
Há livros que contam a História. E há outros que a devolvem ao olhar. Portugal: da Ditadura à Democracia pertence a esta segunda categoria. As suas páginas não procuram apenas recordar acontecimentos; convidam-nos a revisitar o instante delicado em que um país reaprendeu a respirar em liberdade.
A obra, concebida pelo historiador Daniel Bastos a partir do extraordinário espólio fotográfico de Marques Valentim — um dos grandes nomes do fotojornalismo português — foi recentemente apresentada em Toronto, uma das cidades onde a presença portuguesa se entrelaçou de forma mais profunda com a construção multicultural do Canadá. O lançamento decorreu na Peach Gallery, um dos mais relevantes espaços culturais da comunidade luso-canadiana, integrado nas celebrações do Mês do Património Português.
Mais do que a apresentação de um livro, a sessão transformou-se numa celebração da memória partilhada. Reuniu emigrantes, lusodescendentes, dirigentes associativos, representantes da comunicação social e diversas personalidades da comunidade, entre elas o deputado federal canadiano Charles Sousa, o presidente da Aliança de Clubes e Associações Portuguesas de Ontário (ACAPO), Joe Eustáquio, e o presidente da Luso-Canadian Charitable Society, Jack Prazeres.
A apresentação esteve a cargo do empresário e filantropo Manuel DaCosta, que sublinhou a importância documental da obra enquanto testemunho da construção democrática portuguesa. Num tempo em que tantas democracias enfrentam novas formas de polarização, extremismo e desconfiança institucional, lembrou que preservar a memória não é um exercício de nostalgia, mas um compromisso com o futuro.
Esse talvez seja o maior mérito deste livro. Através de mais de duas centenas de fotografias — algumas amplamente conhecidas, outras raramente publicadas e várias inéditas —, Marques Valentim devolve-nos um país em transformação. O seu olhar acompanha o fim da ditadura, a Revolução de Abril, o complexo período revolucionário, a integração dos chamados retornados, os desafios da descolonização e os primeiros passos da jovem democracia portuguesa.
Mas as imagens recusam limitar-se aos grandes protagonistas da política. Encontram também os trabalhadores anónimos, as famílias, as aldeias, as cidades, os emigrantes e o quotidiano de um país que lentamente procurava reconciliar-se consigo próprio. É precisamente nessa atenção ao humano que reside a força duradoura do seu trabalho.
Marques Valentim conheceu igualmente de perto o conflito colonial em Moçambique e integrou, durante mais de três décadas, as redações de alguns dos mais importantes jornais portugueses. A sua fotografia tornou-se uma forma de escrita visual, onde cada enquadramento preserva não apenas um acontecimento, mas também a emoção silenciosa de uma época.
Editado em versão bilíngue, em português e em inglês, com tradução de Paulo Teixeira e o apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, o livro aproxima duas comunidades linguísticas e amplia o alcance internacional desta memória visual.
A apresentação em Toronto adquiriu ainda um significado solidário. As receitas da venda da obra revertem integralmente para a Magellan Community Foundation, entidade que está a desenvolver o primeiro lar de cuidados continuados destinado à população de expressão portuguesa naquela cidade, unindo assim património histórico e responsabilidade comunitária.
Depois do lançamento realizado em Lisboa, na Fundação Mário Soares e Maria Barroso, no âmbito das comemorações do centenário de Mário Soares e Maria Barroso, a obra inicia agora um percurso por diversas localidades portuguesas e comunidades da diáspora.
Talvez seja esse o destino natural de um livro como este. Porque a democracia não pertence apenas aos lugares onde nasceu. Pertence também àqueles que a levaram consigo quando partiram, preservando-a na memória, na língua, nas associações, nas famílias e nas gerações que cresceram longe de Portugal sem deixarem de reconhecer nele uma parte essencial da sua história.
No fim, Portugal: da Ditadura à Democracia recorda-nos uma verdade simples e exigente: as fotografias não detêm o tempo. Salvam-no do esquecimento. E enquanto houver quem as contemple com atenção, a liberdade continuará a encontrar novos olhos onde recomeçar.
Adaptação para Filamentos – artes e letras – de uma notícia no Atlântico Expresso, Natalino Viveiros, director.
