As falsas notícia do nevoeiro por Maria Luísa Soares

           Só quem vinha de fora é que podia captar o verdadeiro estado de espírito da Ilha. Ou quem, como eu, Ihéu das cabras, lhe estava ao lado.   

     Partilhávamos aquele abençoado ensimesmamento ilhéu, a dar graças a Deus pelo bem bom dos dias, enquanto for assim louvado  seja Deus, não venha mal a pior. Do que eu mais gostava  naqueles entrementes insulares era quando as trepidações da Terceira deixavam de se ouvir, era quando ela acordava liberta e luminosa, toda rasgada para o azul das águas como se nunca a tivessem cavalgado sismos ou temporais. Nesses dias esbatiam-se como que por milagre sufocos de presságio, salgadas melancolias, tudo se distendendo na calma paz de existir. Podia então avistar-se a montanha redentora  do Pico e diante dela o grande animal preguiçoso que é S. Jorge, estendido ao comprido no mar sem a mínima vontade de despertar daquela sonolência regalada.

   E que dizer da movimentação marítima e do comportamento das pessoas e dos barcos? Desembarcar, sair de um barco era sempre um ato de irrecuperalidade. Junto com a sensação de se ter deixado para trás o irrecuperável de muita coisa, com o mar ali de permeio em afirmações de definitivo e de nunca mais. Mas nunca mais é muito forte, tem poderes de intoxicação triste, e cada um dos passageiros emerge no cais de desembarque com aquela expressão de um embotamento feliz, levemente toldado por uma pontinha de indecifrável que rapidamente se afoga na efusão dos abraços e das notícias. Relega-se então o mar para os seus definitivos domínios, que o ar de terra sabe bem e a segurança de pisar em solo firme idem.

    Tenho testemunhado tanta coisa. Não posso fugir a esta sozinhêz de Ilhéu, a este destino de espera e de bocejo vivido em comunhão estreita com a Ilha que tenho em frente. Mas presentemente encontro-me em situação de protesto. E já vos explico.

    Tinham começado já os dias diferentes para toda a gente em todos os recantos da Ilha, os primeiros foguetes marcando essa diferença. E não só os foguetes. Os sinos também. Parece que se ouviam com mais frequência  os sinos das igrejas dispersas por toda a Ilha. Pelo menos o seu som tornava-se de repente mais audível e espalhava uma energia nova, vibrátil e melódica que tinha o efeito de acordar em todos os seres vivos reminiscências felizes e esconjurar para longe o sentimento de abandono e de melancolia de que as nuvens eram feitas. As aves, essas punham-se a experimentar as asas, rasando a água do mar, impacientes por viagens nos céus altos. É certo que em certos dias havia ainda a persistência do nevoeiro. Mas o nevoeiro era um logro e tinha os dias contados. Os primeiros a rirem -se dele eram ainda as aves quando ousavam voos mais largos e lhe debicavam farrapos, passando o nevoeiro a apresentar-se furado em vários sítios e gradualmente despojado do poder de impor limites.                                            

   Sim, naqueles dias o nevoeiro acabava por ser recambiado para além das nuvens, um sítio onde nem chuviscos nem arrepios se atreveriam a transtornar e a desconsolar a animação de alguma tourada ou de alguma festa do Divino Espírito Santo. O vento que vinha do mar era também um aliado e tinha poderes para afugentar para bem longe a apatia e a melancolia com que cada um carregava ( um peso que apenas o Carnaval iria diluir).

   Agora vivo uma situação de abandono e esquecimento, cada vez mais vítima da minha sozinhêz e da sem-vergonhice do nevoeiro. Não é novidade se vos disser que ao longo dos tempos, o nevoeiro açoriano tem vindo a pregar partidas, umas vezes emitindo notícias falsas, outras criando sinais de engano, com isto muito se divertindo. Por certo se lembram do logro que foi o propalado aparecimento de um ovni na zona do Cabrito (sítio de eleição de todos os nevoeiros da Ilha)

O nevoeiro podia lá resistir a um gozo daqueles : pôr o guarda de um bunker americano a jurar que tinha visto a sobrevoar os céu um objeto voador e luminoso que acabou por aterrar ali a seus pés, deixando vestígios inequívocos. Lembram-se, não? O acontecimento deixou um alvoroço de extravasamento mundial.

    Ele nunca se cansa. E a propalada notícia do aparecimento de um monte no meio do mar? Podia ser o afloramento de uma nova ilha, pois então. Foi o que pensaram muitos terceirenses em alvoroço.

    Há, porém, que reconhecer que estes alvoroços vêm condimentar a vida  de muitos açorianos. O Que seria deles sem o seu nevoeiro?

       Quanto a mim, Ilhéu das cabras, dispenso condimentos destes. E encontro-me em declaração de protesto, pois que o cerco de arbitrariedade com que no presente o nevoeiro tem vindo a encharcar as ilhas, eu incluído, tem de ser denunciado aos olhos de todos. Bem sei que este protesto me vai valer mais clausuras e mais isolamento, mas a paciência de um Ilhéu tem limites, Ultimamente tenho vindo a perder contactos com tudo e com todos só porque Sua Excelência  o nevoeiro resolveu rodear-me de um anel de neblina teimosa, de persistência só comparável ao agoirar das aves marinhas em dias de tempestade. Oh gentes, Ilhéu sofre.

     Imaginem-me só para aqui afundado em sozinhez e desfastio e limitado à companhia deste mar imenso que me rodeia. Ouço-lhe o resfolgar do antiquíssimo animal marinho que o habita, sinto-lhe o dorso já cansado das lutas invernosas e em quebrantos de quietudes prenunciadoras de bom tempo. Mas para mim o bom tempo tarda em chegar.                                                                                                                                                

       MARIA LUÍSA SOARES-ESCRITORA

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