E AGORA, JOSÉ? Por MANUEL MATOS NUNES

A pergunta não é para o cronista José Cardoso Pires, tirada de um poema de Carlos Drummond de Andrade, mas para outro José, o do Carmo Francisco, esse que acaba de nos entregar a colectânea de crónicas O passado é para sempre, edição On y va do “mosqueteiro” António Manuel Venda. Textos resgatados à «terrível fábrica de esquecimento» a que a imprensa periódica está sujeita.
Um livro é um marco da memória, uma pedra branca que se levanta quando «a luz acabou / o povo sumiu / a noite esfriou». Agora, José, é preciso lembrar e fazer lembrar, porque, como se diz na crónica que dá título à obra, não é possível esquecer o «quadrilátero do nojo» (Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal) nem sequer os brandos costumes do salazarismo paroquial que marcava os homens e os diminuía na sua honra e felicidade. Havia os mortos, nas celas ou a tiro em plena rua: aquele José assassinado em Alcântara, na rua do parvulário, cujo tiro ouvi dentro da minha escola, a Ferreira Borges, quando ali tinha ficado retido, fora do horário normal, por causa das orações que nesse dia nos foram impostas pela Índia chamada portuguesa. Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual, cantou um José poeta e baladeiro.
Estamos perante crónicas-poemas que falam do povo. Cesário no seu poema “Cristalizações”, um dos mais belos da poesia portuguesa segundo José do Carmo Francisco: «Povo! No pano cru rasgado das camisas / Uma bandeira penso que transluz! / Com ela sofres, bebes agonizas: / Listrões de vinho lançam-lhe divisas, / E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!»
Mas não só a imprensa periódica, também o livro não está imune ao esquecimento. Jorge Luis Borges, citado numa das crónicas, orgulhava-se do que tinha lido, não tanto do que havia escrito. Mas mais importante do que ler, é reler, como diz uma personagem do seu conto “Utopia de um homem que está cansado” em O Livro de areia. Reler é exercitar a memória, é não esquecer.
O passado é para sempre é um livro bom que nos traz à memória nomes como os de Cesário Verde (Caeiro, o malogrado heterónimo de Pessoa, lia-o até lhe arderem os olhos), José Régio, João Gaspar Simões, Jorge de Sena, Alexandre O´Neill, Irene Lisboa (quem visitou a sua casa de Arranhó, Arruda dos Vinhos?), Maria Judite de Carvalho e as Três Marias, a professora Clara Rocha e o professor Fernando J. B. Martinho, meus arguentes de certo trabalho académico em que me meti. De uma ou outra maneira, em presença ou em espírito, também eu me cruzei com estes nomes, e daí a minha empatia com os textos de José do Carmo Francisco.
Que farei com este livro?, perguntou na voz de Camões o José que era Saramago. Que faremos, nós, leitores, com este livro? Para lá do que já foi dito, um trabalho importante seria o de o levar às escolas, não só para conhecimento dos alunos, mas sobretudo dos professores cujo mester é ensinar.
Vivemos um tempo de desencanto e quebra da memória. O curso da História conhece hesitações, desvio de valores. Com José, o destas crónicas, falo às vezes de Alfarrobeira e do Duque de Coimbra, o Infante das Sete Partidas tragicamente associado à cidade do Ribatejo onde resido. Que uma nova Alfarrobeira, ainda que sem ferros e sangue, não venha a terreiro sobre os degraus da nossa indiferença. Agora, José, não podemos esquecer.

Manuel Matos Nunes

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