Cânticos do Mesmo Sal: a poesia de José do Carmo Francisco

Canção breve para Adelina


Quem já viveu duas vidas
Com trajectos, cronologias
Não regista horas perdidas
Todas estão cheias nos dias.
E no caso das gerações
Multiplicadas na estrada
Cada caso com suas razões
Revisão da matéria dada.

Canção breve do amor perdido


Mesmo sendo pequeno
O amor nunca termina
Faz um balanço sereno
Na mesa desta oficina.
Mesmo sem ter garganta
Onde um poema é o lugar
Há a voz que se levanta
E não pára de cantar.

Canção breve para 1966


No Porto eram as ilhas
E os pátios em Lisboa
Não havia maravilhas
Só angústia por pessoa.
Tanta colheita perdida
E tanto sonho adiado
Cada atraso de vida
Dava letra a um fado.

Canção breve nº 2 para 1966


As prisões estavam cheias
Mas as ruas quase vazias
Quem ficava nas aldeias
Tinha mais vida nos dias.
No retrato da pobreza
Há um rapaz desfocado
A raiva era uma certeza
Com ele ia a todo o lado.


José do Carmo Francisco, poeta

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