
O beijo de brilho e o belo e justo grito
Do cima da ponte vejo a luz do sol a brilhar sobre a água e penso por segundos em todos os seres vivos neste exacto momento sejam animais humanos ou plantas a respirarem estejam onde estiverem todos sem excepção agora mesmo em simultâneo e eu aqui também vivo a respirar e a pensar nisso em como tudo é grandioso e belo e por isso ao mesmo tempo frágil e assustador e como sou pequeno pequeno perante tudo ou talvez só o pensamento seja enorme enorme enorme e com sorte se perpetue sobre a água como o brilho do sol talvez seja mesmo o próprio pensamento o sol mas acontece que o sabor do sal eu já conheço e penso mas é em como será o sabor da tua boca essa flor cheia de sol e o teu cheiro de anémona menina no dia do encontro das águas e do céu caem gotas de sol e do sol caem gotas de mel pois agora ultrapassada ponte só me resta o infinito inquietação sonâmbula mas perplexo cheio de vida insisto nisto no encontro das águas e quero-te laranja na minha boca para te morder amarga e doce quero-te sumo pelo pescoço a escorrer peganhoso quero-te sol no céu da boca da vida pois não é triste ser-se uma memória triste é ser-se uma memória de algo muito forte que existiu mas não se cumpriu porque o amor nunca deve ser um dado adquirido o amor deve ser trotskista no sentido de ser “revolução permanente” uma constante conquista dia a dia uma anti-cobardia uma dedicação de forma natural a uma causa é que ao contrário corre o risco de um dia convencido se aburguesar e morrer sentado num sofá fumando sozinho cigarros vendo canais por cabo numa eterna segunda-feira qualquer. A loucura é um abandono de coisas que se vai deixando para trás, da própria pessoa que se esquece de si. É uma solidão não consentida. É loucura também largar a mão de quem segura a tua. Isso é a loucura escura, não a loucura sagrada sadia, pois na verdade a loucura é uma gelateria onde tens vários sabores para escolher. Eu gosto de chocolate e pistáchio mas agora preferia o sabor amargo e doce da laranja esmagada na nossa boca. Os desejos são para serem satisfeitos, os prazeres são para serem realizados, senão daqui a muitos anos, muitos olhos, muitos ossos, pensarás em ti ao espelho como tarde demais. Importa na vida é deixar rasto e nunca demorar onde não há nada para ti pois é na troca que tudo se realiza é na troca que tudo se satisfaz. É tarde para começar a fumar – assim com estilo, como em algum filme antigo – e depois deixar de fumar, neste mundo de azedumes e neuroses, mas talvez ainda haja tempo para ser feliz, sem filtro, e contra o tempo perdido, dar o belo e justo grito.
Leonel Ventorim, Abril de 2026
Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Especializado em Jornalismo Cultural, já fez crítica de arte e produziu e apresentou um programa de entrevistas na rádio. Tem livros publicados. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro, as quais practica actualmente. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, gosta de gelado de chocolate e pistáchio, e é torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.
