
“Estou no monte, ao luar,
Vigiando o meu rebanho,
Não venham lobos tragar
Os anhos que guardo e tenho”.
Coelho de Sousa, Três de Espadas
O padre Coelho de Sousa (1924-1995) foi, nos inícios dos anos 70 do século passado, meu (excelente) professor de Português no então Liceu Nacional de Angra do Heroísmo. Referência indelével no imaginário de várias gerações de estudantes, ele foi também meu “maïtre à penser” que me fez ler os clássicos da literatura portuguesa e, deste modo, marcou e moldou, decisivamente, o meu gosto pelas palavras. Foi pela sua mão generosa que, no dia 14 de Janeiro de 1977, vi um poema meu impresso pela primeira vez nas páginas de um jornal – “A Uniâo”.
E foi de igual modo com o padre Coelho (como era popularmente conhecido) que me iniciei na aventura teatral, tendo sido ele o meu primeiro encenador em pequenas representações de teatro de escola. Motivado por ele e pelos seus múltiplos talentos, lancei-me na aventura da escrita e dediquei-me às artes de palco. Até aos dias de hoje.
I
Do clero e do Seminário de Angra
Tenho, pois, uma enorme dívida de gratidão para com o padre Coelho de Sousa. Ele tipifica – e bem – a influência do clero na nossa formação cultural.
Basta lembrar que, até meados do século XIX, toda a cultura dos Açores e nos Açores estava praticamente nas mãos do clero. Porque, bem vistas as coisas, quem trouxe a cultura para estas ilhas não foram os marinheiros do povoamento (que não sabiam ler) nem foram os nobres (que eram iletrados).
Em meados do século XV, a cultura foi trazida para estas ilhas pelos frades franciscanos e carmelitas, e mais tarde, pelos jesuítas e capuchinhos. Depois, a partir dos finais do século XIX, e durante todo o século XX, tivemos o padre que, a par do professor primário, deu contributos decisivos na criação de áreas tão diversas como grupos corais, filarmónicas, ranchos de folclore, grupos de teatro, artesanato, ciência, desporto, etc.
Por conseguinte, é de grande relevância o papel do padre no desenvolvimento cultural dos açorianos. Pessoalmente, posso aqui dar um rápido testemunho, já que, durante a minha adolescência terceirense, eu assisti a uma dinâmica cultural que irradiava do Seminário Episcopal de Angra, iniciada nos anos 50 e prolongada até princípios dos anos 70 do século XX. Recordo aqui as decisivas cinco Semanas de Estudo, promovidas pelo Instituto Açoriano de Cultura, a importância dos suplementos literários “Pensamento” e “Glacial”, do jornal “A União”, as edições “Cadernos de Pensamento”, a grande qualidade dos espectáculos musicais e teatrais apresentados no Seminário, com especial destaque para o seu Orfeão, que ao longo dos anos manteve sempre a marca da excelência.
Ainda sou do tempo em que os angrenses designavam os seminaristas de “melros pretos” e “estorninhos”, porque os alunos saíam em grupo à rua, ao sábado, de batinas pretas, romeiras e chapéus pretos. Como os bandos de estorninhos eram presságio de chuva, era frequente os seminaristas ouvirem os sarcasmos dos transeuntes com quem se cruzavam: “Amanhã vai chover”…
Dialogando com a contemporaneidade, o Seminário de Angra trouxe, pois, renovação cultural e espiritual, numa altura em que não havia outra instituição de ensino superior nos Açores. O Seminário formou e ajudou a formar largas centenas de jovens de todas as ilhas. Com efeito, para além da preparação teológica e filosófica, dali saiu gente com muito boa formação cultural, humanística, musical, teatral e até científica.
E é aqui que entra em cena o padre Coelho de Sousa que, vindo do Seminário para as aulas do Liceu de Angra, trazia as ideias arejadas do Concílio Vaticano II (“a aurora dos novos tempos”, como então se dizia) de cujo aggiornamento era defensor. Isto numa altura em que o Seminário de Angra possuía um corpo docente de luxo, constituído por padres com formação superior adquirida em Roma: José Enes, Artur Cunha de Oliveira, Francisco Carmo, Francisco Caetano Tomás, Edmundo Oliveira, entre outros, que, dentro e fora do Seminário, contribuíram para uma mudança de mentalidades, e funcionaram como motor das reformas em curso.
Havia, na altura, mudanças visíveis na Igreja, apesar das desconfianças do Bispo de então. Não me esqueço da radical novidade que constituiu a introdução da língua vernácula na liturgia – para muitos um atentado contra o mistério e o misticismo da religião. Já em finais dos anos 60 fui testemunha e participante da introdução, nas eucaristias, de instrumentos amplificados: viola ritmo, viola baixo e até bateria… Lembro-me da boa música que o padre António Rego passava no seu programa “Hoje é Domingo”, aos microfones da Rádio Clube de Angra. E havia também o inesquecível programa “Vampiros”, da responsabilidade dos finalistas do Liceu de Angra e que passava música de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, padre Fanhais, Luís Cília e outros. E faziam também furor, naquela estação emissora, as palestras do tenente-coronel José Agostinho, que muito contribuíram para aquilo a que então se chamava de “cultura geral”.
Mas o que eu não poderei esquecer é que, em tempo de Estado fascista e numa época em que o Bispo de Angra e dos Açores, Dom Manuel Afonso de Carvalho, funcionava como um autêntico travão à renovação eclesial e aos avanços culturais que então se viviam, o padre Coelho de Sousa foi a coragem e a voz resistente no púlpito, na escrita e também aos microfones da referida Rádio, com o seu desassombrado programa “A vida é para ti”, onde assumiu sempre a lucidez de uma consciência crítica perante o mundo e o meio que o rodeava.
As consequências não se fizeram esperar: o padre Coelho de Sousa teve um processo na PIDE porque, numa pregação, se insurgiu contra a Guerra Colonial. Sofreu 6 horas de interrogatório e foi ameaçado de prisão, o que não se verificou. Em contrapartida teve, durante muito tempo, a sua residência vigiada…
Foi sempre um homem olhado de soslaio pelos poderes públicos e privados, e com desconfiança pelas autoridades eclesiásticas. Refira-se, a propósito, que duas semanas após a sua morte, o padre Júlio da Rosa, em artigo no “Correio da Horta” intitulado “O padre Coelho não pode morrer”, escrevia, certeiramente, que o padre terceirense fora sempre “mal compreendido pela hierarquia da Igreja”.
Agudo e arguto observador da realidade, cordial no trato, cumpridor e meticuloso, competente e minucioso, o padre Coelho entendeu inteligentemente o seu tempo e possuía ideias claras e rigorosas sobre as coisas de que falava e escrevia. E expunha-se bastante, pois que, diariamente, escrevia opinião para o jornal “A União”, de que foi director.
Profundamente humano, solidário e fraterno, eloquente e afável, o padre Coelho de Sousa era senhor de uma vasta cultura e possuía o charme discreto de quem nunca deixara de sonhar intensamente. Foi um padre progressista, na verdadeira acepção da palavra. Mas sempre se assumiu como homem do povo, mantendo-se fiel às suas origens humildes e populares. Poucos como ele estiveram atentos e vigilantes às manifestações de cultura popular. Ele amou verdadeiramente o seu povo. Com o povo viveu, festejou e sofreu. E exerceu o múnus sacerdotal de forma apaixonada. Sempre de forma apaixonada.
Estou a vê-lo, sorriso amistoso, ajeitando os óculos, caminhando esguio e elegante, nos corredores do Liceu, vestindo os impecáveis fatos de bom corte que sempre usava. (Era um esteta e tinha lá as suas vaidades…). As suas palavras ecoam-me ainda nos gonzos da memória. Dificilmente esquecerei o dia em que ele confirmou, numa aula, a existência de Deus, nos seguintes termos: “Deus existe. Nunca O vi, mas sei que Ele existe. Também não vejo o vento, mas sei que ele existe porque o sinto a bater-me na cara”.
II
Um breve perfil biográfico
Nascido no dia 30 de Setembro de 1924, na antiga vila de São Sebastião, ilha Terceira, Manuel Coelho de Sousa viria a ser ordenado padre no dia 20 de Junho de 1948. Começou por escrever em suplementos culturais, tendo exercido, entre 1956 e 1962, as funções de chefe de redacção do jornal “A União”. No ano lectivo de 1962/63 estudou Filologia Hispânica na Universidade de Salamanca. Não tendo completado os estudos, por motivos de saúde, regressou aos Açores, tendo sido nomeado, a 31 de junho de 1963, Pároco da vila de São Sebastião. Nesta sua freguesia natal, paroquiou durante 32 anos, desenvolvendo muitas e múltiplas actividades religiosas e culturais.
Pastor atento ao seu rebanho, vivendo no microcosmo da ilha Terceira, este eleito de Cristo foi um homem universal – porque sentia em si todo o Universo e toda a dor do mundo. Viveu de atos e palavras, notabilizando-se como orador sacro: denunciou a falsidade, o egoísmo, a injustiça, o cinismo, a corrupção e a insensatez dos homens. Foi ainda professor nos Seminários Episcopais de Angra e do Padre Damião e, como atrás já se disse, do Liceu de Angra. Dotado de grande sensibilidade estética, foi poeta, prosador, jornalista, dramaturgo, encenador, orador sacro, homem da rádio, desenhador, pintor, conferencista e animador cultural de reconhecidos méritos.
Em 1976 voltou ao serviço de “A União”, primeiramente como director-adjunto de Monsenhor José Lourenço e, após a morte deste, como director, cargo que deixaria a 30 de Setembro de 1994. Foram 24 anos de intensa actividade de escrita diária naquele vespertino, com as rubricas “Registo”, “Nota bem” e “Bom dia”. O pároco teve uma ação pastoral notável e lutou por uma verdadeira doutrina social da Igreja. Ou seja, lutou para que a Igreja saísse das suas paredes.
III
Obra publicada
Uma manifesta necessidade de comunicação e de expressão fez de Coelho de Sousa o escritor e o poeta que deu à estampa os seguintes livros: Poemas de Aquém e Além (1955, reeditado em 1995 e 2005), Três de Espadas (1979), Na Rota da Emigração (1983), Migalhas (1987) e Boa Nova (1994), sendo os dois primeiros de poesia e os restantes de prosa.
Constituído por um conjunto de crónicas, e inicialmente publicadas no jornal “A União”, Na rota da emigração dá conta das impressões de uma viagem “meio apostólica, meio recreativa” que Coelho de Sousa efetuou por terras do Canadá e Estados Unidos da América, numa altura em que convalescia de “grave doença”. De tudo o que viu, ouviu, viveu e sentiu, escrevendo, com apreço e gratidão, sobre as pessoas que conheceu e das mordomias de que foi alvo, Coelho de Sousa partilha connosco o espanto e o deslumbramento que as Américas lhe deixaram na memória, não deixando de, criticamente, estabelecer comparações entre o que se passa(va) nessas terras distantes com o atraso e o marasmo das ilhas… Acima de tudo, estas crónicas celebram a amizade (“A amizade é uma festa”) e dão vivo testemunho da ação laboriosa e corajosa dos emigrantes açorianos em terras americanas.
Migalhas e Boa Nova são reflexões, de temática religioso-pastoral, que Coelho de Sousa dirigiu aos habitantes da freguesia de São Sebastião em forma de mensagem social-cristã. Mero pretexto (ou pré-texto) para retratar, em tempo de angústia e de solidão, a alma de um povo, pois, enquanto cidadão e padre, Coelho de Sousa sempre defendeu os valores da dignidade da pessoa humana.
Deste autor foram postumamente publicados os seguintes livros, numa organização de Dionísio de Sousa, que continua a proceder à seleção, organização e catalogação de todo o espólio do inesquecível pároco de São Sebastião: Testamento Poético (2013), coletânea de inéditos; Êxtases Picoenses (2014), conjunto de crónicas que Coelho de Sousa escreveu aquando de uma estada na ilha montanha, em 1961; A promessa (2ª edição, 2016); Peças de Teatro (2025) e Conversas ao Telefone & Conversas ao microfone (2025).
IV
Da poética de Coelho de Sousa
Poeta não-alinhado quer estética quer ideologicamente (se bem que haja, na sua poesia, ressonâncias do romantismo, do simbolismo e da modernidade), a poética de Coelho de Sousa espelha o humano e o simbólico e conta e canta a trindade Criador-Amor-Ilha. “A minha guerra é de Amor”, é um dos seus mais emblemáticos versos que escreveu em Três de Espadas. A vida deste padre não foi outra coisa senão isso mesmo: uma guerra de Amor ao próximo, ele que sempre acreditou que a arte deveria estar ao serviço da humanidade.
A sua entrega e “o seu drama íntimo de doação total a Cristo” (segundo a feliz expressão de José Enes), fê-lo fixar, em tintas de esperança, a evidência e a plenitude do amor. De resto, toda a obra de Coelho de Sousa é atravessada pelo sopro de um amor divino: “Eu tenho no meu peito um mar sem horizontes… / Se há nele tardes de finados cor de chumbo/ Nele há também manhãs de Páscoa esplendorosas./ E sempre em todo o mar há uma vela branca / o Amor divino anda embarcado” (“Tormento”, Poemas de Aquém e Além, pág. 41), obra em que se assume, desde logo, como poeta da modernidade.
Há também, nos poemas de Coelho de Sousa, o “inquietante prazer” de um discurso amoroso pressentido, luminoso, quase feliz: “Numa tarde de Setembro/ Inda o sol não era posto/ Tu chegaste (bem me lembro)/ Com beijos de vinho mosto.// E em cada mão uma vela/ Para o barco dos meus olhos;/ E no coração a estrela/ Do nosso mar sem escolhos.// E a tua fala era a brisa/ Dum sonho nunca sonhado…./Foi a vindima imprecisa/ Dum verão mal sazonado”. (“Vindima”, Três de espadas, pág. 83).
O livro Testamento Poético, que homenageia o homem da cultura plural que profundamente amou o seu povo, inclui poesia de sabor popular, lança olhares sobre aspetos sociais, dá conta de usos, costumes, festas populares e vivências marcadas pela ruralidade açoriana, não esquecendo a emigração. E, a propósito, gostaria de destacar o poema “A resposta”. São 46 quadras sob a toada de carta, de filha emigrada dirigida aos pais, em estilo popular, onde é anunciada uma visita à terra natal, “com destaque para a festa de chegada e as ofertas para regalar parentes e amigos”, segundo escreveu Álamo Oliveira, ele que é autor de um poema congénere: “Carta de João Valente (raminhense da Terceira) a seu irmão embarcado na Califórnia (Gastinhas)”.
Desta obra póstuma, um outro poema merece também referência especial. Trata-se de “Volta à ilha”, uma verdadeira declaração de amor à ilha Terceira feita em 61 quadras. Mas atenção: em Coelho de Sousa a ilha não é apenas o fascínio da paisagem e a alma das suas gentes – é também lugar de confronto, de denúncia e renúncia: “É urgente despertar/ Deste marasmo de ilhéu/ E pôr bandeiras no ar!/ Quem não acorda morreu”. (“É urgente”, Três de Espadas, pág. 105). Mesmo na sua poesia mais religiosa, essa denúncia está quase sempre presente. Por exemplo, o poema que escreveu sobre S. João Batista tem como epígrafe “Não se calar… pode ser uma das exigências da condição cristã”.
Escrevendo em quadra, soneto ou em verso livre, Coelho de Sousa possuía o ouvido que escreve e tinha um perfeito domínio da formalização poética.
A última vez que com ele estive já minado pela doença, falámos da vida e da literatura, numa tarde chuvosa de Outubro. E desse último encontro com o meu generoso mestre, guardo até hoje esta certeza: os poetas só morrem se deixarmos de os ler.
Victor Rui Dores, poeta
