Moby Dick, de Herman Melville – uma (re)leitura com os Açores em fundo por Victor Rui Dores   

                                                                                                                                                                        

Eu fui criado numa casa que tinha dentes de baleia no peitoril das janelas a servir de calço. Entre Abril e Outubro, as arriadas à baleia faziam parte do quotidiano e, na vila da minha infância (Santa Cruz da ilha Graciosa), saíamos da escola em correrias para assistir ao desmancho dos cetáceos, após terem sido rebocados para a baía da Barra.

Por meados dos anos 60 do século passado, a Graciosa possuía duas armações baleeiras, e toda a gente mantinha um profundo respeito para com os homens envolvidos na caça ao cachalote: oficiais, trancadores, remadores, mestres das “gasolinas” e vigias.

Sempre me impressionou a aventura épica dos baleeiros que, em frágeis canoas e mediante processos primitivos, se entregavam a uma luta intensa e desigual, desafiando a vida pela morte do majestoso Leviatã. Por conseguinte, a baleia faz parte do meu imaginário e marcou, sobremaneira, a minha infância. (1)

Antes de chegar à literatura, a baleia já estava na linguagem popular (“Vais ver com quantos paus se faz uma canoa”), no cancioneiro (“Balear por balear/ Nunca no mar baleei/ Balearam os meus olhos/ Quando para ti olhei”), no adagiário (“Baleias no Canal terás temporal”) e nas manifestações de cultura popular (o scrimshaw e as miniaturas de botes baleeiros).

É no século XIX que a baleação açoriana é conhecida além-fronteiras, sobretudo através de duas obras: La Carrière d´un Navigateur (1889), do príncipe Alberto de Mónaco, havendo neste livro um capítulo intitulado “La mort d´un cachalot”, que descreve minuciosamente todas as etapas da caça à baleia; e Moby Dick, do escritor norte-americano Herman Melville (1819-1891), nascido e falecido em Nova Iorque. Referência primeira na literatura baleeira, e um dos mais conhecidos romances da literatura universal, Moby Dick, Or The Whale publicado em 1851, constitui uma obra-prima absoluta. (2)

 Após ter exercido vários ofícios entre 1832 e 1841, Melville viajou, em 1847, para a Inglaterra como tripulante de um navio mercante. Cinco anos depois, fez parte da tripulação de um navio baleeiro, “Acushnet”, resultando experiências que, mais tarde, descreveria em vários livros, sobretudo em Moby Dick que, a partir da segunda edição, passa a ostentar o subtítulode A baleia Branca.

A narrativa desta obra dá conta de uma viagem de caça a uma gigantesca baleia branca, chamada Moby Dick, na perseguição da qual vai a tripulação do navio baleeiro “Pequod” comandado pelo capitão Ahab, que se apoia sobre uma perna artificial. Homem estranho, severo e de mau humor, cicatriz profunda no rosto, ele nutre, por aquele cetáceo, um ódio furioso e uma desesperada sede de vingança já que Moby Dick lhe arrancou a perna em anterior viagem realizada nos mares da Gronelândia.

Todos cumprem as irascíveis ordens do temível capitão: Starbuck (o imediato), Stubb (o segundo-oficial), Flask (o terceiro-oficial), os arpoadores e os marinheiros. Para todos, Moby Dick afigura-se como um animal portentoso, medonho, malicioso e violento. Enigmática, indefinida, poderosa e sublime, a baleia é encantamento, segredo e aventura.

De entre os membros da tripulação, seguem a bordo do “Pequod” um jovem marinheiro açoriano que, nos tempos livres, toca tamborim e dança, o que não deixa de ser curioso (cf. capítulo “Meia-noite no Castelo da Proa. Arpoadores e Marinheiros”). No capítulo “Cavaleiros e Escudeiros” e referindo-se aos baleeiros açorianos, Melville escreve:

Não poucos destes caçadores de baleia são originários dos Açores, onde os navios de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente para aumentar a tripulação com os corajosos camponeses destas costas rochosas.(…) Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores baleeiros”. (3)

No primeiro parágrafo do capítulo “O Jacto Fantasma”, lê-se: “Passaram-se dias, semanas. Com pouco pano, o “Pequod”, cor de marfim, tinha percorrido lentamente quatro paragens de cruzeiros diferentes: ao longo dos Açores, ao largo de Cabo Verde; perto do rio Prata e da baixa Carrol, extensão marítima não delimitada, ao sul de Santa Helena”.

Os Açores voltam a ser referenciados no capítulo “O Afidavit” quando é narrada a história de “Union”, uma baleeira de Nantucket que se perdeu com toda a sua tripulação em 1807 “nas costas dos Açores” em consequência do ataque de um cachalote enorme e enraivecido que, ferido de morte, avançou direito à “Union”, abrindo um rombo nos flancos da baleeira que se afundou em poucos minutos.

Recorde-se que é dramático o desfecho de Moby Dick: o navio “Pequod” será partido em fragmentos pela fúria da baleia, tornando-se o capitão Ahab presa da sua pretendida vítima. Com excepção de Ismael (o narrador da história que embarca no “Pequod” como simples marinheiro e funciona como uma espécie de personificação de Melville), todos os elementos da tripulação conhecerão a morte. E Moby Dick some-se sem ser ferida, cumprindo-se o que o capitão da baleeira “Delight” transmitiu, em alto mar, a Ahab: “Ainda não foi forjado o arpão que há-de matar Moby Dick”.

Combinando habilmente factos e ficção, Moby Dick é mais do que um livro de aventuras marítimas – é um autêntico manual da caça à baleia, com uma dimensão literária que atinge a epopeia. Para alguns críticos, Moby Dick é uma alegoria ao mistério da vida humana e é um símbolo da luta entre o bem e o mal. Para outros, a baleia representa Deus, o terror dos que cruzam o mar de Nantucket, o castigador dos oceanos.

Se trago Moby Dick à baila é pela sua importância como documento para a compreensão do incremento da baleação açoriana, na sua fase mais pujante, e da sua íntima ligação à americana. E isto porque foi precisamente no convívio directo com as baleeiras dos Estados Unidos que, no século XIX, os açorianos aprenderam e desenvolveram os métodos de caça à baleia, prática que, nos Açores, se manteve até aos anos oitenta do século XX.

Recorde-se que, antes de a caça à baleia se tornar uma atividade industrial radicada nos Açores, as baleeiras americanas tinham sido um recurso para a mão-de-obra açoriana e, principalmente, o veículo privilegiado para se atingir o território do Novo Mundo (“embarque de salto”), em fuga ao recrutamento militar e à fome e, desse modo, são inseparáveis os rumos que a emigração açoriana tomou no século XIX, com reflexos para a própria linguagem, em que não por acaso a palavra baleeiro se tornou equivalente a emigrante.

O impacto produzido pela caça à baleia nos Açores, sobretudo nas ilhas do grupo central (com destaque para as ilhas do Pico e do Faial), as suas incidências no tecido social e a sua importância económica vão a par com os seus reflexos em toda uma literatura de expressão baleeira, de que dou aqui apenas estes exemplos: As Ilhas Desconhecidas (1926) de Raul Brandão; Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio; Aventuras de Baleeiros (1950), de Manuel Greaves; Mar Rubro (1958), Pedras Negras (1964) e Mar pela Proa (1976), a “trilogia da baleia” de Dias de Melo; Mulher de Porto Pim (1983), de Antonio Tabucchi, entre outros.

 Falam dessa gesta baleeira outros autores como Roberto Mesquita, Florêncio Terra, Miguel Street de Arriaga, Ernesto Rebelo, Rodrigo Guerra, Nunes da Rosa, Hipólito Raposo, Marcelino Lima, José Martins Garcia, Manuel Ferreira, Pedro da Silveira, Emanuel Félix, Manuel Ferreira Duarte, João Afonso, Nuno Álvares Mendonça, Álamo Oliveira, etc. (4)

Na ficção narrativa e na poesia, e tal como podemos ler nas páginas de Moby Dick, os autores acima referidos polarizam uma série de traços inerentes aos baleeiros: coragem, individualismo, um sentido muito apurado de dignidade – no fundo consequências de um processo de emancipação complexo, que vai da posse do solo até ao sentimento de liberdade que se aprende nas rotas marítimas.

Experimentados marinheiros, os baleeiros açorianos são-nos (d)escritos como homens irreverentes, generosos, destemidos, cumpridores, manhosos e competitivos, sempre prontos ao risco, à aventura e à solidariedade. Ou seja, são gente de grande riqueza psicológica e funda expressão humana. Os referidos autores escrevem sobre a intensidade dramática da baleação e traçam perfis sobre esses lobos do mar, lançando sobre eles olhares de espanto e profunda admiração. Como esquecer um Ti Amaro da Mirateca (Mau Tempo no Canal), embarcado a salto ainda “com tabaco no imbigo” e que cruzou os mares atrás das baleias, chegando mesmo a ir ao bacalhau à “Gronlanda”? Como não recordar para sempre o Francisco Marroco (Pedras Negras), personagem trágica que um dia desafiou a ilha, abalando numa baleeira com os olhos postos na América e, uma vez regressado, acaba afinal esmagado por essa mesma ilha, após o fugaz intervalo de uma felicidade ilusória? São personagens em nada inferiores a um Queequeg ou a um Tashtego, arpoadores de Moby Dick.

De referir ainda a nítida influência do inglês-americano na quase predominância dos termos ligados à atividade baleeira açoriana. Alguns desses termos não têm expressões correspondentes em português, como, por exemplo, balckskin, junk, case, short-warp e loggerhead, pelo que os nossos baleiros aportuguesaram esses termos, respectivamente, em “blaquesquine”, “janco”, “queize”, “chote-ope” e “logaête”.

Por outro lado, há um sem número de vocábulos ingleses que sofreram deformações fónicas e fonéticas pelos falantes baleeiros. Entre muitos outros, temos os seguintes exemplos: “blôs”, do inglês to blow, que significa soprar, ou seja, o bufo da respiração da baleia; “ampo”, do inglês hump, a curvatura do dorso da baleia; “espelha”, do inglês spade, um dos instrumentos utilizados no esquartejamento do cachalote; “traiol”, do inglês try-work, caldeiros ou caldeirões onde se derretia o toucinho da baleia. (5)

Nos tempos que correm, o cachalote tornou-se, nos Açores, cabeça de cartaz, sendo abundantemente fotografado e filmado por visitantes de todo o mundo através do “whale watching” – naquela que constitui uma atividade marítimo-turística de crescente importância.

Terminada a aventura baleeira, os cachalotes passeiam-se, hoje, livremente nos mares dos Açores.

 Victor Rui Dores, poeta

(1) Orgulho-me, hoje, de ser o autor da letra “Boi do mar”, com música de Luís Alberto Bettencourt – canção escrita para “Os últimos baleeiros”, programa televisivo produzido e realizado em 1988 pela RTP/AÇORES. Desde então a cantiga tem conhecido larga divulgação por cantores e grupos corais, dentro e fora dos Açores.

(2) Entre outros, Melville é autor dos seguintes livros: Typee (1844), Omoo (1847), Mardi (1849), Redburn (1849), Túnica Branca (1850), Pierre (1853), Israel Potter (1855) e O vigarista (1856).

(3) Recorro à tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, in Moby Dick (Relógio D´ Água Editores, 2005).

(4) Recomendo a leitura do ensaio “A baleação na narrativa açoriana”, incluído no segundo volume de O gosto das palavras de Urbano Bettencourt (Jornal da Cultura, 1995).

(5) Para mais informações, sugiro a leitura do Glossário de termos baleeiros que o autor florentino João Gomes Vieira coligiu para o seu livro O Homem e o Mar – Embarcações dos Açores (Intermezzo-Audiovisuais, Lda., 2002).

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