
Canção breve para Adelina
Quem já viveu duas vidas
Com trajectos, cronologias
Não regista horas perdidas
Todas estão cheias nos dias.
E no caso das gerações
Multiplicadas na estrada
Cada caso com suas razões
Revisão da matéria dada.
Canção breve do amor perdido
Mesmo sendo pequeno
O amor nunca termina
Faz um balanço sereno
Na mesa desta oficina.
Mesmo sem ter garganta
Onde um poema é o lugar
Há a voz que se levanta
E não pára de cantar.
Canção breve para 1966
No Porto eram as ilhas
E os pátios em Lisboa
Não havia maravilhas
Só angústia por pessoa.
Tanta colheita perdida
E tanto sonho adiado
Cada atraso de vida
Dava letra a um fado.
Canção breve nº 2 para 1966
As prisões estavam cheias
Mas as ruas quase vazias
Quem ficava nas aldeias
Tinha mais vida nos dias.
No retrato da pobreza
Há um rapaz desfocado
A raiva era uma certeza
Com ele ia a todo o lado.
José do Carmo Francisco, poeta
