
Cultura e Entretenimento não são a mesma coisa.
Vivemos numa época em que as palavras parecem perder contornos. Cultura e Entretenimento são frequentemente usadas como sinónimos ou confundidas na substância que as sustém, como se qualquer actividade que ocupe o nosso tempo livre fosse, automaticamente, um acto cultural. Contudo, embora possam cruzar-se e até coexistir na mesma obra, cultura e entretenimento não são a mesma realidade. É preocupante o facto da maioria dos nossos autarcas usarem e abusarem da palavra cultura para toda e qualquer animação. O entretenimento procura captar a atenção. A sua função principal é proporcionar prazer, distracção, emoção ou evasão. Depois de um dia de trabalho, procuramos muitas vezes um filme leve, uma série envolvente, um concerto descontraído ou um programa televisivo que nos permita desligar das preocupações quotidianas. Aqui o enquadramento do entretenimento, respondendo a uma necessidade humana de descansar a mente e desfrutar do tempo. O que não se pode aceitar é o facto de, nas nossas festas, se tentar colocar cultura e entretenimento no mesmo saco. A primeira, tem uma ambição mais profunda. Não se limita a ocupar o tempo; procura enriquecer a compreensão do mundo e de nós próprios. A segunda desafia, questiona, preserva a memória colectiva e transmite conhecimento entre gerações. Uma obra cultural pode entreter, mas não se esgota nessa função. Quando lemos um romance que nos obriga a reflectir sobre a condição humana, visitamos um museu que nos confronta com o passado, ou assistimos a uma peça de teatro que questiona as nossas convicções, ou ainda assistimos a um concerto musical com músicos consagrados, estamos perante algo que vai além da simples distracção. O problema surge quando se confunde popularidade com valor cultural. Nos dias de hoje, o sucesso mede-se frequentemente em visualizações, gostos e partilhas. O que gera mais cliques tende a ser considerado mais relevante. Nesta lógica, uma dança viral numa rede social pode receber o mesmo estatuto de um concerto sinfónico. E um cantautor jazzista, fadista, pop-rock, o mesmo estatuto que um cantor cover ou pimba. Uma conversa superficial pode ser colocada ao lado de um ensaio rigoroso, e um fenómeno efémero pode ser tratado como património cultural erradamente. A velocidade com que consumimos conteúdos favorece o entretenimento imediato, mas nem sempre deixa espaço para a reflexão que a cultura exige. Importa, contudo, evitar um erro comum. O de considerar que a cultura é necessariamente erudita e o entretenimento inevitavelmente superficial. Há obras que conseguem ser ambas as coisas. Grandes romances populares, filmes memoráveis ou canções que atravessam décadas, demonstram que é possível entreter enquanto se estimula o pensamento. O critério não está no género ou no formato, mas na profundidade da experiência proporcionada. Talvez a verdadeira diferença resida naquilo que permanece depois da experiência terminar. O entretenimento satisfaz o momento; a cultura continua a trabalhar dentro de nós. Um programa pode divertir-nos durante uma hora e desaparecer da memória no dia seguinte. Um livro, uma peça musical ou uma obra de arte podem acompanhar-nos durante anos, influenciando a forma como pensamos, sentimos e interpretamos a realidade. Num tempo dominado pela urgência, pela instantaneidade e pelo consumo contínuo de conteúdos de redes sociais e artificiais, torna-se importante recuperar esta distinção. Precisamos de entretenimento para descansar, sorrir e partilhar momentos. Precisamos de cultura para crescer, compreender e preservar aquilo que nos liga enquanto comunidade. Confundir uma com a outra não é apenas um erro semântico. É correr o risco de empobrecer a nossa relação com ambas.
Porque, no fim de contas, nem tudo o que entretém cultiva, e nem tudo o que cultiva entretém. É precisamente nessa diferença que reside a riqueza de uma sociedade verdadeiramente consciente do valor da sua cultura. Quando as nossas autarquias, instituições e associações convidam artistas para animarem eventos e festividades devem reflectir: ou se convida alguém que proporcione Cultura no seu sentido literal, ou pelo contrário, que se fique pelo Entretenimento correndo o risco de despender fortunas infortunadamente. Ou se cultiva ou se entretém. Os gastos com a Cultura darão frutos. Os gastos com o Entretenimento distrairão sem frutos. Eis onde reside a destrinça que quem de direito terá que optar: ou desenvolver as capacidades dos seus munícipes ou simplesmente mantê-los distraídos.
Raquel André Machado, poeta (por opção pessoal, não obedeço ao actual (des)Acordo Ortográfico)
