
Marcolino Candeias – na distância do para sempre por Onésimo Teotónio Almeida
O Marcolino Candeias não era propriamente tão jovem para que eu lhe possa aplicar aquela frase clássica: morrem cedo os que os deuses amam. Mas citarei a propósito outra ouvida uma vez a um moço que referira alguém de 40 anos como um velho e a quem perguntei: Mas 40 anos é velho? A resposta saiu-lhe rápida: Sim, para viver é velho, mas para morrer é jovem.
E no entanto perdemo-lo. Não aparecia muito em público e nem era assíduo no contacto com os amigos. Além disso, era um poeta bissexto. Lá muito de vez em quando surgia com uma criação a rondar o perfeito. No entanto, dos poucos poemas que publicou, vários prometem ficar. A começar por aquele de estreia (teria ele uns 16 anos) que deu título ao seu primeiro livro, Por ter escrito amor (Angra do Heroísmo, 1971):
A minha vida hoje / é um abêcê sem gosto; dum menino triste / sem imaginação // Puseram-me de castigo esta manhã / por ter escrito AMOR / no tampo da carteira
Há dele uma pungente “Ode a Angra” a urgir-lhe que se erga dos escombros depois do trágico sismo de 1980 e a acreditar que vai consegui-lo. E do livro onde se encontra esse poema (Na Distância Deste Tempo. Angra, 1984; 2ª edição revista, Lisboa, Salamandra, 2002), aprecio particularmente o poema “Novas da ilha” – o poeta, estudante em Coimbra, a receber lá da terra aquelas cartas acaculadas de notícias tristes, de lhe deixarem “a alma abatumada”:
Chegam-me cartas da ilha. Sustenho-as
cavalas frescas e dependuradas de guelras abertas
inda agora acabadas de chegar
Outro poema dá conta de uma carta do Joe Simas, na Califórnia, personagem de sua criação:
Sua carta diz-me pura e rica como sua voz
de mexins para um tudo de chtôas e de tães
do Chinatão à noite e de Frank Soisa nas Festas de Gastinas
Que o Vale de São Francisco é um céu incanado.
Conta-me de brigas notícias de Norioque
que veio na talaveija e os papéis troiveram
de fitas faladas que viu em amaricano
áccidents no frieui charefas leitarias
e diz que na América o passadio é outro.
Já não sei quantas vezes transcrevi e li em público o poema “Aqui não tem sabiá”, composto durante os seus dias de Montréal, à beira de um longo inverno canadiano. Não resisto a citá-lo por inteiro, uma vez mais. Vem dedicado à Deka, seu amor brasileiro que ali começou a aquecer-lhe os dias: Para a Deka /meu sabiá quotidiano / minha cachaça/ e meu quindim. É um poema que glosa o clássico do igualmente brasileiro Gonçalves Dias – “Canção do exílio” -, quando este último, também estudante em Coimbra, se bem que quase século e meio antes do nosso Marcolino, sofria de saudade do seu Brasil:
Não tem sabiá aqui nem tem palmeiras. Aqui rapadura não tem meu bem
nem pé-de-moleque nem brigadeiro metido
em tudo quanto é sítio. E mesmo
teu pezinho de jabuticaba meu bem
já virou quindim
lá bem no meiinho da chacrinha da memória.
Aqui saudade às vezes tem. Te bate negra.
Mas não dá princesa pra chamar a polícia.
Isso são uns bem caipira nem sabem o que é cachaça. Tudo
uns tatu velho que não tem mais jeito.
É quando de Chico pra Gilberto e de Elis pra Bosco tu viras sagui
e por toda a casa
Uma orgia de orixás
bota uma alegria danada que desconchava direito
esta minha sisudez de quem nasceu no mar.
Aqui meu bem não tem sabiá não.
Aqui tem só uma gracinha sorrindinho.
Tem você, né?
Noutro lugar, falei já de mais criações suas: o Joe Canoa, personagem terceirense com experiência de vida californiana, que o próprio poeta incarnava para falar da América através dos olhos dele. Actor notável, ficam, na memória dos que tiveram a sorte de o ver e ouvir nessas rábulas, momentos impagáveis de subtil observação e humor. E todos nos lamentamos de nunca as termos gravado em vídeo. Por sinal, tentei fazê-lo numa entrevista da série que no início do milénio fiz para a RTP-Açores. Na altura, ele era Director Regional da Cultura e achou que isso poderia desestabilizar um pouco a sua imagem pública. Para meu grande pesar.
Uma das rábulas que o Marcolino encenava em linguagem popular terceirense era a recriação da história bíblica da ressurreição de Lázaro narrada na voz de um popular da sua ilha. Essa continuará felizmente viva e a ser muito bem reproduzida pelo seu patrício, também poeta, Vasco Pereira da Costa (que deveria gravá-la porque assim ao menos fica-lhe garantido o arquivo). Por acaso encontrei nos meus ficheiros fotocópia de um registo escrito dela (quando o Marcolino a contava, nunca se repetia verbatim, pois era mestre em variações). Passou-a ao papel e imprimiu-a em jeito de mensagem aos amigos que estavam reunidos num encontro de escritores açorianos na Praia da Vitória, em 1994, a comemorar os 50 anos da publicação de Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, ali nascido. O fino ouvido do poeta, tão bem manifestado nesse poema ‘brasileiro’ atrás transcrito, revela a mestria do artista na captação da linguagem popular da sua ilha. A “mansage” abre com esta deliciosa saudação:
Mês ric’ amios e amias
Cantadôr’s e cantadeiras
Dos Açor’s e al redol
(nest’ pont’ se t’vié por I alg˜u s’nhiô ò s’nhiora d’autorizo, desses do Governe Regional, alomeie-se, faz-se-le ˜ua mesura e m˜ut’òbriado agardecido per tod’ àpoia que deu à gient’ – qu’ê na sei se tãe s’ na tãe, é só um s’por).
E a magistral rábula vai por aí fora assim, de leitura difícil para os não iniciados na fonética terceirense (nada a ver com o que os continentais apelidam de “açoriano”, que é o falar de S. Miguel, o linguajar insular mais conhecido e mais facilmente identificável).
Ficou-lhe a fama ligada a outras estórias da nossa memória colectiva (no liceu, quando um professor lhe perguntou o nome, respondeu: Não tenho. Ontem fui dar o nome para a tropa!). Da sua narrativa do “jogo do malão”, o Joe Canoa a descrever na Terceira um desafio de football americano, não creio haver nada escrito ou gravado. Infelizmente, ninguém, que eu saiba, alguma vez conseguirá reproduzir tal beleza de narrativa.
Também já escrevi sobre as suas habilidades gráficas e o seu fino gosto estético, por vezes impregnado de incontido humor. Uma sua peça clássica é a Felix et amici cena, decalcada no famoso quadro “Última ceia” de Leonardo da Vinci, homenagem ao seu amigo e mestre o poeta Emanuel Félix, ladeado à mesa de outros amigos escribas açorianos.
Tudo com o carimbo de uma alma de artista da palavra, mas também de um arguto observador social, profundo conhecedor principalmente da gente da sua ilha, da que ficou e da que emigrou, sobretudo para a Califórnia. Há uma raiz popular na sua sensibilidade, a mesma que habitava o seu patrício Charrua (como ele, natural das Cinco Ribeiras), o mais celebrado dos cantadores populares açorianos, senhor de uma destreza do verbo e do humor inconfundíveis da Terceira, de onde muito se orgulhava de ser. A cultura da sua ilha, e a dos Açores no seu conjunto, ficou bem mais rica com os esporádicos golpes de criatividade de Marcolino Candeias, porque ele, muito exigente em matéria de gosto, preferia manter-se silencioso até crer que tinha algum contributo significativo a dar-nos. Nós é que achámos sempre que ele guardava demasiado para si e que poderia ter acedido com outra frequência aos nossos insistentes pedidos de mais. Levou imenso consigo. Numa carta em poema que me enviou do Canadá, justificava assim a sua preguiça literária contra a qual eu protestava com veemência periódica e insistente:
Não te inquiete amigo o meu silêncio.
É higiene pura ecologia.
[…]
Que queres pois […] que eu faça
Senão guardar silêncio recolhido?
E enquanto pouso a pena apenas penso
Que em a repousando
Ao menos vou salvando algumas árvores… (“Quinta epístola a Onésimo”, Montréal, Québec, 1994, “edição especial feita pelo autor para a sua querida amiga Luiza Costa”).
Marcolino, de sobrenome Candeias. ‘Estrelas’ ficará como apelido para os seus poemas.
Onésimo Teotónio Almeida
