
EM RESUME, 35
Meu Caro Vergílio Alberto Vieira: soube só esta manhã por um telefonema do Joaquim António Emídio desta terrível notícia – a morte da tua mulher. No meu caso pessoal o Domingo de manhã é o pior dia da semana: 1979 morreu o meu avô materno, 1989 morreu o meu afilhado e primo, 1995 morreu a minha mãe, 2018 morreu o meu pai. Não esqueço os nossos lanches maravilhosos na tua casa em Braga; além do clássico militar de «bom, abundante e bem confeccionado» havia o café que fazias para a minha filha Marta com água quente, açúcar e um bocadinho de café do nosso. Não esqueço o quarto alugado por ti junto à Rua da Rosa e a casa comprada junto à rua de O Século. Uma vez por outra havia o encontro feliz com a Maria Ondina Braga, contigo e com a tua mulher. E o bar entre duas livrarias onde a cabeça do poeta Herberto Helder era um reactor nuclear. Em meu nome, da Maria Amália, da Ana, do Filipe e da Marta que foi tua aluna na Escola Fernão Lopes aqui estou a enviar um abraço comovido e algumas palavras. Já dizia Maiakowski que «elas valem menos que pétalas pisadas depois de um baile» mas sem palavras não podemos comunicar. E precisamos muito delas porque nem as lágrimas nem o sangue pisado se exprimem em palavras na fala de todos nós. PS – Um destes dias aviso-te sobre a publicação de uma nota de leitura sobre o teu mais recente livro que espero e desejo não seja o último.
José do Carmo Francisco, escritor
