
Amadeu Baptista
CONCERTO PARA FLAUTA E CANIVETE SUÍÇO
Já em 1986 a Revista Seara Nova registava em «Poesia Portuguesa – Anos 80- algumas direcções» a importância da obra de Amadeu Baptista (n.1953) que se tinha iniciado em livro no ano de 1982 com «As passagens secretas». O facto de este autor não ter participado num Festival Literário recente no Porto, cidade onde nasceu (vive em Gaia a menos de mil metros da Câmara Municipal portuense) vem dar razão a Raul Brandão (1867-1930): «Em Portugal ser diferente dos outros é uma desgraça mas ser superior aos outros é uma desgraça muito maior». Além de poeta, Amadeu Baptista é um notável tradutor de poesia: Islândia, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Noruega, Grécia e Espanha. O seu mais recente livro parte de uma ideia da Friedrich Nietzsche «Tens a arte para não morrer da verdade». O primeiro poema é a voz de quem se encontra num praia: «de súbito, tudo volta para trás, tudo é cativo/e volto a passar as mãos pelo teu cabelo,/essas ínfimas aves que chegaram a uma praia/que ninguém sabe que existe, o coração». O segundo poema define e define-se: «a minha arte é frontal, pungente, desoladora – fruto de muitas /antecipações da guerra de muita solidão e deuses desavindos». O terceiro poema declara: «o que a minha poesia deve à magnitude do azul é da ordem da veemência». Aqui não há apenas a acção («o que cada um é capaz de aguentar») há a memória: «todas as estrelas eram ao tempo o único colorido do mundo: cinco pontas cosidas na banda do casaco/que não tínhamos». Uma noção de poema está na página 16: «que a arte seja, mais do que um fruto, um gesto caloroso». O poeta afirma «ponho ideias claras para pessoas comuns nos meus poemas». O título do livro está na página 30: «às vezes vozes como as que deponho sobre as sílabas/e, outras vezes, corpos que na natureza aguardam que alguém vindo do vento os denomine:/ um selim, maçãs, tílias, mulheres, um concerto para flauta e canivete suíço». Amadeu Baptista venceu o Grande Prémio de Poesia Gil Vicente da Câmara Municipal de Guimarães e da Associação Portuguesa de Escritores. Edições Fantasma, Capa Eva Hiernaux.
