
A rapariga do vestido azul
O meu vestido azul ultramarino
Feito de miosótis e flocos de neve
Cobria a minha nudez
De códigos amarrotados
E desejos por saciar
Em fogo me entreguei a ti
Trémula ardente carente
Num tempo devorado pela peste
Em toda a minha nudez
Vestida de azul ultramarino
Em fratura exposta
Na urgência do desejo
Meu coração se rendeu desesperado
À paixão da carne intumescida
Que incendiou meus sonhos de ti
Meu vestido azul ultramarino
Bordado de miosótis e flocos de neve
Que cobria minha nudez
Não cabe mais em mim
Neste destino implacável
Que tu me decretaste
Meu vestido azul ultramarino
Em flocos de neve bordado
Ficou abandonado
Sujo e destroçado
Num qualquer porão negreiro
Junto a meus sonhos esfrangalhados
Requiem
No cabo do medo
A vida nada vale
Sequer o choro de uma criança
Sequer a dor de um velho
No cabo do medo
Só fome e ganância
Se cruzam nas ruas poeirentas
E nos veios de gás e minérios
Em que esquina do tempo
Se perdeu a humanidade
Em que praia de Mocímboa
A morte se multiplicou?
El shabab, daesh
Estado islâmico, boku haram
São as vestes da morte
À solta em Cabo Delgado
Em que esquina do tempo
Se perdeu a humanidade
Em que Palma em que Pemba
A morte se multiplicou?
Com o coração sangrando eu peço
Com a voz agonizante eu suplico
Um requiem para Cabo Delgado
Um requiem para o cabo do medo.
“Não me reconheço em mim. Sinto-me carente e à minha volta apertam-se-me os círculos concêntricos de involuntária clausura. Sons estranhos e profundos vindos dos mais interiores de mim e de um tempo remotíssimo continuamente se despedaçam de encontro a uma parede castrante erguida não sei por quem, erguida não sei por quê?”
Vera Duarte
SORTILÉGIO
Queria percorrer longamente
os estranhos corredores interiores
encontrar em cada esquina
multidões em delírio
penetrar no limiar inolvidável
das grandes emoções colectivas
sentir
criar
viver
azul
e bela
a amizade na ladeira da vida
abater
com fuzis de raiva
os homens de moral pirata
que não nos deixam amar
Mas sinto-me bloqueada
e quedo-me
à espera
que um vento forte
trazendo o odor do sangue silenciado
e o som de bombas assassinas
Me possa arrancar
deste sortilégio
que me alucina
e mata
“A minha ancestralidade plasmada sobre a baía e o Porto Grande que se abre ao infinito gerou-me. O que eu própria fiz por mim foram pequenos retoques de (dita) cultura. Pergunto-me se a imagem se desfigurou. Ter-se-á o meu futuro diluído na memória de um passado que não vivi mas de que para sempre me ficou a nostalgia?”
Vera Duarte
MORREU UMA COMBATENTE
Sol poente de domingo
o dia a cambar
e a peste a subir nos ares
a encher
a sufocar
Na cidade ouve-se um grito
– MORREU UMA COMBATENTE
Morta jaz a meus pés a mulher indócil
o corpo em espuma que me inebriou
já não é!
a luz fosforescente
foi apagada por mãos cruéis
Ah, tivera eu exércitos
armados até aos dentes
e lançar-me-ia
touro furibundo
sobre os seus algozes
– desditosa sina de amar a luta
Teus cabelos se espalham
ensanguentados
sobre teu fato de guerrilheira
e jazes inerte
Mas em ti a vida se futurou
e em mil manhãs de luz
ela se multiplicará
“É esta paixão que não me deixa friamente analisar, dissecar, asseptizar. Como é do meu gosto. E como é linda esta folha de papel que nervosamente vou cobrindo de pequenas formas arredondadas que talvez morram no caixote de lixo mais próximo ou levem ao próximo milénio a mensagem do milénio mil, rica e sinuosa, vermelha como um grito, injusta e sombria, mas, acima de tudo, MULHER.”
Vera Duarte
COMPANHEIRO
E ao findar
esta injusta caminhada
longa e dolorosa
e da qual nos ficou
para sempre
uma subterrânea marca de dor…
quero-te debaixo dos frescos lençóis
feitos das ervas dos campos
que
nossos corpos ardentes
tornarão húmidos de amor
quero-te vindo cansado
ao sol fecundo do meu país
buscando em meus lábios frescos
descanso
e força para a nova caminhada
quero-te nas tardes tranquilas
quando as trincheiras se calam
e o pensamento
voa
em sonhos de sahel redimido
e à noite quando o escuro vier
despir-me-ei de tudo menos de ti
abraçar-te-ei forte quanto puder
e, sobre esta terra
sagrada
abriremos nossas comportas
“Despir-me sim desta loucura que me rói e dói. Afinal a imagem sedutora daqueles que nos circundavam não trouxe genuínas emoções, pureza original, aquilo com que contávamos. E, com o olhar naufragado em desamparo e solidão, continuei carregando a minha paixão, apesar das juras nocturnas de que amanhã a compartilharia. Despir-me sim do odor camuflado das coisas e do ar que sufocadamente me cerca. Sinto-me perseguida. Sem razão aparente mas perseguida. Ter-me-ei esquecido que a mancha que permanentemente acompanha meus passos é apenas a minha sombra e não um qualquer processo persecutório movido não sei por quem, movido não sei porquê?”
Vera Duarte
In https://contosdobaitasar.blogspot.com/2020/07/poesia-africana-vera-duarte-cabo-verde.html

