A Pedra que Levita por Leonel Ventorim

Os Jacarandás

Eu quero é que se fodam os jacarandás se tu aqui comigo não estás. Eu quero é que se fodam os jacarandás desta rua tão bonita se tu aqui comigo não estás a comer pizza sem ananás e a beber refrescos com vista para a cidade ao longe e ao perto tão certo estão nossos corações a bater tum tum tum tum. Eu quero é que se fodam os jacarandás se tu aqui comigo não estás a dizer disparates que rimem com tomates e o nosso amor ser daqui do Tejo ao Eufrates e segredarmos receitas secretas de como cozinhar o amor de mil maneiras e tonteiras saudáveis. Para o inferno com os jacarandás (que eu tanto aprecio) se tu não me olhas pela manhã com aquele olhar semi-adormecido e acordado num sonho colorido comigo ao lado, se tu não me beijas língua torta de café em brasa melhor adoçante do mundo. Os jacarandás que se fodam se tu não nua comigo ou embrulhada num vestido bonito de noite ou de dia e eu a assistir de camarote ao acender do archote que é tua visão de passarela a ver-te vestir devagar pela manhã observando-te num afã de mais voltas e voltas e do armário tiras aquela blusa que tanto gostas e que realçam ainda mais teus olhos já de si palácios feitos de jóias preciosas. Quero é que se fodam os jacarandás desta rua em que sozinho coração em riste passo triste porque não estamos juntos como deveríamos estar, e agora para aqui amarrado em pensamentos obscenos e engenhos pirotécnicos de amor que até ocultarão a luz do luar em noites que ainda virão e a ouvir os pássaros felizes de Primavera quase Verão quando na verdade quero é que se fodam os jacarandás quando não estamos juntos mão na mão a ver televisão, bebericando chá, mordiscando biscoitos de canela e tecendo comentários sobre a vida como ela é cruel mas por vezes bela. Que se fodam também os arco-íris, os unicórnios, os ursos pandas, se tu comigo ao meu lado não andas, e vejo um homem que passeia um cão, trela numa mão, saco de plástico na outra, e uma borboleta voa e ladro ao céu que me cobre como a querer que se quebre pois apesar de belos eu quero é que se fodam os jacarandás se tu comigo aqui ao meu lado não estás.

Leonel Ventorim, Maio de 2026

Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Especializado em Jornalismo Cultural, já fez crítica de arte e produziu e apresentou um programa de entrevistas na rádio. Tem livros publicados. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro, as quais practica actualmente. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, gosta de gelado de chocolate e pistáchio, e é torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.

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