
MÁRIO RUI SILVESTRE poesia
Tudo bem em Santarém e outros poemas menores O autor deste livro, «filho e neto de operários e camponeses», terá guardado da infância entre outras memórias «a pobreza austera de homens e mulheres» além da «pureza de fontes e rios». Ao chegar à cidade de Santarém descobriu que o Estado Social e Político a que chamavam «novo» era demasiado «velho». Ele, o autor, estava numa geração de sangue pisado pelo fascismo. O título do livro (118 páginas, Auctoris Edições, capa e design de Flávio Carlos Silvestre) é uma ironia pois nem tudo está bem em Santarém nem os poemas são menores. Antes pelo contrário. Em Santarém há muita coisa mal e quanto aos poemas menores basta pensar em Ruy Belo (1933-1978) que escreveu um dia ser a sua poesia «mínima e mesquinha» mas tal não é verdade. Os poemas deste livro nada oferecem ao leitor de menor pois é grande a cartografia da educação sentimental que neles se integra: o primeiro amor, a primeira casa, o primeiro «Mundo de Aventuras», o primeiro cinema, o atleta Valentim Baptista, a Escola, a Igreja, o jogo do pião, a Feira, as azenhas do rio, os ranchos da azeitona, as tabernas, a poluição do Alviela, os cigarros clandestinos, as fontes, o jogo do berlinde, o Robin dos Bosques, o tempo sem limite dos cafés, Esopo, La Fontaine, Edgar Allan Poe, o Carnaval, Woodstok , Ruy Belo, Alexandre Herculano, Guilherme de Azevedo, Almeida Garrett, a Guerra Liberais-Absolutistas, Pero Coelho, Ibn Bassam, o Maurício que numa manhã de Liceu nunca se cansou de lançar a bola ao cesto. Por fim, com as emparedadas dos Catolicismo, podemos ver este livro como uma Procissão dos Passos ao som de uma marcha grave da Música Velha de Mestre Leitão. Em resumo: Natureza e Cultura. Fiquemos com citação do poema da página 113: «só morto quiseram alguns os enjeitados /versos ler-lhe de métrica tremida/velhacos entre si dizendo que alguns bons nacos/de literatura faria se tivesse mais vida». Fica o convite à descoberta.
Jo’se do Carmo Francsci, poeta
