
Em resumo 28
A minha vida começou numa casa sem livros mas, talvez por isso, acabou por ser habitada por livros de muitos e variados autores. Tantos são eles que estão dispersos por caixotes em arrecadações e em garagens. Assim de repente vejo livros de Luís de Camões, Gil Vicente, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Cesário Verde, Júlio César Machado, António Nobre, Raul Brandão , Camilo Pessanha, José Régio, Sebastião da Gama, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Alves Redol, Fernando Pessoa, Branquinho da Fonseca, Miguel Torga, Ruy Belo, Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Alexandre O´Neill, José Gomes Ferreira, Luandino Vieira, Vitorino Nemésio e Carlos de Oliveira. A ter que escolher um livro decido-me por «Uma abelha na chuva» de Carlos de Oliveira: Ler «Um abelha na chuva» em 1969 foi a descoberta de um escritor e de um mundo. Carlos de Oliveira escrevia romances como quem escrevia poemas, sem excessos palavrosos, com uma carpintaria essencial. As personagens movem-se na Gândara, a região onde o autor viveu a meninice «terra areenta, infértil, dunas, lagoas pantanosas, pinhais, casas de adobe». As duas figuras-chave do livro continuam ainda hoje inesquecíveis – Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre. E o conflito surge entre a aristocracia decadente e a burguesia em ascensão , amor e desprezo, ciúme e prazer, ódio e ternura. Notável é neste livro de 1958 como o autor pressente o regresso dos «retornados» e os seus conflitos pessoais e sociais. Este livro é um excelente ponto de partida para para revelar o autor de uma das mais importantes obras da poesia e do romance do século XX em Portugal.
José do Carmo Francisco , escritor
