A Geografia Inacabada da Açorianidade

Há povos cuja geografia termina onde acaba a terra. A dos Açores nunca terminou na linha escura do horizonte. Desde que os primeiros navios romperam o silêncio do Atlântico, levando homens e mulheres para costas desconhecidas, o arquipélago começou a descobrir que a sua verdadeira dimensão não cabia apenas nas nove ilhas. Cabia, sobretudo, na extraordinária capacidade de permanecer inteiro enquanto se dispersava pelo mundo. Talvez por isso os Açores nunca tenham sido apenas um lugar. São uma forma de estar. Uma memória que aprendeu a viajar. Um modo de olhar o mar sem o ver como fronteira, mas como promessa.

Há quem diga que a diáspora começou no dia em que partimos. Creio exatamente o contrário. A diáspora começou no dia em que percebemos que era possível partir sem deixar de pertencer. Desde então, o Atlântico deixou de separar margens para unir destinos. Em cada porto onde um açoriano lançou âncora nasceu uma nova parcela do arquipélago. Em cada igreja erguida, em cada Império do Espírito Santo reconstruído, em cada escola de português, em cada grupo folclórico, em cada jornal comunitário, em cada estação de rádio, em cada universidade onde a língua portuguesa encontrou um lugar, os Açores voltaram a nascer. A geografia permaneceu a mesma; a pátria tornou-se maior.

É por isso que este livro tem um significado que ultrapassa largamente a sua dimensão editorial. Não se trata apenas da tradução para inglês de uma seleção das excelentes crónicas de José Andrade dedicadas à diáspora açoriana da América do Norte. Trata-se de um ato de reencontro. De uma tentativa de aproximar mundos que, paradoxalmente, pertencem à mesma história. Porque a verdade é que, durante demasiado tempo, fomos conhecendo a diáspora mais através da saudade do que através do conhecimento. Sabíamos que existia. Orgulhávamo-nos dela. Mas raramente a estudávamos na sua profundidade, na sua diversidade ou na sua extraordinária riqueza humana.

José Andrade pertence à rara geração de escritores que compreenderam cedo que a diáspora não constitui um apêndice da história açoriana. É uma das suas colunas fundamentais. Ao longo de décadas, percorreu comunidades, ouviu vozes, registou memórias, acompanhou instituições, estudou fenómenos migratórios e transformou tudo isso numa obra coerente, persistente e profundamente humanista. As suas páginas possuem uma virtude pouco comum: não descrevem apenas comunidades; ajudam-nas a reconhecer-se. Ao lermos textos como “Azoreanness Without Borders”, “Azoreans in California”, “Azoreans in New England”, “Thinking About the Diaspora” ou “The New Challenges of the Azorean Diaspora”, percebemos que estamos perante um pensamento que procura ligar margens, construir pontes e afirmar uma ideia de açorianidade que nunca termina nas fronteiras físicas do arquipélago.

Quando aceitei traduzir esta obra, fi-lo movido por uma convicção que considero decisiva para o futuro da nossa cultura. Traduzir não significa apenas transportar palavras de uma língua para outra. Traduzir é abrir portas que permaneciam fechadas. É devolver uma história aos seus próprios protagonistas. Como escrevi no prefácio deste livro, “os Açores são mais do que nove ilhas no meio do Atlântico; são uma ideia que aprendeu a viajar, a traduzir-se em novas geografias e em novas identidades.” Essa ideia tornou-se ainda mais evidente ao longo deste trabalho. Porque se, na América do Norte, vivem mais de um milhão de açorianos e luso-descendentes, sabemos igualmente que a esmagadora maioria das segundas, terceiras e quartas gerações já não lê em português. Essa realidade não representa uma derrota; representa um desafio. Não podemos esperar que todos regressem à língua dos seus avós. Também nós devemos caminhar ao encontro da língua em que hoje vivem, pensam, estudam e sonham.

As traduções tornam-se, assim, instrumentos de justiça cultural. Permitem que milhares de descendentes de açorianos possam finalmente ler a sua própria história. Permitem que um jovem da Califórnia descubra a riqueza das comunidades do Ontário; que alguém em Vancouver conheça a história da Nova Inglaterra; que um luso-descendente da Florida compreenda a importância da Bermuda na nossa narrativa migratória; que um estudante universitário descubra que os Açores nunca foram apenas um pequeno arquipélago perdido no Atlântico, mas uma civilização dispersa por continentes inteiros. Este livro aproxima essas geografias. Liga-as. Dá-lhes consciência de si próprias.

Porque existe outra realidade que importa reconhecer com humildade. Apesar da enorme dimensão da nossa diáspora, continuamos, muitas vezes, a viver fragmentados. Conhecemos razoavelmente bem a comunidade onde nascemos ou onde vivemos, mas sabemos pouco sobre as restantes. Na Califórnia conhece-se insuficientemente o extraordinário trabalho desenvolvido em Montreal ou em Toronto. Em New Bedford nem sempre se acompanha o dinamismo das comunidades do Oeste americano. Na Colúmbia Britânica poucos terão oportunidade de conhecer a profundidade histórica das comunidades da Nova Inglaterra. E, nos Açores, continuamos demasiadas vezes a olhar para a diáspora como um bloco uniforme, quando ela constitui um universo extraordinariamente diverso, criativo e complexo. Este livro ajuda precisamente a reduzir essa distância. Ajuda a criar uma verdadeira consciência coletiva da diáspora açoriana.

Acredito profundamente que o futuro da relação entre os Açores e a sua diáspora dependerá, antes de mais, da cultura. Muito se fala de turismo, de investimento, de negócios, de inovação ou de empreendedorismo. Tudo isso é indispensável. Mas nada floresce de forma duradoura sem uma base cultural sólida. É a cultura que cria pertença. É a literatura que constrói memória. É a língua que gera confiança. É o conhecimento mútuo que abre caminho às universidades, às empresas, aos intercâmbios, às relações económicas e institucionais. Primeiro conhecemo-nos; depois trabalhamos juntos. Primeiro lemos a nossa história comum; depois escrevemos o nosso futuro comum. A cultura nunca chega depois do desenvolvimento. É quase sempre aquilo que o torna possível.

Por isso, esta parceria entre a Bruma Publications, do Portuguese Beyond Borders Institute da California State University, Fresno, e a Letras Lavadas possui um significado que ultrapassa largamente a publicação de livros. Ela demonstra que o Atlântico pode deixar de ser apenas um espaço geográfico para se transformar num verdadeiro espaço editorial, intelectual e cultural. Demonstra que Ponta Delgada e Fresno podem construir uma mesma biblioteca. Demonstra que uma universidade americana e uma editora açoriana podem partilhar a mesma visão de futuro para a língua portuguesa, para os Açores e para a diáspora.

Quero, por isso, expressar a minha mais profunda admiração à Letras Lavadas. Num tempo em que publicar livros exige coragem, persistência e uma invulgar fidelidade à cultura, esta editora continua a afirmar-se como uma das grandes instituições culturais dos Açores. O seu catálogo demonstra uma confiança rara na literatura, no pensamento e na memória coletiva. Esta parceria editorial representa um dos mais belos exemplos de cooperação cultural entre os Açores e a diáspora, e acredito sinceramente que ainda estamos apenas no princípio de um caminho muito mais vasto.

À Livraria Letras Lavadas, deixo igualmente uma palavra de gratidão. As livrarias independentes são hoje lugares de resistência intelectual. São espaços onde os livros continuam a encontrar leitores antes de encontrarem compradores. Abrir esta casa a um livro como este é afirmar que a diáspora pertence plenamente ao património cultural açoriano contemporâneo e merece ocupar o lugar que lhe corresponde no pensamento do nosso tempo.

E termino regressando ao título deste livro: An Unending Bridge. Uma ponte sem fim. Talvez não exista imagem mais justa para definir aquilo que somos. As pontes verdadeiras nunca ficam concluídas. Cada geração acrescenta-lhes uma nova pedra. Cada tradução prolonga-lhes um novo arco. Cada livro amplia-lhes o horizonte. Que esta obra seja precisamente isso: mais uma pedra lançada sobre o Atlântico, para que os Açores estejam cada vez mais presentes na sua diáspora e para que a diáspora esteja, finalmente, cada vez mais presente nos Açores. Porque, no fim de contas, nunca existiram dois mundos separados. Existiu sempre um único arquipélago, espalhado por muitas geografias, falado em várias línguas e unido pela mesma memória, pela mesma cultura e pela mesma esperança. Somos uma só açorianidade sob diferentes céus.

Diniz Borges- apresentação feita em Ponta Delgada a 4 de agosto de 2026.

Leave a Reply