
Extrair leite de pedras ou molhar a madalena neste século sem Baudelaire?
Dizia Baudelaire do alto do seu século XIX que antes de alguém querer ser dândi era melhor ter a certeza de que tinha mesmo dinheiro para isso. As vestimentas, os adereços, a vida prazerosa, tudo isso gritava pela existência e exigência de dinheiro. Mas pode-se “querer ser dândi” ou é somente condição inata a algumas pessoas? Todos podem tentar, é democrático, mas a esmagadora maioria irá falhar, pois não se tenta, ou é-se, ou não se é, de todo, é-se apenas, tolo. Ser dândi é tão natural como o sol nascer pela manhã, como o cliché parolo de se fotografar o pôr do sol, ou como o bife do Snob ser uma maravilha (Ai como como e peco por mais). Acontece que aquele aparato cénico leva as pessoas ao engano pensando ser apanágio de um dândi não apenas a possibilidade financeira mas uma posição social elevada ou quiça até mesmo sangue azul. Nada mais errado pois um dândi não se rege por dinheiro por classe social ou por títulos, mas sim por estilo, refinado bom gosto, e muita atitude. Se assim fosse muito mais gente com posses, posição ou título teria sido, ou é, um dândi, e como sabemos, não o foram e não o são. Poderão aqueles que tenham alguma sabedoria, ou vá, cultura geral obtida num doutoramento em memes nas redes sociais – afirmar que por sua vez Oscar Wilde afirmou “Quando era jovem pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo, agora que sou velho, tenho a certeza.” – certeza é que nem mestre Wilde acertou em tudo pois além de ser um excelente provocador morreu bem pobre, doente e azedo como uma laranja amarga. E não é agridoce o nectar dândi por excelência? O intermezzo do viver? Portanto, eu, no alto do meu Século Vinte e Um e a braços com uma crise ergonómica, perdão, económica (foi culpa desta maldita cadeira de onde escrevo) brado a bom bradar: nada mais errado caro Baudelaire!!! Nada mais errado caro Wilde!!! Urge então a arte raffiné de extrair leite das pedras, ou seja, de conseguir na Feira da Ladra aquele tal lenço que não sendo Hermès seja parecido ou até que ultrapasse o mesmo em je ne sais quoi ou alguma peça antiga da Secla que tente fazer esquecer aquelas lindas porcelanas do Eduardo Nery para a Atlantis Vista Alegre, e vista alegre é o que sinto sempre que passo naquele Largo do Chiado de um lado a marca francesa do outro a portuguesa pois delírio é colírio para os olhos enquanto Pessoa sentado bebe café mas na Bernard imagino Proust asmático prostrado a molhar a sua madalena num chá. Chá Pessoa também sofria de humidade, um mal muito português, mas não estava em busca do tempo perdido, já estava perdido. Mas nesta Baixa-Chiado agora bem menos Bicha-Chiado do que antigamente e portanto bem menos excêntrica e divertida e agora demasiado Turista-Chiado é complicado extrair leite de pedras, no entanto a procura apimenta a criatividade, o fácil nem sempre é o mais apetecível, e a surpresa é a cerveja sobre o bolo. Lojas em bairros não tão centrais ou feiras independentes podem ser alternativas para se encontrar coisas interessantes. Estou muito longe de ser um fashion victim (um verdadeiro dândi é a antítese disso) e estou muito perto de um slogan que é meu mas parafraseando Marx: “Todos deveriam ter direito a um fato italiano.” – Essa é outra confusão, a do dandismo com moda e afins, é que apesar de gostar alguma coisa de moda um dândi não se rege por moda e muito menos por “modas” mas cria sim a sua própria moda que é o seu estilo pessoal acima de qualquer tendência ou imitação, portanto, uma anti-moda. É a sua singularidade que interessa, o ser diferente e saber que existem poucos assim. Uma espécie que valoriza os lenços ao invés da tatuagens e os sapatos ao invés dos piercings (Polémica!!! Polémica!!!) – é que o aspecto clean é um apanagio dândi, mesmo quando barroco. Quando alguma coisa se torna massiva, portanto, moda, o dândi foge dela como o diabo da cruz – Cada um escolhe a cruz que carrega, ou uma bela e excêntrica gravata ou calçar chinelão (que já por si é mau) com meias esticadas (o que torna o já mau em péssimo). Nunca se trata de classe social, mas de ter “classe” – O dandismo é portanto a primeira e a última das genuínas contraculturas, não sendo nem alta moda nem moda de rua. Uma tribo muito antiga mas contemporânea e com subgéneros dentro dela (estarei aqui a admitir a triste possibilidade de tatuagens e piercings?). Fui agora comprar uma patanisca de bacalhau e acabo de ver no mesmo café um sósia português do Boris Vian. É assim a vida se não arriscas: uns comem madalenas, outros pataniscas.
Leonel Ventorim, Abril de 2026 Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Especializado em Jornalismo Cultural, já fez crítica de arte e produziu e apresentou um programa de entrevistas na rádio. Tem livros publicados. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro, as quais practica actualmente. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, gosta de gelado de chocolate e pistáchio, e é torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.
