Do Atlântico ao Mundo: As Análises Literárias de Vamberto Freitas (na véspera do 25 de abril)

Quando Portugal era a morte e o silêncio

Cuspira de repente, vomitara contra o mundo a coisa monstruosa que estava dentro dela: A morte de um filho.

Teolinda Gersão, Paisagem com mulher e mar ao fundo.

Vamberto Freitas

      A primeira edição deste romance de Teolinda Gersão, Paisagem com mulher e mar ao fundo, foi publicada em 1982, quando eu andava nos Estados Unidos e era difícil fazer chegar um ou outro livro antes da era digital. Era só por graça e amizade que recebia uma ou outra obra de amigos, mas este nunca tinha lido naqueles recuados anos. Há quem diga que isso é maravilhoso: esperar para ler qualquer grande livro é um prazer só adiado. Foi o que me aconteceu com este e outros romances e contos da mesma autora, o que desde algum tempo a esta parte venho a preencher o que então nesses tempos de lonjura e alguma indiferença perante quase tudo que saía fora dos clássicos portugueses de outros séculos me afastava da nova literatura, concentrando-me em questões políticas e culturais das nossas comunidades, publicando em jornais da imigração, e depois no Diário de Notícias a partir de 1979, mas isso era outra questão em que tinha a América no centro da minha correspondência, da sua literatura, e depois da literatura açoriana. Desde que regressei definitivamente a Portugal em 1991, tudo isso mudaria com rapidez, tinha de preencher um vazio imenso que dizia respeito à nossa escrita maior nas suas diversas geografias. Não quero que isto se torne numa nota biográfica, mas apenas contextualizar o que em seguida direi sobre este grande romance, a 5ª edição que acaba de sair na Porto Editora. Ao contrário de uma certa nova geração que se tem como sendo “globalizada” e escreve com um olho em possíveis traduções, fazendo da história do seu próprio país como se fosse a história, ou estórias de qualquer parte do mundo com esperança de traduções. Teolinda Gersão, que sim, está traduzida em muitas outras línguas (assim como alguns os nossos melhores escritores) faz da nossa realidade e estado existencial vivido em várias épocas o centro da sua temática, linguagens, simbolismos e metáforas a literatura verdadeiramente universal, os homens e mulheres em toda a parte na sua condição diferenciada mas no fundo a humanidade de nós todos respirar do mesmo modo, sentindo a mesmo dor ou, de quando em quando, a mesma alegria. Faz tudo isto sem imitar os estrangeiros em modas depressa ultrapassadas e sem qualquer originalidade. Praticamente todos os seus livros de ficção ou em outros géneros têm a nossa “realidade” como ponto de partida e chegada, o drama intenso de um povo que raramente conheceu a liberdade, e viveu quase sempre a opressão dos mais ricos e poderosos sobre todos os outros. As suas personagens em lágrimas somos nós todos, quer o aceitemos ou não. As contingências quotidianas das suas personagens são de imediato reconhecíveis pelos seus leitores de qualquer extracto social da nossa sociedade. Eis aí a grandeza da verdadeira arte literária, ou como diria Miguel Torga, o local é (inevitavelmente) o universal.

Bem sei que a literatura de guerra moderna do nosso país já conta com um substancial cânone, mas nunca tinha lido um romance tão abrangente dos anos da campanha anti-nacionalista em África, que vai desde os dramáticos e irrecionais anos 60 até à libertação do país com o 25 de Abril de 1974 (a data é minha e é apenas insinuada pelo narradora ou narradoras) desde o começo até ao fim “… O. S. (Oliveira Salazar) está morto e eu vou voltar, O. S. está morto e eu vou voltar”. Paisagem com mulher e mar ao fundo está dividido em três partes: o relato de Hortense que perde o filho na guerra e passa os dias na maior solidão e dor, tentando imaginar que a morte do guerreiro tenha sido súbita e sem a consciência do seu destino na mata africana. O segundo é de Clara, a sua esposa, e que vive os seus dias em Lisboa em condições semelhantes, os únicos momentos de alívio são um passeio na praia aonde vivem. A terceira parte é uma sustentada analepse, em que figura uma professora de nome (irónico aqui) Áurea do antigo ensino primário, fascista e religiosamente fanática e castigadora rigorosa de alunos, como teria sido com Hortense na sua adolescência: “Redacção a pátria, redacção a família, redacção Deus, devemos amar a pátria, respeitar a família, adorar a Deus, devemos dar a vida pela pátria, honrar a família, respeitar a Deus, devemos deixar tudo para seguir Deus, dar a vida pela família e sacrificar-nos pela pátria”. Por entre outras personagens mais ou menos secundárias, está sempre presente o O. S. É, claro está, o ditador absoluto, que tudo comanda na pobreza e entre a maioria do povo português, com olhos e ouvidos até nos mais remotos sítios do país, ou então a sua polícia batendo à porta durante a madrugada de qualquer cidadão suspeito. Ninguém fala da situação, nem sequer os mais bêbedos nos cafés locais. Era a obediência total, o sofrimento na nação tido como a virtude suprema de uma suposta civilização cristã, mesmo que o resto do mundo estava a evoluir noutras direcções ou concepções da dignidade humana. Silêncio e raiva por cá. Toda a nossa História de boa parte da segunda metade do século passado está presente neste romance. Cada leitor, naturalmente, terá e deve ter a sua leitura ou interpretação de uma obra como esta. Seja lá quem for ou como se posicionou social e politicamente nos anos de desvastação, medo, injustiça e arrogância, ou até mesmo respeito pela situação que terminou quase pacificamente no Quartel do Carmo irá reconhecer-se nestas páginas nada menos do que brilhantes, fazendo da língua portuguesa não um pretensioso acto de linguagens ofuscadoras, mas sim uma obra prima. É um romance, permitam-me adicionar aqui, que é reeditado no momento certíssimo em que vive alguma Europa, já esquecida do Holocausto generalizado que foram as suas ditaduras, incluindo a nossa, ou então já se esqueceram dos que pereceram numa guerra injusta e injustificável, de um país na miséria absoluta, e de um povo sem voz ou liberdade.

      “…Este ódio ao cais, às despedidas lancinantes, por que não gritar alto, assumir este cais e estas cenas, estão na nossa vida desde há séculos, este cais de desastre, esta amargura, é melhor assumi-lo até ao fundo e gritar com os outros de puro desespero, em vez de se diluir de falsa esperança.

      O que quer que aconteça é culpa minha, sou culpada deste navio e deste cais, porque nós preferimos culpar o destino, como se o destino existisse, e aqui estamos há séculos de pés e mãos atados, embarcando, partindo para fora de nós mesmos, no barco da loucura, um povo sem força nem vontade, apenas embarcando”.

A longa situação vai aí deliberadamente da minha parte. Não, não vivemos numa ditadura, pelo não numa ditadura política tradicional, se bem que estamos todos sujeitos à ditadura internacional da alta finança sem ética, vergonha ou dó de ninguém. Por mais que oficialmente digam que estão a entrar mais imigrantes do que a sair, isso é uma mentira. Já não saímos de barco, agora só de avião. Os barcos agora são só para pescadores e o recreio de ricos. A nossa emigração continua, e em força. Já sem guerra à vista, na aparência apenas, é verdade. Mas Portugal é fiel à sua longa História. Todo o sofrimento de outra natureza para a maioria, e os privilégios para uns poucos. O genial romance de Teolinda Gersão, como todas as grandes obras literárias, ainda significa, ainda nos fala directamente de um país de embarcadiços. O regresso quase não existe. As sombras ominosas permanecem, de outro modo mais ameno, no reino da velhíssima Lusitânia.

Vamberto Freitas, crítico literário

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     Teolinda Gersão, Paisagem com mulher e mar ao fundo (5ª edição), Lisboa, Porto Editora, 2019.

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