Nota de Leitura por José do Carmo Francisco

CONTABILIDADE DA AUSÊNCIA

António Ferra (n.1947) estreou-se em Poesia com o livro «Com a cidade no corpo» em 2002. Este seu livro recente de 82 páginas (Edições Fantasma, prefácio de Maria Armandina Maia, capa de Paulo Chagas, revisão de Paulo Oliveira Ramos, ilustrações de António Ferra) organiza-se em quatro sequências: «Ausências», «Cartas distantes», «Um sapo redondo de flor na boca» e «Entre o pescoço e da vírgula». Se todo o poema é no fundo um inventário e um balanço de um facto sentimental, percebe-se melhor este título – Contabilidade da ausência. O primeiro poema do livro lembra quem partiu (« – Onde está o David? – Partiu há dois anos numa bicicleta de vidro.») mas também lembra quem percorre um caminho: «Quando caminhava por serras e lameiros férteis/achava que um poema entrava por ali, com a água da rega/ao fim da tarde. /E estava certo». O poema da página 70 é exemplar do tipo de medos que faz da vida uma floresta de enganos: «temo o medo das pedras inseguras/o medo da vulgaridade dos mitos/ao longo do Peloponeso/ou da fria auto – estrada para o norte/temo/o medo nas ruas do meu bairro/o medo de ficar sem ler jornais/se morrer de cancro o Ramiro do quiosque/temo/o medo da asma, da pieira e da bronquite/medo do fogo/a queimar um veado tresmalhado /na floresta de todos os enganos». Tal como este, alguns dos poemas deste livro desafiam o chamado «lugar-comum»: a meia dos cardeais não é a Ceia dos Cardeais, a liga na faca não é a faca na liga, o bolo de nós não é o bolo de noz. Mas a Literatura é sempre uma homenagem à Literatura; não por acaso o poema da página 51 lembra as primeiras palavras da novela «Menina e Moça» de Bernardim Ribeiro.

José do Carmo Francisco, poeta

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