Rosas por Nicolau Saião

Anos atrás, Joaquim Montezuma de Carvalho organizou, no suplemento
literário que então mantinha no jornal “Primeiro de Janeiro”, uma antologia
dedicada a Eugénio de Andrade – depois publicada em livro, bastante
encorpado – subordinada a dois versos deste que rezavam “Se não for para
arder/ser rosa no inverno de que serve?”. A minha aquiescente resposta – a
primeira que recebeu dos autores convidados – foi o envio do poema que agora
aqui vos deixo:

Serve para estar posta
como se fosse num sonho  sobre o peito dum morto.
Serve p’ra não arder. E no entanto
arde.
E os castanheiros também. Ardem como papoilas
numa tarde de Agosto. E os espinheiros. E os lírios. E
os manjericões: é vê-los, por exemplo, num canto
dum quintal, no bolso dum transeunte, sobre a testa
dum enamorado. (Há outros, entretanto, que preferem
a buganvília; e já se viu, num povoado a oeste
um rapazola com uma orquídea ardendo
nas omoplatas   ou no ombro direito). Mas o que mais arde
de facto, são as rosas. Seu íntimo
fulgor
entre canecas de vinho, num banquete
na toalha do chá numa sala perdida do passado
sobre o aparador de cerejeira da pensão familiar
no tablier dum automóvel ou no chão duma caleche

nos destroços sórdidos dum monturo
numa parede larga e branca
arde, queima, projecta
sombras entre os dedos das mãos abertas
e lança súbitos clarões
tão firmes
fugazes
tão secretos e tensos
que as silhuetas, por um momento se curvam
como em celebração. E pergunta-se a medo: será
uma chegada   uma abalada
de mestres  de aprendizes   da Verdade
que jamais se encontrou? Será um pássaro
uma miragem no Inverno a partir? Será mera ilusão
cinematográfica
indício sonolento? Ou apenas
a Rosa
a rosa simultânea
a sucessiva rosa   a rosa enublada
multiplicada, enorme
com estranheza em sua volta, com sonoros tinidos
no entanto silêncio, no entanto solidão?
E a rosa arde, como papel amarfanhado
como papel   escrito
como um rosto   ou um crânio   sobre o solo verdejante
como os primeiros versos (porque não?) de juan rámon jiménez
ou as trevas (porque sim) de h. p. lovecraft
ou as palavras (pois então!) escritas por sensatez
complacência, desgosto ou mesmo fantasia
amargura difusa, inconcreta alegria
dum anónimo ser   em anónima folha. (Porque as rosas, por mistério muito
delas
mas ainda, contudo, sem cabal explicação
quando a neve se vai e vem a areia
ardem  furiosa e ternamente  em muitos versos e estrofes
além, claro está, de serenamente arderem
sobre casacos de Verão, sobre colchas, sobre memórias
de gente distraída ou simplesmente inocente).
Mas sim ardem. Sobre a noite e a manhã
ardem e tremulam, ardem
e são como imensas plantas inconclusas
como sarças    ou pirilampos
como pequenas estrelas matinais
como coisas verdadeiramente coisas    temerosas  e puras.

ns

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