POEMAS DE JOSÉ CARLOS BREIA (compilação por Nicolau Saião)

José Carlos Breia nasceu em 3 de Maio de 1930.

Leu muito e muita música ouviu.

As artes plásticas fascinam-no tal como a arquitectura.

Viajou pela Europa e pela América do Sul.

Trabalhou, naturalmente, pois sem dinheiro não se vive.

Reformou-se cedo.

É na altura em que se reencontra com António Luis Moita que este lhe prepõe, para ocupar o tempo livre, que junte todos os poemas que tinha feito e os publique.

Surge assim LUGAR NENHUM no ano de 2000, dado a lume na Assírio e Alvim.

Continua a escrever e tem neste momento mais três livros não publicados:

“Outro lado”, “Das pequenas coisas” e “Poemas do chão”.

                                                                                  (Nota: Faleceu em 2023)

                                                  *

DICIONÁRIO

Este é o livro

onde as palavras

cristalizam.

Do livro agora aberto

– do preciso rigor das suas linhas,

retiro algumas dessas formas frias.

Rodeio, lento, a sua geometria.

Paciente, procuro, ponto-a-ponto

a cruz axial em que se animam.

Os pequenos cristais

revelam ângulos, planos

que a sua dura forma escurecia.

Secreto,

fecho depois o livro em que o poema,

recomeçado sempre,

ausente fica.

RETRATOS

Olho os retratos

que nesta velha sala me rodeiam.

Entre quadros e livros muito lidos

eles cercam-me

e pedem-me cuidados:

que lhes tire o pó dos vidros

e a mancha das molduras.

Brilham agora, limpos,

mas ainda inseguros.

Eles querem também que os reconheça:

querem, da minha vida,

a vida que me resta.

(Mesmo o meu gato preto,

por quem chorei talvez

mais do que por ninguém,

me lança a fina fresta dos seus olhos

pedindo-me que o deixe ronronar).

Mas são, contudo, os vivos

  • os que ainda se arrastam lá por fora

que mais me preocupam.

Eram belos e plenos

seus corpos.

Pareciam eternos.

Mas há muito morreram

nos retratos

que nesta velha sala me rodeiam.

Do livro “LUGAR NENHUM”

                                          *

DAS PEDRAS 1

A pedra na mão.

Na minha mão

Disse-o Décio, o romano,

que com ela matou.

Disse-o o nómada Ben Zir

quando ao meditar

a rolou.

Devraux, o arqueólogo,

disse que se tratava de…

Von Zeint, o geólogo,

contestou

Se enobreceu túmulos

ou palácios

não sabemos.

Mas,

talhada por mãos hábeis,

foi arte,

é vida.

Passou por muitas mãos

e de todas, um pouco, ficou.

A pedra na mão.

Na minha mão.

Milhares de histórias

entre os dedos.

O MOCHO

A placidez informe das coisas.

Um rufo de asas

entreabre

o silêncio.

Teus olhos estelares

regressam.

Medito

no início dos astros,

na imensa noite

que antecedeu

o tempo.

E pergunto-me:

(sábio na fábula,

mau agoiro no grito)

de que avatar descendes?

Ou és transmutação?

EURÍDICE

Entrei por fim na casa abandonada.

Quanto tempo terá ela levado

a tricotar as teias pelos cantos,

a nublar vidros

velando espelhos, rostos e retratos?

Dados dois passos,

sob o ranger das tábuas e das portas,

vi

o que ficara de um vestido

no rasto da fuligem,

o rasgado verde resto da coberta

a resvalar da mesa,

as cadeiras partidas.

E, ao rodar a mão por um desenho

que o mofo recamara,

abri no espesso as linhas de uma face,

tirei do pó

uns olhos apagados.

Abertos, lentamente,

em mim pousaram

com tão funda ironia,

que, sem olhar pra trás,

abandonei-a.

E tudo se ocultou

em sucessivas dobras:

tempo, casa, razão,

cuidados meus.

                            

 O  NOVO  ALADIN

Se tivesse uma lâmpada

como tinha Aladino

que iria eu fazer para Pasárgada ?

Ser amigo de rei

tem desvantagens.

Não precisava de um rei

para escolher a cama desejada

e nela a mulher

com quem bulisse.

Primeiro,

queria uma casa com relvado,

entre campo e  praia,

sem vizinhos amáveis

que são uma chatice.

Amigos

isso sim

quantos quisessem vir.

Mas nunca mais de dois

de cada vez.

Queria

uma cama de água

com comando,

para sentir a calma das lagunas

a lua das marés

e dos riachos

o sussurro fresco.

A mulher é que era o drama:

olhos que falassem fundo,

esguia e louca

feita malagueta,

frescura de água de coco

e o doce da carambola.

Mas nada de escravatura.

Nua ou velada,

só viesse

quando o ritmo lhe pedisse

ou a isso fosse levada.

E pouco mais queria.

Escrever por acaso.

A melodia

do meu galgo solto.

E, na iridiscência

do meu copo

o reflexo inquieto

da memória.

A  CASA

No caminho

olho as janelas

donde já ninguém espreita

e as portas

a que só o vento bate.

O homem

levantou as paredes.

pôs as telhas,

e por baixo do fumeiro

a pedra do fogo

e a panela de ferro.

No canto mais escuro

escondeu a cama

onde dormia

e fazia os filhos.

Arroteou a terra,

fez a horta

e mais tarde a cerca

onde o porco

chafurdava os restos.

Dos filhos, muitos,

só ficaram dois:

um áspero e rude

a quem o pai deixou as cabras

e outro que cedo morreu.

Os restantes perderam-se

por oficinas, fábricas,

áfricas, que a imaginação debulhava

em frutos, terras úberes

e o bronze das mulheres.

O último deixou a casa

a que nada o prendia.

No silencio que só os ratos roem

pairam fiapos do riso

que a madeira range,

das lágrimas

que ressumam das paredes.

Apodrece o esqueleto.

Vai ruindo         

a velha casa. 

Já ninguém se lembra

de quem lá vivia.

J.C.B.

Leave a Reply