Tenho Saudades de Mim por Víctor de Lima Meireles

Para a

Teresa Marques da Costa

– lutadora e sobrevivente

tenho saudades de mim

tenho saudades de mim

e do tempo em que nascia dentro do peito

o coração de sonhar

e acreditar que o mundo me esperava

para me oferecer uma bandeja

não do vil metal que cunha a moeda ou a prata

mas o oiro nascido do raio do sol

a depositar nas manhãs

onde nem o vento sussurrava para me deixar passar

no caminho traçado

e que julgava ultrapassar barreiras e escolhos

e pudesse sorrir e apanhar com ambas as mãos

o que a terra e o universo contém para oferecer

para além do perfume dos cravos e das rosas num jardim de inverno

saudade do sorriso ingénuo

em confiar em tudo e em todos

e concluir que tudo se mistura

numa tessitura de apagada ilusão

tudo se esvai com os anos de crescer

e de ter de encarar este e aquele

e ter de fazer escolhas ou não reter ninguém

que valha o sacrifício de lhes dar uma palavra

ou estender os braços e dar-lhes as mãos

na vida – tudo é incerto

e acabamos por nos estendermos de bruços

num deserto para ser consumido

pelas vorazes feras esfaimadas

da nossa carne e do jorro do sangue a salpicar

e a afundar-se nas areias brancas

matando o sonho que houve de sonhar

In Diário dos Açores – 22 de agosto de 2026

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