Marcolino Candeias-Poeta de Angra e do Mundo

Uma releitura de Na Distância Deste Tempo de Marcolino Candeias por Víctor Rui Dores

          “Comecei a escrever um poema, “Le Chateau des Pauvres”. Sabes, é um poema de circunstância. Mas todos os poemas são de circunstância. É só preciso que as circunstâncias sejam as do poeta: a circunstância exterior deve coincidir com a circunstância interior, como se o poeta a tivesse produzido”.

                                                                                    Paul Eluard

          Marcolino Candeias (1952-2016) foi poeta maior porque possuía um apurado espírito crítico que o policiava. Poeta dispersivo e bissexto, escreveu com rigor e serenidade, sem pressas criativas nem ânsias editoriais, com quase desapego, mas sem abdicar nunca de uma implacável (auto)ironia e, concomitantemente, de um inquebrantável rigor ético e estético. Arpoou à escrita com sensibilidade sensorial e pensou e trabalhou por dentro das palavras. Há cuidados prosódicos nos seus poemas. Nunca ele pactuou com a facilidade, pois buscou sempre, no urdir do verso, o rigor das palavras exatas e essenciais.

          Homem de mitos, sonhos e quimeras, havia, neste autor terceirense, o peso das raízes e das memórias telúricas. Digo, o poeta que se identifica com a sua terra e capta o espírito dionisíaco do seu povo. Nos seus poemas há o sopro vivo de uma inegável sinceridade, pois que os seus versos resultam da experiência humana vivida e intimamente sentida na ilha Terceira e fora dela. E isto porque este autor ajudou a engrossar as vagas da emigração, tendo vivido durante alguns anos no Canadá. Mas, ainda e sempre, é a ilha Terceira o microcosmo de referência (geográfica e afectiva) da sua poética.

          Temos, em Marcolino Candeias, o eu do poeta circunstanciado (“Eu sou eu e a minha circunstância” – Ortega e Gasset), ou seja, uma circunstância geográfica que se aglutina a uma circunstância poética.

          Vem tudo isto a propósito da (re)leitura que acabo de fazer do livro Como Quem Vai ao Horizonte. Poesia reunida (Instituto Açoriano de Cultura, 2022), deste autor, e que inclui os dois livros que ele deu à estampa: Por Ter Escrito Amor (1971), ano em que se destacou como poeta (revelação) de apreciáveis recursos, sendo já na altura nome indissociável da chamada geração Glacial; e Na Distância Deste Tempo (1ª edição 1984; 2ª edição revista e aumentada, 2002).

          Em, Na Distância Deste Tempo, estamos perante uma poética que dá conta da ausência e da distância da ilha, das sensações e dos sentimentos que ficaram enraizados na memória do poeta. Este revisita lugares, pessoas e coisas que povoam o seu imaginário, isto é, tudo aquilo que lhe ficou suspenso na lembrança nostálgica.  

          Estamos, por conseguinte, perante a reinvenção evocativa da memória e o universo imaginário das recordações insulares. Quando se encontrava fisicamente apartado da ilha Terceira, Marcolino Candeias retoma a ilha por via poética e evoca esse espaço ilhéu e nele procura a unidade perdida. O poeta dispõe-se a todas as viagens e assume a partida como algo de inevitável. Porque a errância é a sua forma de perseguir a felicidade e o sonho:

          “Mas se tenho de partir que de novo eu parta

                             (…)

          Largar amarras. Ir decifrando

          quantos portulanos na vida houver que decifrar.

          E se no fim faltar o cais para a chegada

          o mar também é terra onde morar”.  

           Há aqui uma concepção mitificada da ilha. A ilha chamar-se-á simbolicamente Ítaca. Mas esse plano simbólico é já dobragem da realidade. O poeta, qual outro Ulisses, sente, no exílio, o apelo, a lonjura e a “saudade ardente” da ilha. E, vagueando pelo imaginário mitológico, recorda a amada Penélope, que é uma outra forma de dizer mulher, ilha, amor e ternura:

          Verifico que não estás aqui e que, todavia, és flor plantada em mim.  

           Espaço imagético e afectivo, a ilha é geradora de mitos, mistérios e fascínios e está sempre presente na memória do poeta e pressentida nos seus versos. Em terras da diáspora, Marcolino Candeias escreverá aqueles que, na minha opinião, são os seus melhores poemas de sempre: Rota de Ítaca, Na distância deste tempo, Carta de Joe Simas e Ode a Angra, minha cidade, em tom de elegia.

          Para a segunda edição da obra em análise, o autor retirou o poema Pequenos navios carregados de esperança e acrescentou outros dois: Aqui não tem sabiá (um belíssimo poema de amor!) e Breve discurso aos meus amigos.

          Espírito atento ao fluir e refluir do devir histórico, Marcolino Candeias dá-nos, em Ode a Angra, minha cidade, em tom de elegia, o melhor poema que alguma vez já foi escrito sobre a cidade de Angra do Heroísmo. Escrito há já alguns anos, e não obstante as transformações operadas nesta cidade património mundial, o poema é de uma impressionante atualidade. Aqui se verifica o fenómeno da intemporalidade da poesia e da atemporalidade do poema. Neste, o poeta denuncia e desmistifica a cidade, retira-lhe todo o secular verniz histórico, político e social que a tem caracterizado. E fá-lo com grande profundeza de visão, com ironia e sarcástica malícia:

          Angra oh minha cidadezinha de bolso querida

          minha putefiazinha maquilada de ternura

          (…)

          oh minha tolinha inchada de orgulho

          do aqui-já-foi-só-Portugal.

          (…)

          Ficas-te pela honesta pela criteriosa notícia

          dos teus jornais habilidosamente bem colados

          politiqueiros pequeninos obesos calvos beatos

          mentindo com todas as verdades e insinuando

          nos tentáculos das suas entrelinhas subtis.   

          (…)

          oh minha pequena burguesinha ignorante

          minha cretinazinha paspalhona

          (…)

          oh minha desavergonhadinha à moda de Lisboa

          imitação caricatura em diminuta escala

          imitação mal imitada limitada

          (…)

          todos os teus empregados sindicalizados e

          não sindicalizados tuas empregadas

          domésticas muitas delas

          raparigos extremosos e prendadíssimos

          (…)

          Acima de tudo, o poeta mostra o verdadeiro rosto da urbe nos seus desajustamentos sociais:

          em ti própria renascida outra memória

          verdadeiramente tua

          a de

          teus marginais

          a de

          teus infelizes operários teus pescadores do Corpo Santo

          teus esfumados reformados em seus passos mudos

          teus engraxadores rezingões sumidos na insignificância

          teus guardas municipais de sentinas teus vendedores de

          fava torrada e amendoim (…)

          (…)

          que esta sim é a tua verdadeira memória

          é tua grande e presente memória de necessitados

          e oprimidos

          memória presente de todos os outros que vivem apagadamente

          de um ordenado menor de gente menor

          e esquecida na soleira da porta

          aguardando um raiozinho de socialismo

          (…)

          Mas este poema é, acima de tudo, uma sentida e sincera declaração de amor a Angra do Heroísmo (“cidade única e minha”), com a qual o poeta se mostra profundamente identificado. Da mesma maneira que se identifica com o povo terceirense: os poetas populares (João Vital), os agricultores (seu pai, Manuel Coelho Lopes e Chico Veríssimo) para além de outros que exerciam (exercem) profissões já acima referidas. (A propósito, lamenta-se que o autor não tenha incluído o poema Nesopatia sobre o terramoto de 1 de janeiro de 1980 que tanto desfigurou a cidade de Angra).

          Na Distância Deste Tempo reúne 19 poemas bem urdidos e sonoros. Um livro escrito com os olhos da memória e que, por ser profundamente terceirense, é profundamente universal.

                    Victor Rui Dores, poet

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