As Fronteiras que Respiram em Português: Vamberto Freitas, o autor dos autores e o grande cartógrafo atlântico da literatura portuguesa (Dia do Autor Português)

Neste 22 de maio, Dia do Autor Português, talvez devêssemos começar por recordar uma verdade que as culturas esquecem com demasiada facilidade: nenhuma literatura sobrevive apenas graças aos escritores que produzem livros. Sobrevive também graças aos leitores que lhe oferecem permanência, contexto, diálogo, memória e continuidade histórica. Há poetas que inventam metáforas. Há romancistas que erguem mundos. E há críticos que impedem esses mundos de desaparecerem no silêncio do tempo. Vamberto Freitas pertence a essa raríssima confraria dos homens que transformaram a leitura numa forma superior de criação cultural.

Ao longo dos volumes de BorderCrossings, título profundamente simbólico da sua obra ensaística e crítica, Vamberto Freitas foi construindo muito mais do que uma coleção de reflexões literárias. Foi desenhando uma geografia atlântica da língua portuguesa, uma cartografia cultural em que os Açores, Portugal continental, a América do Norte e a diáspora lusófona deixam de existir como territórios isolados para passarem a dialogar como margens de uma mesma consciência oceânica. Cada ensaio transforma-se numa travessia: entre ilhas e continentes, entre memória e modernidade, entre identidade e deslocação, entre a literatura portuguesa e as vozes frequentemente ignoradas das periferias atlânticas. Ler BorderCrossings é compreender que, para Vamberto, a literatura nunca foi uma pátria imóvel. Foi sempre um território em movimento.

Num tempo em que a crítica literária é frequentemente reduzida a promoção editorial, comentário instantâneo ou consumo superficial de novidades culturais, a obra de Vamberto Freitas recupera a dimensão clássica do crítico enquanto mediador civilizacional. George Steiner escreveu que toda crítica nasce de uma “dívida de amor” para com os livros. Edward Said entendia o crítico como alguém capaz de criar pontes entre culturas e geografias. Roland Barthes via na leitura uma contínua reescrita do mundo. Em Vamberto Freitas, essas tradições convergem numa rara síntese atlântica: o leitor apaixonado, o intérprete rigoroso e o intelectual humanista que compreende que uma literatura fechada sobre si mesma acaba inevitavelmente por se transformar num monólogo provincial.

Talvez por isso o seu trabalho tenha sido tão decisivo para a afirmação da literatura açoriana contemporânea. Durante décadas, muitos autores açorianos foram lidos através de uma lente redutora que os confinava ao regionalismo, ao exotismo insular ou à condição periférica em relação ao cânone lisboeta. Vamberto recusou essa prisão crítica. Ao estudar autores como Emanuel Félíx, João de Melo, Álamo Oliveira, Daniel de Sá, Vasco Pereira da Costa, Urbano Bettencourt, Paula de Sousa Lima, Ângela de Almeida, José Martins Garcia, entre outros, não os leu como notas de rodapé da literatura portuguesa, mas como participantes plenos da modernidade literária lusófona. Deu-lhes densidade teórica, enquadramento comparatista e interlocução internacional. Fez aquilo que toda grande crítica deve fazer: retirou uma literatura da solidão.

Mas talvez a dimensão mais visionária da sua obra resida no modo como transformou a diáspora portuguesa e açoriana numa presença intelectual legítima dentro do universo cultural lusófono. Muito antes de os estudos transnacionais, pós-coloniais e diaspóricos se tornarem centrais na academia contemporânea, Vamberto já intuía que os escritores luso-americanos e luso-canadianos habitavam aquilo que Homi Bhabha designou como “o terceiro espaço” — esse território híbrido onde as identidades deixam de ser estáticas para se tornarem travessias. Com uma lucidez rara, percebeu que a literatura da diáspora não era um eco nostálgico de Portugal congelado na memória emigrante, mas uma literatura autónoma, marcada pela hibridez cultural, pela deslocação, pela tensão entre língua herdada e língua adquirida, entre pertença e desenraizamento.

Nos seus ensaios, os Açores deixam de ser apenas um arquipélago físico para se transformarem numa metáfora universal da condição atlântica: distância, migração, errância, saudade, sobrevivência e reinvenção. É precisamente essa visão que lhe permite aproximar autores açorianos de William Faulkner, cruzar Eduardo Lourenço com T. S. Eliot, colocar escritores da diáspora em diálogo com Camus, Baldwin ou Kerouac. A sua crítica nunca foi um inventário de livros; foi sempre uma tentativa de construir conversas entre mundos aparentemente distantes.

E aqui reside, talvez, um dos aspectos mais extraordinários do seu legado intelectual: Vamberto Freitas não apenas levou os Açores e a diáspora para o mundo da língua portuguesa— trouxe também outras vozes do mundo para dentro da reflexão literária portuguesa. Através da sua escrita crítica, leitores portugueses passaram a contactar mais profundamente com a literatura luso-americana, com as experiências migratórias norte-americanas, com o pensamento crítico anglo-saxónico e com correntes intelectuais internacionais que raramente chegavam às margens atlânticas da cultura portuguesa. Nesse sentido, a sua obra constitui um verdadeiro exercício de abertura civilizacional. Nunca escreveu a partir de uma fortaleza identitária, mas de uma ponte.

Há algo profundamente oceânico na sua escrita crítica. Vamberto lê como quem navega. Procura correntes subterrâneas entre textos, aproximações invisíveis entre geografias, ecos entre vozes separadas pelo Atlântico. Nos seus livros, o oceano deixa de ser distância e transforma-se em circulação cultural. E talvez seja essa a maior lição da sua obra: a de que a literatura portuguesa não termina nas fronteiras do território nacional, mas prolonga-se pelas ilhas, pelas diásporas, pelas línguas híbridas, pelas memórias migrantes e pelos leitores dispersos pelo mundo.

A crítica literária, quando exercida com inteligência, imaginação e humanismo, não serve apenas para avaliar livros. Serve para impedir o isolamento cultural. Serve para lembrar uma comunidade de que a sua literatura não vive sozinha no mundo. Sem crítica séria, as culturas tornam-se espelhos fechados sobre si próprios, repetindo-se até ao esgotamento. O crítico autêntico é aquele que cria circulação de ideias, estabelece genealogias, oferece profundidade histórica e ajuda uma civilização a reconhecer-se no diálogo com o outro. Foi exactamente isso que Vamberto Freitas realizou ao longo de décadas: criou circulação atlântica de pensamento, memória e imaginação.

Há algo profundamente poético no facto de um homem das ilhas ter dedicado a vida a construir travessias. Porque Vamberto Freitas sempre compreendeu que o Atlântico nunca foi uma fronteira. Foi uma biblioteca líquida. Um espaço de ecos. Um território de vozes interrompidas à procura umas das outras através da distância. E talvez seja precisamente por isso que a sua obra permanece tão essencial neste Dia do Autor Português: porque continua a lembrar-nos que nenhuma literatura sobrevive fechada sobre si mesma. Toda grande literatura precisa de leitores capazes de abrir janelas para outros mares.

Celebrar Vamberto Freitas hoje é celebrar não apenas um crítico literário, mas uma consciência atlântica da cultura portuguesa. Porque há homens que escrevem livros. E há homens que ajudam uma civilização inteira a compreendê-los, preservá-los e ligá-los ao mundo. Entre as névoas do Atlântico e as margens dispersas da língua portuguesa, Vamberto tornou-se exactamente isso: um guardião das travessias, um navegador de bibliotecas, um homem que passou a vida inteira acendendo luzes entre ilhas, continentes e memórias, para que as palavras nunca se perdessem no escuro do oceano.

Diniz Borges

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