
Para a
Teresa Marques da Costa
– lutadora e sobrevivente
tenho saudades de mim
tenho saudades de mim
e do tempo em que nascia dentro do peito
o coração de sonhar
e acreditar que o mundo me esperava
para me oferecer uma bandeja
não do vil metal que cunha a moeda ou a prata
mas o oiro nascido do raio do sol
a depositar nas manhãs
onde nem o vento sussurrava para me deixar passar
no caminho traçado
e que julgava ultrapassar barreiras e escolhos
e pudesse sorrir e apanhar com ambas as mãos
o que a terra e o universo contém para oferecer
para além do perfume dos cravos e das rosas num jardim de inverno
saudade do sorriso ingénuo
em confiar em tudo e em todos
e concluir que tudo se mistura
numa tessitura de apagada ilusão
tudo se esvai com os anos de crescer
e de ter de encarar este e aquele
e ter de fazer escolhas ou não reter ninguém
que valha o sacrifício de lhes dar uma palavra
ou estender os braços e dar-lhes as mãos
na vida – tudo é incerto
e acabamos por nos estendermos de bruços
num deserto para ser consumido
pelas vorazes feras esfaimadas
da nossa carne e do jorro do sangue a salpicar
e a afundar-se nas areias brancas
matando o sonho que houve de sonhar
In Diário dos Açores – 22 de agosto de 2026
