O Arquipélago das Vozes

A terceira edição de Ogygia e um novo território para as letras portuguesas

Há dores que terminam no silêncio. Outras descobrem, lentamente, a linguagem. Talvez toda a história da literatura possa ser lida como a longa travessia entre essas duas margens: a da experiência, que permanece muda, e a da palavra, que finalmente a torna visível. Durante séculos, porém, a literatura confundiu demasiadas vezes o silêncio das mulheres com a sua ausência. Não era ausência. Era invisibilidade. As palavras existiam, mas permaneciam afastadas das bibliotecas, dos programas universitários, dos grandes compêndios da crítica e das genealogias oficiais que decidiram quem merecia permanecer na memória e quem deveria desaparecer com o tempo. A literatura portuguesa, como quase todas as literaturas do mundo, foi construída tanto pelo que escreveu quanto pelo que escolheu esquecer. Também ela possui as suas sombras, os seus vazios, as suas páginas por completar.

É talvez por isso que a terceira edição de Ogygia – Revista Literária chega ao leitor com uma serenidade rara e uma força que dispensa qualquer proclamação. Não levanta a voz para reclamar um lugar; escreve como quem sabe que esse lugar sempre lhe pertenceu. Sob o tema “Mágoas, Dores e outros Dissabores”, esta edição não se limita a organizar um conjunto de textos em torno do sofrimento feminino. Realiza algo muito mais profundo: demonstra que a dor, quando atravessada pela inteligência, pela imaginação e pela criação artística, deixa de ser apenas uma experiência individual para se tornar património da humanidade. A literatura não elimina a ferida; oferece-lhe linguagem. E, ao fazê-lo, restitui-lhe dignidade. É precisamente nessa transformação — da dor em pensamento, da experiência em arte, da memória em permanência — que reside a unidade invisível desta extraordinária publicação.

Há revistas que publicam literatura, outras que acompanham discretamente a evolução do seu tempo e outras, muito mais raras, que acabam por modificar a própria forma como uma cultura aprende a ler-se a si mesma. Ogygia pertence, decididamente, a esta última categoria. Desde a capa até à última página, percebe-se que não estamos perante uma simples publicação periódica, mas diante de uma verdadeira obra coletiva, cuidadosamente arquitetada, onde ensaio, poesia, ficção, crítica literária, recensão, tradução e artes plásticas dialogam entre si como movimentos de uma mesma composição estética. Nada parece casual. Cada texto prepara o seguinte; cada imagem prolonga uma metáfora; cada tradução amplia a respiração da língua portuguesa; cada obra da artista convidada, Sofia de Medeiros, acrescenta uma dimensão visual àquilo que as palavras apenas insinuam. A revista pede para ser lida de forma contínua, quase como um único livro escrito por muitas consciências, e talvez seja precisamente essa uma das suas maiores conquistas: fazer com que a diversidade nunca se transforme em dispersão.

O próprio nome da revista revela já a ambição simbólica do projeto. Na tradição homérica, Ogígia era a ilha onde Calipso reteve Ulisses entre a nostalgia do regresso e a sedução do esquecimento. Era um território suspenso entre a memória e o desejo, entre a permanência e a partida. A revista realiza uma inversão admirável desse mito fundador. A sua Ogígia não é o lugar onde alguém esquece a sua história; é precisamente o lugar onde as histórias recusam desaparecer. A antiga ilha do esquecimento converte-se numa ilha da memória. Mais ainda: deixa de ser uma ilha isolada para se transformar num arquipélago de vozes, onde cada autora acrescenta uma nova latitude à geografia da literatura portuguesa contemporânea.

Esta dimensão simbólica percorre toda a publicação e impede que ela seja reduzida a uma simples revista temática. Embora o eixo agregador seja a experiência da dor, a leitura revela rapidamente que o sofrimento nunca é tratado como destino nem como fatalidade. A escolha de “Mágoas, Dores e outros Dissabores” poderia facilmente conduzir a revista para o território da lamentação ou da denúncia circunstancial. O mérito extraordinário desta edição consiste precisamente em evitar essa armadilha. A dor nunca aparece como espetáculo nem como matéria de complacência. Surge antes como lugar de reflexão, de resistência e, sobretudo, de criação. As feridas não são expostas para provocar compaixão; são interrogadas para compreender os mecanismos históricos, sociais, culturais e íntimos que as produziram. O sofrimento deixa de ser ponto de chegada para se transformar em princípio de conhecimento. É talvez essa a lição mais subtil que percorre estas páginas: a literatura não cura as feridas do mundo, mas impede que elas permaneçam mudas.

Essa maturidade manifesta-se desde o primeiro texto, o editorial de Avelina da Silveira. Na tradição das grandes revistas literárias, o editorial nunca constituiu um simples prefácio administrativo; foi sempre uma declaração de princípios, uma tomada de posição perante a cultura e o tempo. Em Ogygia, o editorial cumpre exatamente essa função. Celebrando o primeiro aniversário da revista, Avelina da Silveira não fala apenas do percurso editorial trilhado; fala, sobretudo, da comunidade construída. O agradecimento às mulheres que transformaram “um sonho modesto numa revista de qualidade reconhecida” converte-se rapidamente numa reflexão sobre genealogia, memória e continuidade. Quando escreve que todas constituem “um círculo que se expande” e que escutam “os ecos antiquíssimos das que vieram antes de nós e plantaram árvores para que, dos seus frutos, pudéssemos beber as estrelas”, produz uma das imagens mais belas de toda a edição. A metáfora não serve apenas a beleza da frase; define uma verdadeira ética da criação: nenhuma escritora começa sozinha; toda a escrita nasce de uma herança e de uma responsabilidade.

O editorial adquire, depois, uma dimensão simultaneamente literária e política ao abordar frontalmente a violência estrutural exercida sobre as mulheres. A exclusão, a violência doméstica, a violência sexual, a desigualdade profissional, a objetificação do corpo feminino, a persistência do patriarcado e a interseção entre género, classe e raça são convocadas sem cedência ao panfleto nem ao discurso fácil. Avelina da Silveira compreende que a literatura não existe fora da história e que a beleza da linguagem não diminui a força da denúncia; pelo contrário, torna-a mais duradoura. A sua escrita dialoga, ainda que discretamente, com Simone de Beauvoir, bell hooks, Judith Butler ou Conceição Evaristo, mas nunca se deixa aprisionar pela linguagem académica. Continua a ser literatura. Continua a confiar no poder da imagem, do ritmo e da metáfora. É essa fusão entre pensamento e criação que estabelece o tom de toda a revista e prepara o leitor para aquilo que encontrará nas páginas seguintes.

Há, porém, outro protagonista silencioso desta edição que raramente recebe o reconhecimento merecido: o trabalho editorial. Revistas desta natureza não nascem apenas da qualidade dos textos que publicam; nascem, sobretudo, da inteligência invisível que lhes dá forma. Avelina da Silveira, Paula de Sousa Lima e Vera Pires desempenham aqui um papel que ultrapassa largamente a tradicional função de editoras. São arquitetas de uma visão. Basta observar a organização dos géneros, a alternância entre ensaios e poesia, a integração das artes visuais, o cuidado gráfico, a presença sistemática da tradução e o diálogo permanente entre investigação, criação e crítica para perceber que existe uma consciência editorial rara, daquelas que sabem desaparecer para que a literatura apareça. Talvez seja essa a mais elevada definição de editar: construir uma casa onde muitas vozes possam habitar sem perderem a sua singularidade.

Essa arquitetura revela-se igualmente na composição da própria revista. O índice não responde a uma lógica burocrática nem à mera distribuição dos géneros literários. Existe uma respiração interior cuidadosamente construída. Os ensaios abrem caminho à poesia; a poesia desemboca na ficção; a ficção prolonga-se na crítica literária; a crítica regressa à criação; as recensões preparam novas leituras; a tradução amplia horizontes; as artes plásticas oferecem pausas de contemplação. Nada permanece isolado. Tudo comunica. O leitor deixa de percorrer compartimentos estanques para entrar num organismo vivo onde cada texto prolonga discretamente o anterior e prepara o seguinte. Esta conceção aproxima Ogygia das grandes revistas literárias da modernidade, para as quais uma publicação nunca foi apenas uma coleção de textos, mas uma verdadeira obra coletiva, concebida como uma unidade estética e intelectual.

É precisamente essa consciência de conjunto que permite afirmar, desde já, que Ogygia deixou de ser uma promessa editorial para se transformar numa presença incontornável da cultura literária em língua portuguesa. Muitas revistas sobrevivem ao entusiasmo do primeiro número; poucas atravessam com segurança a prova do terceiro. É nesse momento que uma identidade deixa de depender da novidade e passa a depender exclusivamente da qualidade. A terceira edição de Ogygia ultrapassa esse limiar com admirável serenidade. Já não precisa de justificar a sua existência. Limita-se, com discrição e confiança, a continuar a escrever. E talvez não exista elogio maior que se possa fazer a uma revista literária.

A literatura como pensamento e o pensamento como literatura

Uma das primeiras evidências que se impõem ao longo da leitura é que Ogygia recusa a velha divisão entre literatura de criação e de reflexão. Durante demasiado tempo habituámo-nos a pensar que os ensaios pertenciam ao domínio da razão, enquanto a poesia e a ficção habitariam exclusivamente o território da imaginação. Esta terceira edição demonstra precisamente o contrário. Os ensaios possuem uma respiração literária; os poemas elaboram pensamento; os contos interrogam a realidade com a profundidade de uma investigação filosófica; a crítica literária transforma-se numa forma de criação. Em nenhum momento a revista estabelece hierarquias entre géneros. Todos participam de uma mesma busca: compreender o humano por meio da linguagem. É essa circulação permanente entre imaginação e inteligência que faz desta publicação muito mais do que um espaço de divulgação literária. Faz dela um lugar onde a literatura volta a exercer a sua função mais antiga: pensar o mundo.

O primeiro grande eixo dessa reflexão encontra-se nos ensaios, que funcionam como uma espécie de consciência crítica da revista. Não aparecem encerrados na linguagem especializada da academia, nem se deixam seduzir pelo excesso de aparato teórico. A investigação está presente, mas nunca sufoca a escrita; a argumentação é rigorosa, mas permanece acessível; a reflexão nasce sempre da literatura e regressa a ela. O leitor sente que cada ensaio foi concebido não apenas para transmitir conhecimento, mas para provocar uma transformação do olhar.

É neste contexto que o estudo de Geni Mendes de Brito, dedicado à violência de género na obra de Conceição Evaristo, adquire um lugar absolutamente central. O texto poderia limitar-se à análise do conto Maria, integrado em Olhos d’Água, mas escolhe um caminho muito mais ambicioso. A autora transforma a leitura literária numa reflexão sobre as estruturas profundas da desigualdade, convocando conceitos como escrevivência, patriarcado, violência simbólica, racismo estrutural, marginalidade e memória coletiva para mostrar como a literatura pode tornar visíveis experiências historicamente condenadas ao silêncio. Não se trata apenas de interpretar um texto; trata-se de compreender como determinadas formas de violência permanecem inscritas nas próprias narrativas que as sociedades constroem sobre si mesmas. O ensaio consegue um equilíbrio raro entre rigor científico, sensibilidade literária e consciência ética, demonstrando que a crítica literária continua a ser uma das formas mais exigentes de cidadania intelectual.

Também não é casual que seja precisamente Conceição Evaristo quem inaugura este percurso crítico. Poucas escritoras transformaram tão profundamente a literatura brasileira contemporânea. Através da noção de escrevivência, Evaristo deslocou definitivamente a mulher negra da condição de objeto narrativo para a de sujeito da própria escrita, alterando o centro de gravidade de uma tradição literária inteira. Ao colocar este ensaio logo nas primeiras páginas da revista, Ogygia afirma discretamente uma posição estética e política: a literatura em língua portuguesa já não pode ser pensada a partir de um único centro geográfico nem de uma única tradição cultural. Portugal, Açores, Brasil e diáspora deixam de aparecer como margens distantes de uma mesma língua para se tornarem diferentes manifestações de um património comum. A lusofonia deixa, assim, de ser apenas uma categoria diplomática ou institucional para recuperar o seu sentido mais profundo: uma comunidade construída pela literatura.

Essa abertura atravessa toda a revista e constitui, talvez, um dos seus contributos mais relevantes para as letras portuguesas contemporâneas. Num momento em que tantas culturas parecem fechar-se sobre si próprias, Ogygia escolhe precisamente o movimento inverso. Abre janelas. Faz da língua portuguesa uma casa suficientemente ampla para acolher diferentes geografias, diferentes experiências históricas e diferentes tradições estéticas, demonstrando que nenhuma literatura se fortalece isolando-se, mas antes dialogando com aquilo que lhe é aparentemente exterior.

Essa mesma lógica de abertura prolonga-se naturalmente na poesia, verdadeiro coração da publicação. Não apenas porque os poemas surgem distribuídos ao longo da revista, como pausas respiratórias entre ensaios e narrativas, mas também porque existe uma atmosfera poética que atravessa mesmo os géneros tradicionalmente considerados não literários. Há uma musicalidade discreta na crítica, uma delicadeza imagética nos ensaios e uma contenção lírica nas recensões que revelam uma identidade editorial profundamente consciente da importância da linguagem. Não estamos perante uma revista que simplesmente publica poesia. Estamos perante uma revista que pensa poeticamente.

Esta distinção é decisiva. Publicar poesia é um gesto editorial; pensar poeticamente é uma visão do mundo. Significa acreditar que a linguagem continua a ser um instrumento de descoberta e não apenas de comunicação; que a metáfora pode revelar dimensões da realidade inacessíveis ao discurso puramente racional; que a beleza não constitui um ornamento da inteligência, mas uma das suas formas mais elevadas de expressão. É essa convicção que percorre discretamente todas estas páginas e aproxima Ogygia das grandes revistas literárias da tradição europeia, onde a criação nunca foi separada do pensamento.

As diferentes vozes poéticas reunidas neste número confirmam, igualmente, outra das grandes virtudes da revista: a recusa absoluta de qualquer uniformização estética. Talvez a pior homenagem que se pudesse prestar à escrita das mulheres fosse reduzi-la a uma única tonalidade ou a uma única sensibilidade. Felizmente, Ogygia evita cuidadosamente esse risco. Cada autora conserva intacta a sua respiração própria, a sua cadência interior, a sua relação singular com a palavra. Encontramos poemas de contenção quase clássica ao lado de outros marcadamente contemporâneos; textos em que a memória familiar se converte em matéria poética convivem com poemas em que o corpo, a identidade ou a intervenção cívica assumem protagonismo; há vozes próximas do sussurro e outras que escrevem com a energia da insurreição. Esta diversidade constitui, talvez, a demonstração mais eloquente de que não existe uma hipotética “escrita feminina”. Existem escritoras. Cada uma é irredutível à outra. Cada uma é portadora de uma linguagem própria. Cada uma amplia, à sua maneira, as possibilidades da literatura portuguesa.

É precisamente nesta pluralidade que reside uma das maiores conquistas culturais da revista. O feminino nunca surge como categoria homogénea nem como identidade fechada. Surge antes como uma constelação de experiências, memórias, sensibilidades e formas de olhar o mundo. Não há qualquer tentativa de construir uma estética comum; há, pelo contrário, a celebração da diferença. E essa celebração transforma-se, silenciosamente, numa poderosa afirmação de liberdade literária.

A narrativa, a crítica e a arte de construir uma comunidade literária

A mesma pluralidade que distingue a poesia atravessa igualmente a ficção. Há muito tempo que o conto ocupa um lugar paradoxal na literatura portuguesa. Frequentemente relegado para segundo plano face ao romance, considerado por alguns um género de menor fôlego, acabou, contudo, por produzir algumas das páginas mais intensas da nossa tradição literária, de Raul Brandão a Sophia de Mello Breyner Andresen, de Maria Judite de Carvalho a Maria Velho da Costa, de Teolinda Gersão a Lídia Jorge. A brevidade nunca constituiu uma limitação; pelo contrário, sempre obrigou a uma maior depuração da linguagem e da arquitetura narrativa. Também os contos reunidos nesta edição de Ogygia parecem inscrever-se discretamente nessa linhagem, recusando o efeito fácil, o desfecho surpreendente ou o artifício narrativo que tantas vezes empobrece a narrativa breve contemporânea. Preferem construir atmosferas, explorar silêncios, confiar no poder da sugestão. Há uma consciência muito clara de que a literatura começa precisamente onde termina a explicação e de que aquilo que permanece por dizer possui, muitas vezes, maior intensidade do que aquilo que é explicitamente narrado. Carolina Fidalgo, Paula de Sousa Lima, Maria Jorgete Teixeira e Soraia Martins revelam modos distintos de compreender a narrativa, mas todas partilham essa rara confiança na inteligência do leitor, recusando-se a conduzi-lo pela mão ou a resolver-lhe antecipadamente os enigmas da experiência humana.

Esta contenção narrativa aproxima a revista de uma tradição literária que compreende o conto não como um romance reduzido, mas como uma forma autónoma de conhecimento. Os seus textos vivem menos da intriga do que da atmosfera, menos da ação do que da revelação interior. São narrativas em que o quotidiano se abre discretamente ao simbólico, em que pequenos gestos se transformam em metáforas da condição humana e em que a intimidade nunca deixa de dialogar com a História. Essa é, afinal, uma das características mais constantes de toda esta edição: a consciência de que nenhuma experiência individual existe verdadeiramente isolada. Cada vida contém sempre a memória de muitas outras vidas.

Essa mesma consciência manifesta-se também na presença da crítica literária e da recensão, dois géneros frequentemente negligenciados nas publicações contemporâneas e que, no entanto, constituem um dos sinais mais seguros da maturidade de uma cultura. Uma literatura que apenas produz obras, mas não desenvolve pensamento crítico sobre elas, acaba inevitavelmente por transformar-se numa sucessão de monólogos. As obras deixam de conversar entre si, perdem a capacidade de gerar tradição e tornam-se prisioneiras do instante da sua publicação. Ogygia compreende perfeitamente esta realidade e devolve à crítica o lugar que sempre lhe pertenceu: não o de tribunal da literatura, mas o de interlocutora privilegiada da criação.

A presença da crítica de Adília César e da recensão de Leonor Sampaio da Silva demonstra precisamente essa convicção. Ambas recusam a crítica impressionista ou a mera apreciação circunstancial. Procuram compreender as obras a partir do seu interior, iluminando os seus mecanismos estéticos, as suas inquietações e o seu lugar no percurso da literatura contemporânea. Há uma elegância pouco comum na forma como estas leituras são construídas. Não pretendem impor interpretações definitivas; preferem abrir possibilidades de leitura, convidando o leitor a regressar às obras com um olhar renovado. A verdadeira crítica literária nunca fecha um livro; torna-o novamente disponível para novas leituras. É isso que acontece nestas páginas.

Esta valorização da crítica constitui um gesto particularmente significativo num tempo em que a reflexão literária tende a ser substituída por comentários rápidos, classificações imediatas ou simples recomendações de leitura. Ogygia recorda-nos que a crítica continua a ser uma forma superior de criação. Como lembrava George Steiner, toda a leitura profunda já é uma forma de reescrita. Ler criticamente significa prolongar a vida de uma obra, permitindo-lhe continuar a produzir sentido muito para além do momento em que foi escrita. A revista recupera, assim, uma tradição que parecia ameaçada pela velocidade do presente: a tradição da leitura demorada, exigente, paciente e intelectualmente generosa.

Esta mesma ideia de prolongamento manifesta-se de forma particularmente feliz na importância atribuída à tradução. Durante demasiado tempo, a cultura portuguesa tratou a tradução como uma atividade subsidiária, quase invisível, destinada apenas a transportar significados entre línguas diferentes. A literatura sempre soube que não era assim. Walter Benjamin afirmava que toda a tradução prolonga a vida de uma obra; Paul Ricoeur via nela uma ética da hospitalidade; George Steiner lembrava-nos que compreender já é, em si mesmo, traduzir. Ogygia parece dialogar silenciosamente com essa tradição. As traduções de Avelina da Silveira, que aproximam do leitor em língua portuguesa vozes como as de Lara Gularte e Sally Somerton, não surgem como simples complemento editorial. Constituem parte integrante da própria criação da revista. Cada texto traduzido amplia o horizonte da língua portuguesa, acrescentando-lhe novas inflexões, novas sensibilidades e novas geografias. Traduzir deixa de significar transportar palavras; passa a significar transportar mundos.

É impossível ignorar a importância deste gesto. Num momento em que tantas identidades culturais parecem definidas pelo fechamento e pela desconfiança em relação ao outro, Ogygia escolhe precisamente o caminho da hospitalidade. Cada tradução representa uma nova janela aberta sobre o mundo, recordando-nos de que nenhuma literatura cresce verdadeiramente isolada. As grandes tradições literárias sempre se construíram por meio de sucessivos encontros, empréstimos, diálogos e traduções. A língua portuguesa, ela própria formada ao longo dos séculos por múltiplas travessias culturais, encontra nesta revista uma expressão particularmente feliz dessa vocação universal.

Ogygia não pode ser compreendida apenas como uma revista portuguesa. Pertence simultaneamente a Portugal, aos Açores, ao Brasil e à diáspora. Pertence, sobretudo, à língua portuguesa enquanto espaço de encontro. Essa talvez seja uma das suas maiores originalidades: dissolver discretamente a velha oposição entre centro e periferia. Lisboa deixa de ocupar sozinha o centro da criação literária; os Açores deixam de ser uma margem; o Brasil deixa de surgir como um território distante; a diáspora deixa de ser um simples prolongamento sentimental da cultura nacional. Todos passam a ocupar o mesmo mapa, não porque as diferenças desapareçam, mas porque a literatura aprende finalmente a habitá-las como riqueza e não como distância.

É essa geografia renovada que torna esta terceira edição muito mais do que uma revista dedicada às mulheres. Faz dela um dos exemplos mais interessantes de como a literatura portuguesa contemporânea começa a redesenhar o seu próprio território cultural.

A literatura como lugar de permanência

Mas seria um equívoco ler Ogygia apenas como uma revista dedicada às mulheres. Essa leitura, aparentemente elogiosa, acabaria por diminuir a verdadeira dimensão do projeto. As grandes obras nunca pertencem exclusivamente ao grupo humano que lhes deu origem; pertencem à cultura, ao seu tempo e, sobretudo, ao futuro. É precisamente isso que acontece nesta terceira edição. Ao colocar a experiência feminina no centro da reflexão literária, Ogygia não restringe o horizonte da literatura portuguesa; amplia-o. A revista recorda-nos aquilo que Virginia Woolf compreendeu definitivamente em A Room of One’s Own: sempre que uma voz é impedida de entrar na literatura, não é apenas essa voz que se perde; é a própria literatura que se empobrece. Cada exclusão diminui a língua. Cada silenciamento limita a imaginação de um povo. Cada ausência altera, quase imperceptivelmente, a história literária de uma comunidade.

Talvez seja por isso que esta publicação possua uma importância que ultrapassa largamente o seu objeto imediato. Ela não está simplesmente a publicar escritoras. Está, de forma paciente e consistente, a contribuir para a reconfiguração da memória literária portuguesa. Não o faz através da confrontação ou da negação da tradição, mas pelo gesto muito mais exigente de ampliá-la. A literatura nunca cresce pela substituição de vozes; cresce pela capacidade de integrar novas vozes sem perder a memória das anteriores. É precisamente essa consciência de continuidade que percorre toda a revista. Não existe aqui qualquer desejo de fundar uma literatura paralela ou alternativa. Existe, antes, a convicção de que a literatura portuguesa apenas se realiza plenamente quando incorpora todas as experiências humanas que a constituem.

As grandes revistas literárias nunca transformaram uma cultura apenas pelos autores que revelaram. Transformaram-na, sobretudo, pela ideia de literatura que propuseram. Orpheu ensinou-nos que a modernidade podia escrever em português; Presença devolveu centralidade ao indivíduo; os Cadernos de Poesia defenderam uma ideia de poesia acima das escolas; Colóquio/Letras consolidou a crítica como forma de pensamento criador. Ogygia acrescenta agora outra dimensão a essa tradição. Recorda-nos que nenhuma literatura poderá considerar-se completa enquanto metade da experiência humana continuar a ser lida como margem ou exceção. A sua revolução não consiste em destruir o edifício da tradição; consiste em abrir-lhe novas portas. E as verdadeiras revoluções culturais raramente acontecem através da rutura absoluta. Acontecem quando alguém revela um espaço que sempre existiu, mas que poucos haviam aprendido a habitar.

Essa vocação torna-se ainda mais significativa quando pensamos no tempo em que esta revista nasce. Vivemos uma época extraordinariamente fértil em publicações digitais e, paradoxalmente, marcada por uma crescente dificuldade em preservar a leitura lenta, reflexiva e exigente. Publica-se muito; esquece-se depressa. Escreve-se com urgência; lê-se com distração. A velocidade transformou-se num valor em si mesma, e a permanência parece quase uma forma de resistência. É precisamente contra essa lógica que Ogygia se afirma. Acredita que um ensaio continua a merecer vinte páginas quando o pensamento assim o exige; acredita que um poema necessita de silêncio para respirar; acredita que uma tradução merece tempo e rigor; acredita que uma recensão literária continua a ser um género de criação; acredita que uma obra de arte deve ser contemplada antes de ser consumida. Em suma, acredita que o leitor continua a ser um ser pensante. Essa confiança, aparentemente simples, talvez constitua hoje um dos gestos mais radicais da própria literatura.

Também não deixa de ser profundamente simbólico que esta revista encontre uma parte importante da sua identidade nos Açores e na diáspora. Durante muito tempo habituámo-nos a imaginar o centro da cultura portuguesa como um lugar geográfico claramente definido. O século XXI começa, porém, a ensinar-nos outra realidade. Os centros culturais deixaram de ser lugares fixos; são redes de diálogo, comunidades de criação, encontros de sensibilidades. Ogygia pertence plenamente a essa nova geografia. Nela, Lisboa conversa naturalmente com Ponta Delgada; os Açores dialogam com o Brasil; a diáspora entra na mesma casa sem pedir licença; a língua portuguesa deixa de possuir margens para se transformar num oceano de possibilidades. Talvez por isso o próprio título da revista revele uma felicidade simbólica difícil de superar. Na mitologia, Ogígia era uma ilha. Nesta publicação transforma-se num arquipélago. Cada autora constitui uma ilha; cada ensaio, uma corrente marítima; cada poema, uma costa; cada tradução, uma travessia; cada obra plástica, um farol. Separadas, estas ilhas possuem beleza. Unidas, constroem uma geografia. E é precisamente essa geografia que a revista oferece às letras portuguesas contemporâneas: um espaço onde ninguém escreve verdadeiramente sozinho.

Importa, por isso, reconhecer o trabalho quase invisível das três editoras — Avelina da Silveira, Paula de Sousa Lima e Vera Pires — porque publicações desta natureza nunca nascem apenas do talento dos seus colaboradores. São sempre o resultado de uma visão. Existe uma inteligência silenciosa que percorre toda esta edição: na escolha do tema, na organização dos géneros, na forma como os textos dialogam entre si, na integração das artes visuais de Sofia de Medeiros, no cuidado gráfico, na presença da tradução, no equilíbrio entre investigação, criação e crítica. Nada parece improvisado; tudo parece pensado para que o leitor percorra estas páginas como quem atravessa uma única obra escrita por muitas mãos. Esse é, talvez, o mais elevado elogio que se pode fazer a um verdadeiro trabalho editorial: desaparecer para que a literatura apareça.

Ao fecharmos esta terceira edição de Ogygia, não recordamos apenas um poema, um conto ou um ensaio em particular. O que permanece é uma atmosfera, uma forma de olhar, uma ética da criação, uma comunidade construída pela palavra. As grandes revistas produzem exatamente esse efeito: não terminam na última página. Continuam a acompanhar-nos muito depois da leitura. Reorganizam silenciosamente a nossa memória. Alteram o modo como passamos a ler outros livros. Ensinam-nos novas formas de escutar o mundo. É esse o sinal mais seguro de que uma publicação ultrapassou a condição de objeto editorial para se transformar num acontecimento cultural.

No fundo, Ogygia realiza aquilo que a literatura procura desde Homero: transformar a experiência individual em património coletivo. Converte a dor em linguagem, a memória em permanência, o silêncio em voz e a solidão em comunidade. Num tempo em que tantas publicações nascem para desaparecer com a rapidez das notícias, esta revista escolhe pertencer a outro calendário: o das obras que permanecem. Porque a verdadeira literatura nunca foi escrita contra o tempo; foi sempre escrita para sobreviver-lhe.

E talvez seja esse o mais belo paradoxo desta terceira edição. Regressando ao mito que lhe deu o nome, percebemos que a antiga ilha de Ogígia já não é o lugar onde o tempo suspende a vida nem onde a memória ameaça dissolver-se. Torna-se, pelo contrário, um lugar de regresso. Um lugar onde a palavra reencontra a sua responsabilidade mais antiga: dar forma ao que parecia inexprimível, devolver dignidade ao que fora silenciado e transformar a fragilidade humana numa possibilidade de beleza.

É por isso que Ogygia não é apenas uma revista literária. É uma afirmação de confiança na literatura. E essa confiança, hoje, é talvez uma das formas mais luminosas de esperança que a cultura portuguesa pode oferecer a si própria.

Diniz Borges

(A Bruma Publications orgulha-se desta parceria com a Moonwater Editions e a Ogygia.)

Link para a revista

https://pub.marq.com/OGYGIA3

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