A Pedra que Levita por Leonel Ventorim

A Feira do Livro a arder na fogueira das vaidades

Por detrás dele a gigante e ondulante bandeira de Portugal na brisa do anoitecer, mas de frente a ele um dantesco amarelo laranja avermelhado agigantando-se ao céu açafrão: É a Feira do Livro de Lisboa a arder. “Amém” – diz. As chamas espalham-se rapidamente por todo o lado, o melhor bombeiro incendiário Montag possível, ei-lo. Do alto do Parque Eduardo Sétimo observa a limpeza, a pureza. Em Fénix tem fé. Sente um prazer não de vingança de ressabiado por não ter sido editado mas de higienização literária, uma espécie de serviço público, e o que melhor representa os vicíos literários e editoriais do que um ajuntamento como este? Não apenas desta, mas de todas, de todas as Feiras do Livro do mundo, esta está simplesmente à mão, à mão de: “Ignição Montag – e vai ver como tudo arde.” – As feiras são o Circus Maximus entre Festivais Literários, Clubes de Leitura, leituras de poesia e afins. Dos “eventos”. Ele deu um pré-aviso de dez minutos ao fazer um telefonema anónimo para a organização e para os bombeiros antes de atear o fogo – sabendo manhoso que a água iria destruir igualmente o papel – e agora todos fogem, confusos, atropelando-se, ao desbarato tal baratas tontas. É um “Salve-se quem puder!” – e obviamente deixam os livros para trás. Mas para ele importa destruir, destruir toda a literatura para depois a poder reconstruir. Mas com quem? Sozinho, sozinho caralho! Pensa na trabalheira em que se vai meter e tudo por amor à literatura viva e à vida como literatura. Urge aniquilar essa fronteira. Está calor, do fogo e da Primavera que parece Verão, e aproximam-se mais, mais noites de calor e de baratas ao desbarato pelas ruas e casas, e aproximam-se mais, das vossas cozinhas, açucareiros, em corridinhas rápidas quando vocês acendem a luz eléctrica, e invadem a internet e as vossas redes sociais com os seus posts a escorrer presunção, falta de noção e vaidade. Mas são animais aquela coisa? Serão protegidas e resgatadas pelo IRA (Intervenção e Resgate Animal)? Se estes tiverem uma praga no seu quartel o que fazem? Tentam exterminar ou servem-lhes chá e scones? – “Para mim com duas colheres de açúcar se faz favor.” – dirá uma, de patas cruzadas a fumar uma cigarrilha e outra na mesma mesa lê as Selecções do Readers Digest enquanto espera o chá fumegante arrefecer um pouco e onde lê um artigo sobre a relação do Aquecimento Global, das moscas varejeiras e dos zombies. Ali, ali onde agora há pânico havia uma a fila para os autógrafos, ali mesmo em baixo, onde tretas escritas por tretos ou por tretas ou por tretes tanto faz porque isso de ser treta não tem sexo, é apenas invólucro vazio sem conteúdo e mesmo porque a própria escrita é não-binária, assexuada, ou, usando um termo antigo e fora de moda, andrógina. A escrita não tem género sexual e social, têm géneros literários. Sim, havia uma fila de parvalhões nos pavilhões. Devoram-se? Não, rebanham-se, no vício do livro pelo livro, do vício não pelo conteúdo mas do livro como objecto, do vício das modas do marketing digital da rede social, é A Sociedade do Espectáculo anunciada por Guy Debord, é o controle através dos vícios delicious anunciado por Aldous Huxley no Admirável Mundo Novo. Mais vale queimá-los que tratá-los como bibelôs e ardem a 451% fahrenheit como deve arder um verdadeiro escritor quando escreve. Aqui está ele, na noite escura agora iluminada de literatura, ao da bandeira gigante de Portugal onde Camões morreu pobre e todos vivem à conta de Camões. Em pé no muro, tal almirante navegante, olha a Fogueira do Livro toda ela a arder, e sussurra soletrando:  “Que…ar…da…es…ta…mer…da…to…da.” – Um vulto pára ao pé, ele olha de soslaio, pela silhueta percebe ser um polícia, olha novamente, olhar fixo, sim, é um policia. Observa-lhe o rosto, é um polícia caveira, e antecipa-se à pergunta: “Sei o que está a pensar no intímo dessa farda. Está a pensar: “E os livros que gosta? E os autores que ama? Também estão a arder? Não se importa?” – E por isso digo-te: “Não tens nada melhor para fazer, ó bófia?” – Estala os dedos e ele desfaz-se ficando apenas a farda, as armas e o distintivo por cima de um monte de ossos. É para não se meter onde não é chamado. Que fosse apanhar bandidos ou passar multas. Passam por ele cinzas como borboletas a esvoaçar, reconhece aquelas, são de um editor famoso no mercado. Volta a olhar para a Feira e sente o cheiro a papel queimado e o cheiro do sebo da carne a fritar de escritores, editores, influencers e públicuzinho que escorre ladeira abaixo até às sarjetas mas que bem poderia ser aproveitado para fazer sabonetes gourmet para serem vendidos ainda mais abaixo nas lojas chiques da Avenida da Liberdade. Pois na literatura, nada se perde, tudo se transforma.

Leonel Ventorim

Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Especializado em Jornalismo Cultural, já fez crítica de arte e produziu e apresentou um programa de entrevistas na rádio. Tem livros publicados. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro, as quais practica actualmente. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, gosta de gelado de chocolate e pistáchio, e é torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.

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