A Pedra que Levita por Leonel Ventorim

Mapas por desenhar numa mesa de cozinha moderna

A hélice sobrevoou todo o mapa cortando as pontas dos dedos dos gigantes que assim não mais causarão impressão digital a ninguém e as gotas de sangue que pingaram sobre o papel colorido ao secar tornaram-se montanhas e foram habitadas no seu interior por anões eunucos. Acontece que a não reprodução óbvia destes anões levou à sua extinção passado poucos anos sendo que as montanhas jazem agora vazias no mapa. Poderia convidar-te para habitar uma delas comigo tendo em conta o preço actual dos imóveis em Lisboa mas tenho em mim todas as hélices do mundo e percorro assim sozinho as ruas da cidade à procura de gigantes que sei esconderem-se atrás de tampas de esgoto mental. Mas vá, empina o nariz e anda daí comigo, empresto-te uma hélice e podemos sair juntos esta noite sem mapa no bolso. Na mesa um garfo tenta manter os dentes inteiros e uma refeição quente e quase decente torna-se numa refeição decente quase quente, uns potes com memórias mal fechados arrumados nas prateleiras, aqui não existe o “bom nativo” mas existe o bom bolor de uma faca que tenta não ficar cega no seu reflexo prata. Miro-me e resisto à faca, o problema não reside na matéria mas no espírito torto do aprendizado contínuo. Sou um cocktail químico, um caldo cósmico, na cozinha há uma máscara tribal na parede e ao enzima puxaram o tapete, agora é viver sem rede, também há metano na água e filtra-se o medo pela torneira. Batuques de tambor na tribo Titã anunciam a festa, esperança de floresta, um passo de gigante nesta cozinha moderna e um desejo secreto de mãos a tocar um olhar humano, a alegria como energia, mas ouve-se um barulho na porta… Depois, um sabor de aço na boca, cano de arma duro e frio, traficantes de Hélio-3 querem saber do segredo. – “Porque não te matas?” – “Porque nunca morro.” – “Porque te ris?” – “Porque estou sempre de partida para outra vida.” – O som repentino do Paradoxo de Fermi a ferver no fogão, perante a distração de um traficante empurro o outro e desapareço num instante, desmaterializo-me e realizo-me num sorriso no som de uma aterrissagem distante. Existem muitas formas de vida, sabias?

Leonel Ventorim, Maio de 2026

Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Especializado em Jornalismo Cultural, já fez crítica de arte e produziu e apresentou um programa de entrevistas na rádio. Tem livros publicados. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro, as quais practica actualmente. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, gosta de gelado de chocolate e pistáchio, e é torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.

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