Não me venham dizer por José do Carmo Francisco

Em resumo 48

Apesar de a minha terra não ser muito próxima de Santarém, eu sempre ouvi falar do crime do Casal da Milharada. Nasci em 1951 e o crime ocorreu em Julho de 1939 mas as memórias terríveis do acontecimento perduraram no tempo. Os meus avós maternos, ambos nascidos em 1906, chamavam «Fardeta» a quem se portava mal. Era essa a alcunha de um dos criados de lavoura (o outro era João Nunes) que mataram os patrões (Maria do Patrocínio e Francisco Agostinho) e uma menina de doze anos (Maria Celestina) que era irmã do «Fardeta» – ambos filhos de Esmeralda José Pinto e naturais do Setil. O crime torna-se macabro porque o «Fardeta» matou a própria irmã julgando assim evitar a descoberta dos autores do assassinato do casal, seus patrões. Além da estranheza nos arredores pelo desaparecimento de três pessoas, o chefe da estação da C.P. (Lázaro Santos) pediu à polícia de Santarém que investigasse o paradeiro de Francisco Agostinho. Coube ao tenente António Antunes Basílio a descoberta de João Nunes em Abrantes e do «Fardeta» no Setil com o seu irmão conhecido por «Baratinha», cúmplice do crime tenebroso. Detidos foram também José Venâncio, António Pardal e sua mulher que compareceu no Tribunal de Santarém com um menino de poucos meses ao colo. Mas mesmo assim foi condenada a um ano de prisão por ter encoberto o crime e o roubo. Em Fevereiro de 1940 o Tribunal condenou os cinco réus: quatro a 34 anos de prisão e um a 20 anos. Quase ao mesmo tempo (Setembro 1939) ocorreu o crime da Quinta da Bica em S. Vicente do Paúl. José dos Santo Rato e sua amante Maria Almeida mataram uma criança e dois octogenários roubando a seguir roupa e dinheiro. Na memória viva deste dois crimes não aceito o «antigamente é que era bom» que me querem impingir. Em resumo: não me venham dizer.

José do Carmo Francisco, escritor   

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