Onésimo para principiantes por Victor Rui Dores

Não é impunemente que se nasce numa ilha.

Onésimo saiu um dia da ilha, mas a ilha não saiu dele. Isto significa que a ilha (a real, mas também a perdida e a mitificada) viaja no íntimo do escritor e faz parte do seu imaginário afetivo. Na ilha ficou o paraíso irremediavelmente perdido da sua infância, as primeiras emoções e sensações, os ritos iniciáticos, o despertar para a vida, para o mundo e para o conhecimento das coisas.

Nascido no dia 18 de dezembro de 1946 na freguesia do Pico da Pedra, ilha de São Miguel, Açores, Onésimo Teotónio Almeida fez estudos no Seminário de Angra do Heroísmo e depois na Universidade Católica de Lisboa, onde se bacharelou em 1972. Neste mesmo ano fixou residência em Providence, Rhode Island, Estados Unidos da América. É doutorado em Filosofia pela Brown University, onde é Professor Catedrático de Estudos Portugueses e Brasileiros e leciona vários cursos interdisciplinares.

Saudoso da(s) sua(s) ilha(s), a ela(s) Onésimo está sempre a regressar, quer por via da memória, da escrita e da viagem mil vezes retomada. De resto, ele não tem feito outra coisa senão dar a conhecer Açores a quem os desconhece ou conhece mal. São vastos os seus conhecimentos sobre o arquipélago, constituindo esses saberes um magma de substância literária e filosófica abundante e diversificada. Em tempo de globalização e massificação, e nesta desvairada civilização caracterizada pelos 3 w´s – “world wide web” – este escritor teima em divulgar, por todas as vias, as ilhas açorianas.

I

Quem é Onésimo?

Para mim, Onésimo é o mais irónico dos escritores portugueses da atualidade. E isto porque ele faz da ironia uma intenção em tudo quanto escreve e diz.

Vagamundo e viajante infatigável (globe-trotter), embarcadiço (homo errabundus) e homem de todos os lugares (homo universalis), mestre da dialética e da ironia, interlocutor precioso e minucioso, conversador inveterado, impenitente grafómano em permanente diálogo com o seu tempo, Onésimo é fogo de rajada e é a inquietação de um desassossego criativo. Ilhéu universal, assim explica a sua universalidade:

“Nos Açores, eu, em criança, fui de São Miguel, minha terra natal, para a Terceira e lá percebi que era micaelense. Na Madeira senti-me açoriano. Em Lisboa, com os madeirenses éramos todos ilhéus. Fui a Badajoz e senti-me português. Mais tarde, em Paris, senti-me ibérico. Nos Estados Unidos percebi que era europeu. Na China, senti-me definitivamente ocidental. E sei que, se um dia fosse a Marte, ia sentir-me terrestre” (1).

Pensador livre e frontal, sincrónico e diacrónico, lúcido e lúdico, dotado de uma curiosidade insaciável, escritor atento ao real e ao risível das coisas, Onésimo é autor interdisciplinar: ele é um pensamento, um método, um estilo, uma originalidade, um confronto, um gosto pela reflexão, uma atitude crítica, um modo de fazer humor, uma ironia usada como arma de arremesso… Em livros publicados e em colóquios, congressos, conferências, comunicações e debates, Onésimo é Onésimo e tudo: filósofo (ou professor de Filosofia como prefere ser chamado),  ensaísta, académico, palestrante, intelectual, socrático, contista, cronista, historiador de cultura e de ciência, crítico literário, prefaciador, antologiador, editor, autor de peças de teatro e de “prosemas”, irresistível contador de histórias, apresentador televisivo, leitor quilométrico, fotógrafo, homem culto e arguto, acutilante e perspicaz, cidadão atento ao mundo e a tudo o que o rodeia – ele que passa a vida a explicar, a esclarecer, a exemplificar e a esmiuçar dois universos culturais: o português e o americano.

Para percebermos as linhas de força da sua (já vasta e consagrada) obra, importa lançar alguns olhares ao contexto histórico e cultural em que assenta a sua escrita.

II

De que falamos quando falamos dos Açores e em açorianidade?

            No princípio era o vulcão. O magma solidificou-se e, durante séculos, as ilhas ficaram desertas e aquietadas. Depois vieram gentes de diversos pontos de Portugal e um pequeno núcleo de estrangeiros europeus, sobretudo flamengos. As esperanças numa vida melhor originaram essa aventura de povoar um grupo de ilhas. (Diz-se, com ironia, que o açoriano resulta do tal português povoador que, por ter passado tão mal de viagem, não teve coragem de voltar para trás)…

O que é indiscutível é que esse primeiro povoador é um outro Robinson Crusoe, ou seja, é um outro náufrago que vai lutar pela sua sobrevivência e subsistência. É um homem despojado que tem de refazer a sua vida a partir do nada. Não nos esqueçamos que o início do povoamento das ilhas açorianas foi extremamente penoso e difícil. Ao chegarem às ilhas, os primeiros povoadores apenas encontraram mato cerrado e águias de asa redonda, vulgo milhafres (e não açores, segundo se julga). Foi necessário fazer queimadas, desbravar o solo, ensaiar as primeiras culturas, garantir as subsistências. Foi também preciso reagir às tempestades e intempéries ciclónicas, aos sismos, às cheias e a muitos outros perigos. E tal só foi conseguido com um grande espírito de entreajuda e solidariedade entre as populações ilhoas.

            É, por conseguinte, este povoador (e não colonizador: nos Açores houve um fenómeno de povoamento e não de colonização, pela simples razão de que não havia nas ilhas ninguém para ser colonizado) que, fortemente marcado pela geografia, dará origem ao açoriano.

            Entendamo-nos: os Açores são de Portugal e a sua cultura é inseparável e indissociável de dois milénios e meio de civilização europeia, quase nove séculos de história portuguesa e mais de cinco séculos de vivência insular, Mas a verdade é que, passado todo esse tempo, o açoriano já não é mais o minhoto ou o alentejano que às ilhas aportaram nas naus do povoamento. Como bem gostava de lembrar Pedro da Silveira, “o açoriano não é mais o berbere ou o flamengo – é, sim, a mistura do fidalgo lusitano com o escravo moiro; do judeu tornado cristão-novo com o artesão da Flandres; do espanhol conquistador com o aventureiro sem eira nem beira e, também, o descendente acidental do corsário inglês ou pirata argelino” (2).

 É esta diversidade e esta riqueza de influências que faz com que o povo açoriano seja um povo historicamente definido, dotado de um imaginário e de uma memória coletiva, possuidor de uma cultura e de uma identidade próprias.

Mais de quinhentos anos de contacto permanente com o mar, de isolamento físico e horizontes finitos, de muitas formas de solidão atlântica e de uma religiosidade que foi gerada no terror sagrado de sismos, vulcões e outras calamidades, são fatores que, desde meados do século XV, marcaram e moldaram o modo de ser, de pensar e de agir das populações açorianas.

 Tendo em atenção esta carga telúrica, Vitorino Nemésio criou o conceito de açorianidade, por decalque de hispanidad de Unamuno. Havia sido pedido a Nemésio um testemunho a propósito do V aniversário do descobrimento dos Açores. Nemésio, então com 31 anos de idade e residindo em Coimbra, sente-se saudoso das suas ilhas. Escreve o famoso texto “Açorianidade” (in Ínsula, nº 7, PDL, Julho-Agosto, 1932). Considerando as ilhas um “viveiro de lusitanidade quatrocentista”, Nemésio junta à experiência histórica a sensibilidade do ser açoriano por se viver há cerca de meio milénio nos Açores. Daí a célebre afirmação que “a Geografia vale outro tanto como a História” e a afirmação poética de uma “segunda natureza”, pois para aquele autor “nós, açorianos, somos de carne e pedra. Os nossos ossos mergulham no mar”.

Esta longa vivência insular acabou por estruturar modos de ser. Antes de Nemésio, já Luís Silva Ribeiro, pretendendo caracterizar a personalidade do homem açoriano, avançava com os seguintes traços identificadores: “O vulcanismo, a presença constante do mar, a insularidade ou isolamento do resto do mundo, a humidade do ar, a nebulosidade do céu, a temperatura oscilante entre estreitos limites, a pressão atmosférica, os vendavais e tempestades, a diferença entre ilhas e o continente pelo que respeita às condições geográficas e da paisagem, qualidades morais comuns a todos os ilhéus, a sua religiosidade profunda, espírito de submissão, indolência, imaginação criadora, sentido de perfeição e do pormenor, espírito satírico, certo grau de saudosismo”, etc. (3)

 Por sua vez, e a propósito dos estudos de Luís da Silva Ribeiro, João Afonso lembra o clima temperado, salino e húmido que “amolece” e pode designar-se por “mormaço”, ou segundo os visitantes ingleses irmãos Bullar, o “azorean torpor”. O autor refere-se ainda ao “spleen” (que pontua a poesia de Roberto de Mesquita), a que o povo denomina de “pasmaceira”. (4).

Para António Machado Pires, discípulo de Nemésio, a açorianidade é, por um lado, um conceito objetivo, na medida em que se refere “à identidade e caracterização do arquipélago dos Açores”; por outro lado, subjetivo, “porque na açorianidade ecoam ressonâncias afetivas e individuais. É a condição de viver e sobretudo ser ilhéu dentro e fora dos Açores. É a ilha em que se nasceu, a infância que se teve, fique-se ou não na ilha de origem. É uma alma que se transporta toda a vida” (5).

III

Dos ensaios ou a dialética onesiminiana

Tal como Vitorino Nemésio, também Onésimo Teotónio Almeida carrega consigo a ilha matricial e sabe que meio milénio de cultura portuguesa em experiência de vida insular tornou diferentes os açorianos.

Estudioso acérrimo da história cultural, do imaginário e da tradição literária dos Açores, Onésimo continua a publicar livros com espantosa regularidade, numa linha de contínua e continuada coerência com a sua obra primordial de onde irradia todo o seu imaginário: Da Vida Quotidiana na lUSAlândia (Atlântida Editora, Coimbra, 1975). Segundo ele, “a L(USA)lândia é uma ilha portuguesa rodeada de América por todos os lados”.

Este autor começa por aprofundar, a partir dos anos 70 do século passado, o significado da açorianidade, dissertando sobre a importância da cultura açoriana no contexto português e universal, procedendo a um levantamento da produção literária dos Açores, promovendo simpósios sobre a identidade cultural açoriana, antologiando autores açorianos, e, num tempo de muitas revoluções e de poucos consensos (e numa altura em que, nos meandros continentais, o que era “pró-açoriano” era invariavelmente confundido com “anti-português”), defende abertamente a existência de uma literatura açoriana, avançando, através de uma poderosíssima capacidade de argumentação, com um conjunto de teses, dificilmente refutáveis, que estão plasmadas nas seguintes obras: A Questão da Literatura Açoriana (SREC, Angra do Heroísmo, 1983); Da Literatura Açoriana – subsídios para um balanço (SREC, Angra do Heroísmo, 1986); Açores, Açorianos, Açorianidade (Signo, Ponta Delgada, 1989). O desconhecimento e/ou o desinteresse, demonstrado por muitos, em conhecer a tradição literária dos Açores é coisa que ainda hoje aborrece e preocupa Onésimo que, a propósito, não se coibiu de polemizar com Miguel Torga (6). De resto ele sempre defendeu, com unhas e dentes, as suas ideias, tendo-lhe ficado do tempo do Seminário um jeito muito peculiar de ousar, subverter e transgredir…

Onésimo sempre se impôs pela diferença das suas ideias. Em 1987 publica um estudo que seria premiado, Mensagem, uma tentativa de reinterpretação (S.R.E.C., D.R.A.C., Angra do Heroísmo, 1987) onde são aduzidas propostas de interpretação que partem da hermenêutica filosófica, divergentes das encontradas habitualmente centradas em visões esotéricas, místicas e patrióticas da Mensagem (editado em 1934), de Fernando Pessoa. Mais recentemente, Onésimo retomou e revisitou esse ensaio e, alargando-o, trouxe novos contributos aos estudos pessoanos ao encontrar consonâncias significativas entre a conceção do mito em Georges Sorel e o mito sebastianista de Pessoa, já que, entre outros aspetos, ambos situam o mito no futuro – mito esse que, segundo Onésimo, deve ser entendido como uma construção (7).

O nome de Onésimo está associado à literatura, mas a verdade é que os seus ensaios filosóficos têm uma dimensão mais significativa. É certo que este micaelense continua atento à produção literária deste e do outro lado do Atlântico, e não é menos verdade que são de referência os contributos que deu na divulgação de autores como Antero de Quental, Arruda Furtado, Fernando Pessoa, José Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, José Enes (seu professor e figura tutelar do Seminário de Angra) e Eduíno de Jesus (para dar apenas alguns exemplos). Porém são os seus ensaios filosóficos (inéditos alguns e muitos dispersos por revistas, livros coletivos, atas de congressos, comunicações apresentadas em conferências, simpósios e outros fóruns de debate) que constituem a sua obra mais sólida e consequente. Reunidos, alguns desses ensaios já deram as seguintes publicações: De Max a Darwin – a desconfiança das ideologias (Gradiva, Lisboa, 2009); O Peso do Hífen, Ensaios sobre a experiência luso-americana (Imprensa de Ciências Sociais, Lisboa, 2010); Pessoa, Portugal e o Futuro (Gradiva, Lisboa, 2014). Muitas outras se seguirão. Mas para percebermos melhor o pensamento de Onésimo, recomendo a leitura do livro Utopias em Dói Menor – Conversas Transatlânticas com Onésimo (Gradiva, Lisboa, 2012), que resulta de uma série de entrevistas dadas por Onésimo ao filósofo João Maurício Brás, detentor de um pós-doutoramento precisamente sobre os ensaios filosóficos de Onésimo.

Os temas, contidos nos livros acima referidos e que Onésimo tem vindo a desenvolver, são os seguintes: a Modernidade e as Mundividências, a Identidade Portuguesa e os Mitos da nossa Cultura, a Tradição Filosófica Anglo-Americana, as Ciências Sociais, as Ideologias, os Valores, a Ética, a Lógica, a Tradição Racionalista, a Metafísica, a Epistemologia, o Pragmatismo, entre outros.

Contracorrente em muitas áreas, Onésimo privilegia a Filosofia Analítica e dá muita atenção à Empíria. Mas também se interessa pela História e pela Ciência. Acima de tudo gosta de sínteses e não se cansa de aprofundar o tema da Identidade Portuguesa.

Bem informado e melhor apetrechado em termos teóricos, Onésimo, exegeta sagaz, possui essa capacidade de pensar, de forma profunda e acutilante, a partir de factos aparentemente banais. Daí as suas análises penetrantes e as suas interpretações magistrais. Autor difícil de enquadrar em escolas ou correntes, ele tem o dom de conciliar um método rigoroso (que integra as aquisições mais recentes da crítica e do ensaísmo) com uma manifesta capacidade criadora.

A prova disso mesmo está nos seus mais recentes livros de ensaios: Minima Azorica, o meu mundo é deste reino (Companhia das Ilhas, 2014), Despenteando parágrafos (Quetzal, 2015) e Diálogos Lusitanos (Quetzal, 2024). Pelo meio, um interessantíssimo diálogo cultural: Correntes d´escritas & Correntes descritas (Opera Omnia, 2019).

 Estamos perante um autor da reflexão crítica e da teorização estética. Apreciado pelas suas crónicas, convirá não esquecer que há este Onésimo profundo que muita gente desconhece: o do professor-filósofo-investigador universitário que faz trabalho teórico, científico e académico de forma sui generis. Ele é um filósofo que pensa em metáforas. Um cronista que gosta de contar histórias. Um ficcionista de livre navegação que despreza a aridez teorizante e olha o livro como ato vivido. Um poeta que busca o humor e a ironia. O resultado salta à vista: a escrita de Onésimo é sempre contagiante e sedutora, didática e pedagógica. E isto porque o que ele escreve resulta de experiências vividas e sentidas. Isto é, o seu discurso é criação, descoberta e aventura constante no mundo das ideias.

IV

 Das crónicasmundividência e afetividade

Onésimo é o criador da L(USA)lândia, a décima ilha (Direção de Serviços de Emigração, Angra do Heroísmo, 1987).

A partir de finais dos anos 70 do século XX, estava dado o mote: a crónica seria, assumidamente e até aos dias de hoje, o meio mais visível e mediático que levaria o autor Onésimo a chegar a um público mais vasto e diversificado. E encontrado estava o pretexto (ou pré-texto) para ele escrever sobre Portugal, os portugueses, os americanos, os luso-americanos, os Açores, os açorianos e sobre gente de todo o mundo. Com realismo e muita ironia à mistura.

Onésimo é pragmático e tem o vírus da escrita e o ouvido afinado pela oralidade. Cronista da condição humana, fino observador da vida que se lhe oferece em palco, escreve o autor na badana do livro Onésimo, Português sem Filtro, uma antologia (Clube do Autor, Lisboa, 2011), coordenado por Cristina Ovídio, João Maurício Brás e Ana Bernardo.

“Inscrevi nestas páginas o quotidiano dos mundos que habito, as personagens que encontrei, as minhas ou as nossas dúvidas e interrogações, as agruras e os prazeres da vida, mais a graça e as ironias com que ela gosta de nos brindar se estamos atentos. A unidade delas está na diversidade que afinal – vou reparando – todos vestimos. Na procura do sentido da vida e das coisas”.

As crónicas de Onésimo são as façanhas de Onésimo. Sabendo-se que, à boa maneira empirista, as ideias chegam a nós pela experiência, temos que Onésimo sabe do que fala e fala sobre o que sabe e conhece. Todas as suas crónicas, primeiro publicadas em jornais (que ele considera “um vício”) e depois editadas em livro, são disso um bom exemplo: Que nome é esse Ó NÉZIMO? e outros advérbios de dúvida (Salamandra, Lisboa 1994); Rio Atlântico (Salamandra, Lisboa, 1997); Viagens na Minha Era (Temas e Debates, Lisboa, 2001); Livro-me do desassossego (Temas e Debates, Lisboa, 2006); Aventuras de um Nabogador & outras estórias-em-sanduíche (Bertrand Editora, Lisboa, 2007).

Classificando as suas crónicas como “ensaios em mangas de camisa”, Onésimo “escrevive” as muitas e múltiplas experiências e vivências de quatro décadas em terras americanas. A partir da assimilação de duas culturas diferentes, ele faz, com grande lucidez e eficácia e através de uma escrita errática e de um discurso direto, comunicativo e afetivo, toda uma série de reflexões filosóficas, observações sociológicas, apreciações literárias e retira conclusões, reinterpretando e reinventando os temas que lhe são particularmente caros: a experiência da diáspora, a identidade, a assimilação e aculturação dos portugueses inseridos nas comunidades norte-americanas; o estudo do comportamento dos seus conterrâneos, seus pequenos gestos, suas relações pessoais e interculturais; os olhares lançados às mitologias do quotidiano dos dois lados do Atlântico (que para ele “é cada vez mais um rio entre a Europa e a América”). E vai escrevendo sobre as suas andanças pelo mundo, dando conta de acontecimentos, memórias, pensamentos, emoções, sentimentos, reações, juízos, opiniões, deslumbramentos e outros estados de alma.

O Onésimo cronista anda sempre de câmara fotográfica em punho e vai captando momentos únicos e irrepetíveis – os da fotografia e os da escrita. E depois há aquilo que nele é uma constante: o processo criativo de formação de palavras, de neologismos, a partir de estratégias de composição e derivação. Alguns exemplos de títulos das suas crónicas: “Contra o jornalismo de inBestigação”; “Vince…dores”; “Por mais háBILL”; “LIS(era)BOA”; “À la recherche do ficheiro perdido”; “Gasto…nomia”; “Desblogueio”; “Glória in excesso”, “Deus nos livro!”; “O F(ut)uro”, etc.

Detentor de uma funda cultura literária, ele segue primorosamente as regras dos clássicos gregos: logos, pathos e ethos. O objetivo é sempre o de contar – e bem – uma história. Para isso é nítida a intenção do narrador (autodiegético) em agarrar o leitor e de com ele estabelecer laços de cumplicidade e afetividade. Por isso e para isso há, na sua escrita, uma conceção de base hedonista (hedonde), de raiz horaciana (aut prodesse aut delectare) e de estética barthesiana (o deleite verbal do “plaisir du texte”). Ou seja, enquanto “auctor et actor” e filósofo do sentido, Onésimo é útil e dá-nos prazer, pois considero-o um “jouisseur” que faz do ato estético um jogo cerebral e vice-versa. Ele diverte-se e diverte-nos, faz-nos rir e ri-se de si próprio, tendo como base, para lá da ironia e do humor, uma sólida formação cultural. Porque há uma cultura e um humor que escreve Onésimo. E uma mundividência que o caracteriza. De resto este autor faz jus à origem do seu nome: Onésimo é de origem grega e significa “útil” e “proveitoso”. Ora, Onésimo é-nos sempre útil e proveitoso, sendo de uma grande generosidade para com aqueles que lhe solicitam os mais diversos tipos de apoio.

Concluindo: estamos na presença de um escritor atento ao real e ao risível das coisas; há, em Onésimo, uma capacidade de vibrar com as suas sensações e a dos outros e de tudo olhar com um espírito ao mesmo tempo crítico, irónico e dialético.

V

Da escrita de ficção

            Onésimo é um compulsivo contador de histórias (“story teller”), escrevendo-as com engenho e arte e misturando, em igual medida, realidade com ficção. E isto numa altura em que há quem queira fazer crer que a “short story” (na melhor tradição anglo-americana) é coisa de somenos importância, num tempo em que, em Portugal, faz moda uma certa literatura da desconstrução e do indizível, tendo-se instalado na cabeça de alguns plumitivos que escrever difícil é que é profundo. Nada mais errado e os grandes clássicos da literatura universal aí estão a provar precisamente o contrário.

            Bem urdidas e carpinteiradas, as histórias (ou estórias) de Onésimo transmitem-nos um enorme prazer de leitura. Basta ler os contos incluídos no livro (Sapa)teia americana (Vega, Lisboa, 1983), para se ter a certeza da capacidade narrativa e da mestria discursiva do seu autor. A obra dá conta da experiência da emigração em terras americanas. Com grande realismo, o autor escreve a aculturação de um povo e, com humor e inteligência, dá às narrativas uma frescura sem precedentes na literatura açoriana. Os contos são atravessados pelo linguajar micaelense num processo de osmose linguística. Refiro-me aos vocábulos ingleses que sofreram deformação fónica na boca dos falantes açorianos em terras do tio Sam.

            Este registo da fonética micaelense (com um brilhozinho nos olhos dou este exemplo a puxar para o vernáculo vicentino: “- K´vantôdes pòkarolhe!”, (Sapa)teia americana, pág. 119) e todo um exercício da deturpação da linguagem (os “americanismos”) já eram patentes em Ah! Mònim dum corisco! (Edições Gávea-Brown, Providence, 1978), peça de teatro que Onésimo escreveu para ser levada à cena em 1976 (8). Nela, o autor mergulha fundo no húmus da oralidade e do discurso popular, através da exploração da sonoridade, da manipulação a nível lexical, da ordenação rítmica.

            Ainda na área do teatro, e num registo sério mas onde nunca falta a ironia, Onésimo publicará a peça, em três atos, No seio desse amargo mar (Salamandra, Lisboa, 1992), até hoje nunca levada à cena, que dá conta de um improvável mas apetecível reencontro, algures numa Atlântida imaginária, envolvendo as seguintes personalidades: Armando Côrtes-Rodrigues, Roberto de Mesquita, Vitorino Nemésio, Antero de Quental, Teófilo Braga, Domingos Rebelo, Francisco de Lacerda, Alice Moderno e J.H. Santos Barros.

            A apetência de Onésimo pela ficção narrativa está patente no livro Quando os bobos uivam (Clube do Autor, Lisboa, 2013), trocadilho ao título do romance Quando os lobos uivam, de Aquilino Ribeiro, publicado em 1958. A obra reúne quatro histórias que poderiam ser outros tantos guiões cinematográficos – são narrativas muito visuais, apresentadas em forma de um (quase) diário. Para cada conto, Onésimo disfarça-se na pele de outros (e assim baralha deliberadamente os dados), abre a sua caixa de Pandora e de lá retira uma série de histórias pessoais que são, afinal, a sua melhor fonte para ficção. Aliás, ele tem feito da experiência da sua vida vivida uma experiência de arte: “A arte, muitas vezes, não vai além de uma pálida imagem do que a vida é capaz de inventar”, escreve na página 198, o que diz muito da exegese onesiminiana. Pouco dado a simplificações e a verdades absolutas, Onésimo lança, neste livro, olhares desassombrados sobre a experiência da diáspora,  a identidade e a assimilação de duas culturas diferentes. E isto sem nunca perder de vista o leitor, com quem vai dialogando de forma omnisciente e autodiegética. Rico de espessura evocativa, cruzam-se, nas páginas da obra, histórias, citações, memórias, peripécias, revisitações, referências, acontecimentos e mundividências.

            Onésimo tem também o seu lado lírico e poético, ele que muito cedo começou a versejar e a teatralizar quando andou pelo Seminário de Angra…

Onze Prosemas (e um final merencório), (Editora Ausência, 2004) é, de facto, um livro a todos os níveis sui generis. A começar pela ausência de pontuação e pelo neologismo criado por Onésimo: “prosema”, poema em prosa. Aqui Onésimo, não perdendo de vista a mundividência literária, dá largas à sua expansão lírica, não escondendo um relacionamento de vaivém entre a ficção narrativa e a vida. O autor escreve de viagem. E os seus escritos são também impressões dessa viagem. Porque ninguém escreve a partir do nada. Escrever é dar uma resposta à arte e à vida. Porque, afinal de contas, é à vida onde a literatura vai colher a sua natureza e a sua substância.

VI

Considerações finais

Escrever sobre Onésimo é falar de um saber plural. Daí a pluralidade da sua obra (em construção) onde podemos justamente encontrar uma unidade numa diversidade.

Movimentando-se em diversos registos de escrita, as crónicas dão-lhe imensa visibilidade, mas é nos ensaios que mais e melhor aprofunda o seu imaginário. A pedra de toque da sua ensaística remete-nos para a questão dos Valores e das Mundividências.

Com os Açores a povoarem o seu imaginário, este é um autor que defende a modernidade como lugar de utopia. De resto modernidade e universalidade atravessam os seus livros, que têm merecido acertadas leituras dos mais conceituados críticos: Eduardo Lourenço, Eugénio Lisboa, George Monteiro, Eduardo Mayone Dias, Fernando Assis Pacheco, José Martins Garcia, Urbano Tavares Rodrigues, Daniel de Sá, Maria Alzira Seixo, Fernando Venâncio, Vamberto Freitas, Luís António de Assis Brasil, João de Melo, Urbano Bettencourt, Diniz Borges, Miguel Real, entre muitos outros nos quais modestamente me incluo.

Se o pensamento de Onésimo é profundamente português, a sua metodologia de análise é estruturalmente anglo-americana. Quero com isto dizer que este autor não é dos que usam palavras a mais para esconder ideias a menos… Bem pelo contrário: ele dá forma e expressão ao que sente e pensa, sem aparatos académicos, esquivando-se a hermenêuticas e a considerações excessivamente teóricas, escrevendo num português vivo e escorreito, em estilo limpo, de grande elegância lexical, e com uma muito bem conseguida articulação de ideias. A ironia é para ele uma intenção e, como todos os escritores, escreve para lutar contra o esquecimento.

Horta, 5 de setembro de 2014

Horta, 27 de julho de 2026

Victor Rui Dores, poeta

(1) João Maurício Brás, Utopias em Dói Menor – Conversas Transatlânticas com Onésimo (Gradiva, Lisboa, 2012).

(2) Pedro da Silveira, Prefácio à Antologia de poesia açoriana do século XVII a 1975, (Lisboa, Sá da Costa, 1977).

(3)Luís da Silva Ribeiro, Obras (vol. 1), Etnografia Açoriana, Instituto Histórico da Ilha Terceira, SREC, Angra do Heroísmo, 1982.

(4) João Afonso, Subsídios para um ensaio sobre a Açorianidade (Angra do Heroísmo, 1964).

(5) António M.B. Machado Pires, Páginas sobre Açorianidade (Letras Lavadas edições, 2ª edição, 2013).

(6) Onésimo Teotónio Almeida, “Recado para Miguel Torga sobre a Insularidade Açoriana”, Açores, Açorianos, Açorianidade (Signo, Ponta Delgada, 1989), havendo ainda uma 2ª edição revista e aumentada, Instituto Açoriano de Cultura, 2011).

(7) Onésimo Teotónio Almeida, Pessoa, Portugal e o Futuro (Gradiva, Lisboa, 2014).

(8) Existe uma 2ª edição da obra: Eurosigno Publicações, Lda., Ponta Delgada, 1991.

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