
César Vallejo (Santiago de Chuco, 1892 – Paris, 1938)
Os passos remotos
O meu pai dorme. O seu nobre semblante
é como um coração apaziguado;
está tão doce agora…
se há nele algo de amargo, serei eu.
Há solidão na casa; e reza-se;
e dos filhos não houve hoje notícias.
Meu pai acorda, considera
a fuga para o Egipto e um suspenso adeus.
Está agora tão perto;
se há nele algo distante, serei eu.
E minha mãe passeia além, na horta,
saboreando um sabor já sem sabor.
Está agora tão suave,
tão longínqua, tão amorosa e nítida.
Há solidão no lar sem reboliço,
sem notícias, sem verdes criancices.
E se há algo quebrado nesta tarde
que diminui e crepita
são dois velhos caminhos brancos, curvos.
A pé, por eles vai meu coração.
Juan Pedro Moro (Alcalá de Henares, 1966)
Londres
Visitei Londres pela primeira vez numa manhã de Primavera.
Numa das margens do rio, um pouco ao estilo vitoriano
rapazolas snifavam tranquilamente
tornavam real e popular o mistério que William
Blake espalhou pelas coisas do inferno e do céu.
Velho carola
O que eu lhe li nas entrelinhas
o que eu inventei à sua custa com a proverbial
lucidez mediterrânica
Mas passemos adiante. Salvo erro
e creio que isto é exacto
daquela maneira desasada é que habitualmente circulavam
os que numa serena e fresca noite resolveram limpar o sebo
mesmo sob o nariz dos transeuntes
à jovem Elisabeth Douglas com sete naifadas no baço
(a sua mãe, o seu pai choroso
o ar compungido da locutora boazona
o cheiro provável a cera fria dos demais figurantes)
Os cisnes em Datchet Court
solenes como dois turistas numa pensão da linha.
Londres, Londres dali vejo partir os velhos aventureiros
G.A.Henty com a sua gravata verde os olhos piscos
Poetas envinagrados conjurando-se a uma esquina
lançando a âncora num pub despertando lembranças
Sucheu Bali as savanas do monte Kenya
lá passam de autocarro até Hampstead
não naturalmente pelos livros mas sobretudo
pelos leitores “recordo-me que uma vez
tentei trabalhar numa casa depois de uma outra quadrilha
lá ter estado” O meu vizinho que sabe
que tudo é citação faz-me sorrir
conta-me coisas adormece-me.
Muitas coisas ficam desconstruídas, do grave
ao divertido
ao fim duma meditação intempestiva
Os domingos de sol
As prímulas na pradaria de Runnymede
O choro de Defoe ou de Donne sobre os rochedos de Chaltenham
O amplexo de um preto velho numa lojeca de Carnaby Street.
Mas a inocência
é já matéria sem relevo
é uma pérola uma pedra fibra descarnada e melancólica.
Londres exactamente e tudo o mais é divagação
há 300 anos eu aqui seria um inimigo.
Os salpicos de lama feriam-me a concentração
mas não havia bruma ouvia-se
um piano mecânico nas redondezas
Deserta a cidade rapaziada pedante mariquices isabelinas
o obelisco como um carvalho nas colinas de Cape Staines.
É difícil pensei eu lançar o olhar em volta
tanta coisa poderia eu sei lá acontecer
A rapariga junto ao poste de iluminação, pensativa
Cinco sonatinas para violoncelo e a sombra de Mateus Pipperbarem
uma voz que ondula de repente e pára.
Ferrovias contudo desdobravam-se ao longo dos continentes e foi então
que me ocorreu Mas que faço
eu aqui
No entanto uma doçura muito velha percorria-me de cima a baixo
a Inglaterra florida e violenta martelava-me na cabeça
Robinson surgia de súbito acenando, com um jornal na mão
Interrogativo um pouco alucinado.
A minha alegria ousará abrir caminho por aqueles labirintos.
A tepidez do Inverno num lugar mais aprazível.
Olho de novo o céu. A multidão comprime-se.
Noutras condições pergunto ainda estarei no recanto que sonhara?
Tradução de Nicolau Saião
