Entre o Abismo e a Aurora: A Sibylla e o Regresso de uma Grande Voz da Poesia Portuguesa

Há livros que chegam ao leitor. E há livros que regressam à História. A Sibylla – Versos Philosophicos, de Marianna Belmira de Andrade, pertence a esta segunda categoria. Não se trata apenas da reedição de um poema publicado em 1884. Trata-se da restituição de uma consciência literária que, durante mais de um século, permaneceu deliberadamente afastada do cânone, silenciada pela geografia, pela misoginia, pelo centralismo cultural e pela cegueira crítica. Graças ao extraordinário trabalho editorial de Henrique Levy, esta voz ergue-se novamente, não como curiosidade arqueológica, mas como uma das mais poderosas revelações da literatura portuguesa oitocentista.

A leitura de A Sibylla provoca um fenómeno raro. À medida que os versos avançam, desaparece a distância temporal. O leitor deixa de estar perante um documento do século XIX para entrar numa obra cuja inquietação permanece profundamente contemporânea. Marianna Belmira de Andrade escreve com uma amplitude filosófica que ultrapassa largamente o seu tempo. A sua poesia não procura o sentimentalismo nem a intimidade romântica. Procura o destino da humanidade. Procura a liberdade. Procura a justiça. Procura a dignidade do homem comum.

Desde os primeiros versos percebe-se que estamos perante uma poeta de imaginação monumental:

“Suspensa no alcantil, da alevantada serra,
Ela tinha, a seus pés, toda a extensão da terra,
Toda a extensão do mar…”

A imagem inicial possui uma grandeza quase bíblica. A Sibila surge elevada sobre a montanha, entre o céu e a terra, assumindo simultaneamente a condição de mulher, profetisa, consciência e voz universal. É uma entrada de uma força cénica extraordinária, reveladora de uma autora que domina plenamente os recursos da construção épica.

Poucos poemas açorianos do século XIX conseguem sustentar durante centenas de versos semelhante intensidade imagética. A linguagem é exuberante sem cair no excesso gratuito; o léxico revela uma cultura literária impressionante; a construção em alexandrinos demonstra domínio técnico pouco comum; e, sobretudo, existe uma extraordinária unidade filosófica que percorre toda a obra.

Marianna Belmira de Andrade não escreve apenas poesia. Escreve pensamento em estado de incandescência. A sua Sibila transforma-se rapidamente na voz dos esquecidos, dos trabalhadores, dos humilhados. Num dos momentos mais impressionantes do poema, a poeta dirige-se diretamente ao operário:

“Escravo do trabalho, ó rígido valente;
Dos batalhões da paz, ó bravo combatente!”

Poucos versos bastam para elevar o trabalhador à condição de verdadeiro herói da História. Enquanto grande parte da literatura oitocentista permanecia fascinada pelos salões aristocráticos, Marianna Belmira deslocava o centro moral da civilização para aqueles que construíam o mundo com as próprias mãos. É impossível não reconhecer aqui ecos de Victor Hugo, cuja influência é justamente assinalada por Ângela de Almeida, bem como uma voz profundamente original, marcada pela experiência insular, pelo isolamento e por uma consciência social invulgarmente avançada para a época. Mais extraordinário ainda é o modo como a autora funde filosofia, política, natureza e espiritualidade numa única respiração poética. A Liberdade deixa de ser conceito abstrato para se converter numa presença física:

“É ela, a Liberdade!
Tomai! Eis o pendão que ao brado da igualdade
Se desenrola triunfante às auras do futuro.”

Não há retórica vazia nestes versos. Há verdadeira fé na possibilidade da transformação humana. É precisamente esta dimensão ética que faz de A Sibylla uma obra muito superior ao simples interesse histórico. O poema continua vivo porque continua a interpelar-nos.

Mas talvez a descoberta mais surpreendente que uma leitura contemporânea permite seja perceber como esta voz açoriana, aparentemente isolada no Atlântico, participa das grandes inquietações intelectuais que, em meados do século XIX, atravessavam igualmente a literatura escrita por mulheres nos Estados Unidos. Não se trata, evidentemente, de procurar influências diretas. Tudo indica que Marianna Belmira de Andrade nunca terá lido Emily Dickinson, Margaret Fuller, Frances Ellen Watkins Harper ou Sarah Piatt. O que impressiona é precisamente o contrário: a existência de afinidades profundas que nasceram de forma independente, como se a condição feminina, confrontada com estruturas semelhantes de exclusão, produzisse respostas literárias convergentes em margens opostas do Atlântico.

É inevitável recordar Emily Dickinson. Não porque ambas escrevam da mesma forma — Dickinson constrói a miniatura lírica enquanto Marianna escolhe a arquitetura monumental do poema épico —, mas porque ambas fazem da escrita um território absoluto de soberania intelectual. Dickinson converte um quarto em geografia do infinito; Marianna transforma uma montanha num observatório moral da humanidade. Uma desce ao interior da consciência; a outra eleva-se sobre o mundo para o contemplar. Percursos distintos que convergem numa mesma recusa da submissão e numa idêntica liberdade de pensamento.

Existe igualmente uma afinidade notável com Frances Ellen Watkins Harper, uma das maiores vozes afro-americanas do século XIX. Harper utilizava a poesia como instrumento de combate à escravatura, à desigualdade e à exclusão. Marianna, por seu lado, devolve dignidade épica ao trabalhador anónimo, ao proletário, ao marginalizado, ao “escravo do trabalho”. Ambas recusam que a poesia seja mero ornamento estético; fazem dela uma forma de intervenção moral. Quando Marianna escreve:

“Escravo do trabalho, ó rígido valente;
Dos batalhões da paz, ó bravo combatente!”

está a elevar os invisíveis ao centro da História com uma intensidade ética que encontra um extraordinário paralelo na poesia de Harper.

Também Sarah Morgan Bryan Piatt, hoje justamente recuperada pela crítica norte-americana, partilha com Marianna uma atitude profundamente moderna perante a escrita feminina. Embora Piatt recorra mais frequentemente à ironia subtil e Marianna à eloquência profética, ambas recusam o confinamento da mulher ao sentimentalismo convencional. A mulher deixa de ser objeto da poesia para se tornar consciência crítica do seu tempo.

Mas talvez a aproximação filosófica mais significativa seja a de Margaret Fuller, a grande pensadora transcendentalista americana. Em Woman in the Nineteenth Century (1845), Fuller defendia que a emancipação da mulher constituía uma condição essencial para a emancipação da própria humanidade. A Sibila de Marianna Belmira de Andrade encarna precisamente essa consciência superior. Ela não fala apenas enquanto mulher; fala como voz universal da liberdade, da justiça e da dignidade humana. O seu discurso ultrapassa qualquer reivindicação individual e assume uma dimensão verdadeiramente civilizacional.

Estas convergências não diminuem a originalidade da poeta jorgense; ampliam-na. Revelam que, numa pequena ilha do Atlântico, floresceu uma inteligência capaz de participar, por caminhos próprios, no grande diálogo internacional das escritoras do século XIX. Enquanto muitas histórias literárias continuam a apresentar os Açores como periferia, A Sibylla demonstra precisamente o contrário: que a verdadeira literatura desconhece margens geográficas. O génio nunca depende da localização. Depende da intensidade da visão.

É aqui que a excelente introdução da poeta Ângela de Almeida assume importância decisiva. Mais do que contextualizar historicamente a autora, devolve-lhe um lugar na história da literatura portuguesa. Logo nas primeiras páginas, reconhece explicitamente que foi Henrique Levy quem tornou possível este reencontro, afirmando que “devemos a Henrique Levy o esmerado trabalho de pesquisa (…) Assim como lhe devemos a excelente fixação do texto – nada fácil – e a nota crítica.” Mais adiante, formula talvez a pergunta mais importante de toda a edição:

“Afinal, o que tem sido a História da Literatura Portuguesa? E qual o lugar, afinal, de Marianna Belmira de Andrade?”

São perguntas que ultrapassam esta autora. Constituem uma interpelação dirigida ao próprio cânone literário português, durante demasiado tempo construído a partir de uma perspetiva centralista, masculina e incompleta.

Henrique Levy responde a essas perguntas da única forma verdadeiramente consequente: investigando, editando e devolvendo ao presente aquilo que a memória cultural deixara perder. O seu papel nesta edição ultrapassa largamente o de editor. É investigador, filólogo, crítico textual, anotador e verdadeiro arqueólogo da literatura açoriana. O rigor com que estabelece o texto, atualiza criteriosamente a ortografia, identifica referências históricas, filosóficas e mitológicas e reconstrói a biografia da autora revela um trabalho de enorme exigência intelectual.

Mas seria profundamente injusto limitar o elogio apenas a esta obra. Henrique Levy tem vindo, através da Nona Poesia, a desenvolver um dos mais importantes projetos editoriais dedicados à poesia portuguesa contemporânea e ao património literário açoriano. Num tempo dominado pela rapidez editorial e pela lógica comercial, escolheu o caminho mais difícil: publicar aquilo que importa permanecer. Recupera autores esquecidos, reedita textos fundamentais, revela novas vozes e oferece aos leitores edições de um rigor raro. Cada livro da Nona Poesia representa um ato de resistência cultural contra o esquecimento.

Editar, neste caso, deixa de significar imprimir livros. Passa a significar reconstruir a memória coletiva. Poucos editores compreendem tão profundamente que a literatura não vive apenas da criação de novas obras; vive igualmente da coragem de resgatar aquelas que a História abandonou. Henrique Levy tem desempenhado precisamente esse papel. Tornou-se um dos grandes guardiões da memória literária açoriana, não apenas enquanto poeta e ficcionista, mas também como editor cuja visão cultural ultrapassa largamente o seu próprio trabalho criativo.

Graças ao seu labor paciente, Marianna Belmira de Andrade regressa hoje ao lugar que lhe pertence. Não como simples curiosidade bibliográfica. Não como nota de rodapé. Mas como uma das maiores vozes femininas da poesia portuguesa oitocentista.

Ao fechar A Sibylla, permanece a sensação rara de termos escutado uma voz que nunca deveria ter sido silenciada. Uma voz que atravessou cento e quarenta anos de esquecimento para nos recordar que a poesia pode ser simultaneamente pensamento, filosofia, revolta, justiça, esperança e beleza.

E talvez seja esse o maior triunfo desta edição. Não apenas devolver Marianna Belmira de Andrade aos leitores portugueses. Mas colocá-la, finalmente, no grande mapa da literatura ocidental, onde pode dialogar, de igual para igual, com as mais notáveis escritoras do seu século. Porque é precisamente aí que pertence. E é esse, talvez, o mais belo legado que Henrique Levy oferece à literatura portuguesa: lembrar-nos de que os grandes livros nunca desaparecem verdadeiramente; apenas aguardam o editor capaz de lhes devolver a voz.

Diniz Borges

Leave a Reply