, enfronhava-se nas bibliotecas esquecendo-se das horas e esticando a paciência da sua Susan.

Um dia, enviou-me um ficheiro digital com escritos rondando as mil páginas. Era as respostas a uma diversidade de perguntas suas acerca da história do Pico. Comecei a ler e achei logo que estava ali um livro valioso. O problema era a extensão. Ninguém compraria um volume de mil páginas, e os editores não gostam de obras em dois ou mais tomos. O primeiro vende-se, mas os seguintes ficam nas prateleiras. É que hoje quase ninguém tem tempo para leituras longas. Até os jornais sabem disso e cortam cada vez mais o número de carateres concedidos aos seus colaboradores.

Sugeri-lhe resumir tudo a um máximo de 300 páginas. Para isso, conseguir-lhe-ia um editor.

Em pouco tempo o livro estava pronto. Não era uma história completa do Pico, mas uma lista de respostas a quarenta perguntas que muita gente faz sobre esta ilha.

Obter um editor foi fácil. Nos EUA, a vasta maioria de picoenses e seus descendentes vive na Califórnia e, por isso, fazia perfeito sentido propor a Bruma Publications da California State Univeristy Fresno, que se traduz rapidamente num nome: Diniz Borges.

O resto é história. Graças a um acordo entre a Bruma Publictions e a editora Letras Lavadas, o livro está também disponível nos Açores e é hoje lançado aqui. Sobre ele falará a Professora Susana Goulart Costa, presentemente na dupla qualidade de académica e de Representante da República nos Açores.

O interesse de Joel Avila pela história do Pico não se ficou por este livro. Intrigado pelo papel dos Franciscanos na ilha, lançou-se também num estudo aprofundado sobre as consequências do encerramento dos conventos após a Revolução Liberal, e um dia apresentou-me um extenso trabalho quase pronto para publicação. Debrucei-me sobre ele e sugeri-lhe que não o publicasse porque tinha ali quase uma tese de doutoramento. Deveria candidatar-se a um programa de doutoramento na Universidade dos Açores, pois aí teria o apoio de quem o orientasse. Poderia então publicar o livro depois de fazê-lo passar pelo crivo crítico de um júri universitário, o que daria muito mais autoridade ao seu trabalho. O Joel aceitou a ideia e então pu-lo em contacto precisamente com a Professora Susana Goulart Costa. Os esforços conjugaram-se e hoje o Joel está inscrito num doutoramento na Universidade dos Açores, tendo por orientadora precisamente a Prof.a Susana Goulart Costa.

Mas se acham que isto é tudo, enganam-se. Numa das nossas conversas, falei-lhe de um luso-americano de nome William Wood, famoso magnate e CEO de uma grande empresa industrial em Lawrence, Massachusetts, há um século. Eu tinha tomado conhecimento dessa figura através de um livro de que uma pessoa amiga, americana e sem nenhuma ligação a Portugal, me falara. William Wood teria nascido em Edgartown, na ilha de Martha’s Vineyard, em Massachusetts, e, apesar do sobrenome Wood, a certidão de nascimento indicava o seu pai como natural desta ilha do Pico.

Desde a década de 80 que escrevo sobre ou refiro nas minhas palestras esse caso extraordinário de sucesso, e que procuro alguém interessado em investigar a árvore genealógica desse ilustre filho de picoenses. Em tempos, solicitei os bons préstimos do amigo Ermelindo Ávila, mas ele nada conseguiu. Quando Joel Avila me ouviu falar de William Wood num dos nossos jantares, tratou imediatamente de adquirir e ler o livro que eu mencionei e de se pôr à cata de documentos. Até foi ao cemitério de Martha’s Vineyard, arrastando consigo a sua Susan, que teve a paciência necessária para o acompanhar. Ocorreu-me entretanto pô-lo em contacto com a demógrafa picoense Professora Norberta Amorim e ela prestou-se imediatamente a ajudar, colocando à disposição dele os serviços de uma sua colaboradora. Já vários erros biográficos sobre a ascendência açorina da família Wood foram detetados pelo Joel e ele ainda não desistiu de pôr a limpo a árvore genealógica completa dela.

O facto de esse caso continuar em aberto não o impediu de se lançar ainda noutro que promete vir a dar um grande livro. Contudo não posso revelar esse projeto, pois envolve situações delicadas e complexas, e qualquer publicidade pode ser prejudicial à obtenção de informações fundamentais. Todavia não preciso de avançar mais nada para que fique claro que tenho um enorme apreço pelas capacidades de investigação do Joel Avila, que além disso escreve rigorosa e elegantemente.

Quanto ao livro Shades of Black and Gray. An Inquiry Into the Island of Pico and Its History (Bruma Publications and Letras Lavadas) merece ser traduzido para português porque até os picoenses aprenderão nele muito sobre a sua própria ilha. O Joel leu tudo – em português e inglês – aquilo em que conseguiu pôr as mãos em cima e, onde encontrou pistas promissoras, lançou-se na caça de novos dados para clarificar temas e corrigir antigos erros propalados sem base segura. Por isso este livro não é um resumo de informação pré-existente; trata-se de um novo contributo para a história do Pico.

Não sendo, porém, a mim que compete hoje falar dele – vim apresentar o autor – deixarei essa tarefa para a Professora Susana Goulart Costa. Ela fa-lo-á bem melhor do que eu, pois está em casa como historiadora e historiadora desta ilha. Por isso passo-lhe a palavra.

Velas, S. Jorge, 20 de agosto de 2026

Onésimo Teotónio Almeida


* Texto de apresentação do autor Joel Avila na sessão de lançamento do seu livro Shades of Black and Gray no Museu dos Baleeiros do Pico em 22 de Agosto de 2026.

Photos from Museu do Pico

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