
Em resumo 45
Viver numa das últimas freguesia de uma cidade como Lisboa tem destas consequências: a partir de uma certa hora os transportes públicos são escassos. Acresce ainda o facto de o Metropolitano de Lisboa não chegar a todo o lado; é necessário apanhar primeiro o dito cujo Metropolitano e de seguida um de três autocarros (716, 746 ou 758) e às vezes o 703 um pouco mais à frente no percurso e mesmo assim é preciso ainda andar a pé um bom bocado até chegar a casa. Tudo isto para dizer que um dia destes fui à Baixa da cidade para recolher o correio acumulado ao longo de uma semana e lá pelas 21h 45m da passada sexta-feira dei por mim a iniciar a viagem de regresso. Quando saí do Metropolitano na estação do Jardim Zoológico, subi as escadas até à paragem dos três autocarros já referidos (716, 746 e 758) mas aconteceu que ao sentar-me no banco metálico da paragem uma criatura que lá estava sentada começou a fugir ou como se diz em linguagem da polícia «encetou fuga». Não sei nem nunca virei a saber qual a razão mas aquilo meteu-me grande nojo como por exemplo me mete nojo o sorriso parvo do carrinho de compras cheio à porta de um supermercado ou me mete nojo o sorriso parvo dos dejectos de um cão em cima do passeio aqui ao pé da porta. Eu estava só a sentar-me na ponta do banco metálico ou seja do lado oposto ao lado onde estava a criatura e não disse nem tinha que dizer nada mas isto pode ter sido tomado como uma tentativa de assédio. Não sei porquê nem faço ideia. Tudo é possível. Em resumo: a criatura fugiu.
José do Carmo Francisco, escritor
