A Pedra Descalçou a Bota: quando a literatura escolhe caminhar descalça

Há livros que buscam contar uma história. Outros desejam construir um argumento. E existem ainda aqueles, muito mais raros, que se recusam a obedecer às fronteiras tradicionais dos géneros literários e preferem tornar-se um espaço de pensamento. A Pedra Descalçou a Bota, de Fernanda Mendes, livro publicado pela Letras Lavadas, pertence, decididamente, a esta última categoria. É um livro de fronteira, de travessia e de risco. Um livro que não se deixa catalogar facilmente porque escolhe habitar esse território híbrido onde a poesia se prolonga em prosa, a reflexão filosófica se torna imagem e a imagem, por sua vez, se transforma numa pergunta que permanece muito depois de terminada a leitura.

Desde o primeiro instante, percebe-se que não estamos perante uma simples coleção de textos breves. A arquitetura da obra revela uma consciência compositiva incomum. Os seus 181 fragmentos não obedecem a uma narrativa linear nem a uma organização temática rígida. Funcionam antes como pedras colocadas num caminho, cada uma aparentemente autónoma, mas todas pertencentes à mesma geografia interior. O leitor não percorre capítulos; percorre estações de pensamento. Não avança apenas na leitura; avança sobre si mesmo.

Leonor Sampaio da Silva compreende magistralmente essa natureza logo no prefácio, um dos mais belos textos introdutórios publicados recentemente entre nós. Ao observar que o título é sempre “a primeira mensagem que recebemos de um livro”, percebe que A Pedra Descalçou a Bota nos convida imediatamente a um duplo exercício: decifrar um enigma e confiar na linguagem. A sua leitura do gesto simbólico da pedra que, contrariando o esperado, “descalça” a bota e se humaniza, torna-se uma das mais felizes interpretações da obra. Não é apenas uma figura de estilo; é uma ética da existência. Ler este livro implica, como escreve Leonor Sampaio da Silva, entrar nele “como pedras descalças”, libertando-nos das proteções artificiais para aceitarmos a vulnerabilidade como condição do conhecimento.

Esse convite revela imediatamente a ousadia maior de Fernanda Mendes: escrever contra o endurecimento do nosso tempo.  Vivemos uma época saturada de opiniões rápidas, discursos fechados e certezas instantâneas. O mundo digital habituou-nos a respostas imediatas, a posições definitivas e à ilusão de que tudo pode ser explicado em poucas palavras. Fernanda Mendes faz exatamente o contrário. Em vez de responder, pergunta. Em vez de concluir, abre possibilidades. Em vez de construir um tratado, oferece fragmentos. A sua escrita recupera uma tradição antiga — a do aforismo, da meditação, do pensamento poético — para falar das grandes questões contemporâneas: identidade, género, guerra, linguagem, liberdade, memória, infância, envelhecimento, ecologia, espiritualidade e pertença.

É precisamente nesta capacidade de transformar assuntos profundamente atuais em matéria literária que reside uma das grandes virtudes do livro.  Tomemos apenas um exemplo.  Em “A Costela”, Fernanda Mendes subverte um dos mitos fundadores da tradição judaico-cristã através de uma simplicidade desarmante: “Sou feita da costela que não veio de Adão.” A frase, aparentemente discreta, contém uma pequena revolução simbólica. Não se trata apenas de uma afirmação feminista, embora o seja profundamente. Trata-se da recuperação de uma genealogia própria da mulher enquanto sujeito pleno da História, da cultura e do conhecimento. Ao afirmar que essa costela é “fonte de conhecimento” e que permanece “em permanente rutura com os velhos dogmas de modelagem”, a autora desmonta séculos de imaginário patriarcal sem necessidade de panfleto, deixando que seja a força poética da linguagem a realizar o que muitos manifestos dificilmente conseguem.

O mesmo sucede quando aborda a guerra, recusando qualquer conforto moral simplista. Em “Por Quem…”, a autora pergunta repetidamente “Quem somos e por quem andamos?”, confrontando-nos com a nossa condição de espectadores de conflitos transmitidos diariamente pelos ecrãs. A distância geográfica transforma-se numa distância ética. A televisão aproxima-nos das tragédias enquanto nos anestesia perante elas. Poucos textos recentes conseguem condensar com tanta sobriedade a perplexidade moral do século XXI.

Mas talvez o maior mérito de A Pedra Descalçou a Bota esteja na própria linguagem.  Fernanda Mendes escreve como quem esculpe lentamente cada frase. Não existe ornamentação gratuita. Cada palavra parece ter sido submetida a um rigoroso trabalho de depuração até restar apenas o indispensável. O resultado aproxima-se do que Herberto Helder chamava de “a matéria verbal”, em que cada vocábulo possui densidade física, peso e respiração.

Há momentos em que esta escrita recorda a contenção lírica de Vergílio Ferreira nos seus diários filosóficos; noutros aproxima-se das pequenas iluminações de Maria Gabriela Llansol; por vezes, lembra a delicadeza meditativa de Sophia de Mello Breyner quando esta deixava que a natureza fosse linguagem moral. Contudo, Fernanda Mendes nunca se limita a dialogar com a tradição portuguesa. Existe nela uma modernidade muito própria.

É inevitável, aliás, pensar em algumas das grandes obras contemporâneas norte-americanas construídas na forma fragmentária. A leitura faz recordar Bluets, de Maggie Nelson, em que centenas de pequenos fragmentos constroem uma autobiografia filosófica; ou The Book of Delights, de Ross Gay, que transforma pequenas observações quotidianas numa ética da alegria; ou ainda certos momentos de Anne Carson, em que poesia, ensaio e pensamento coexistem sem fronteiras definidas. Também Annie Dillard, nas suas meditações sobre a natureza e a consciência, parece surgir como parente distante deste livro.

A diferença é que Fernanda Mendes acrescenta a essa tradição um lastro profundamente atlântico e lusófono. O mar, a ilha, o vento, a infância, o corpo e a linguagem não são apenas paisagens; tornam-se categorias de pensamento.

É também significativo que muitos textos funcionem como pequenos exercícios de deslocação semântica. “A Terra” pergunta: “Sei que a Terra é redonda… Mas de que me serve?” A ciência deixa de bastar quando o coração permanece plano.  “Dom” redefine o conhecimento como “pertencer ao espaço da fotossíntese”.

“Não Somos…” desfaz a ilusão de uma identidade fixa para afirmar que somos uma contínua floração do que ainda desconhecemos em nós. Cada texto parece desejar deslocar ligeiramente o eixo da realidade. Não procura oferecer novas respostas; procura ensinar-nos novas formas de olhar. Talvez seja precisamente por isso que o livro resista tão bem à releitura.

Ao contrário de muitas obras contemporâneas que se esgotam no impacto imediato, A Pedra Descalçou a Bota cresce com o tempo. Os seus textos permanecem na memória como pequenas sementes de inquietação. Voltam inesperadamente durante um passeio, uma conversa ou um momento de silêncio. A literatura mais duradoura possui precisamente essa capacidade de continuar a escrever-se no leitor depois de fechado o livro.

Há igualmente uma dimensão ética que atravessa discretamente toda a obra. Não se trata de moralismo nem de doutrina. Trata-se de uma defesa permanente da dignidade humana, da escuta, da diferença, da liberdade interior e da responsabilidade perante o outro. Num tempo em que tantas vozes procuram simplificar o mundo com polarizações fáceis, Fernanda Mendes insiste na complexidade. Acredita na dúvida, na nuance, na pergunta, na fragilidade. A sua literatura é uma forma de resistência a todo endurecimento.

E talvez seja esse o verdadeiro significado da pedra descalça.  A pedra, normalmente símbolo da dureza, aprende aqui a caminhar sem armadura. Descobre que a resistência não nasce da rigidez, mas da vulnerabilidade consciente. Não é apenas uma imagem literária; é uma metáfora profundamente humana.

No magnífico encerramento do seu prefácio, Leonor Sampaio da Silva escreve que estas narrativas surgem “num tempo de botas que ameaçam sequestrar, esmagar e conter o que deveria viver em liberdade, plenitude e luz”, mostrando-nos “a escrita como lugar de partilha e de esperança.” Poucas sínteses poderiam ser mais justas.

Porque é precisamente isso que A Pedra Descalçou a Bota representa.  Num tempo dominado pela velocidade, oferece lentidão. Num tempo dominado pelo ruído, oferece escuta. Num tempo dominado pelas respostas, oferece perguntas. Num tempo dominado pelo cálculo, oferece poesia.

E talvez seja precisamente por isso que este livro é uma das obras mais audazes e intelectualmente relevantes publicadas recentemente na literatura portuguesa. Não porque procure impressionar o leitor, mas porque o transforma discretamente. Como toda a verdadeira literatura, não pretende ensinar-nos o caminho. Convida-nos a descalçar as botas para voltarmos a sentir a terra. E, por vezes, é exatamente aí que começa a liberdade.

Diniz Borges

Fotos das Letras Lavadas

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