O importante não se vê por José do Carmo Francisco

Em resumo 24

Escrevi um pequeno livro de 14 poemas dedicado à minha neta Alice. Está na Gráfica. São vulgares os casos de autores que fazem dedicatórias às netas como o brasileiro Armando Nogueira (1927-2010) que escreveu «O Canto dos Meus Amores» para a sua neta Letícia. Este meu pequeno livro de poemas merece uma grande banda sonora: a marcha solene «Virgem Mãe Soberana» de Rogério Barros (n.1977) e sugiro a interpretação da Banda da Covilhã. A belíssima marcha está no «Youtube» e, tal como um poema ou uma oração, liga de novo tudo o que o tempo e o espaço ajudaram a separar. Os Neonatologistas sabem que as crianças ficam apaziguadas ao colo da mãe pois reconhecem o batimento cardíaco ao qual se habituaram durante nove meses. Este meu pequeno livro aspira a ter um batimento poético que seja, tal como definiu Isabel Pires de Lima (n.1952), «límpido, incisivo e eficaz». Mas simples não quer dizer nem simplista nem simplório. A escritora alemã Marieluise Fleisser (1901-1974) autora de poemas, contos e peças de teatro, escreveu um dia que «o que é simples tem mais peso» comparando um poema a um iceberg onde «o importante não se vê». Estes 14 poemas são uma espécie de bilhetes postais que um velho avô (n.1951) escreve a uma jovem neta (n.2024).  Em «Os ofícios» de 1967 Manuel Mendes (1906-1969) advertia que «o poeta é um artesão cuja oficina e cuja ferramenta são invisíveis» e concluía «Um nada e eis quanto lhe basta para lá caber o Mundo». Já Soren Kierkgaard (1813-1855) tinha lembrado que «se as gerações não se sucedessem a nossa vida seria o vazio e o desespero». Gostava de concluir com duas quadras. Uma ouvida no Montijo em 1958 – «Fui lavar o Rio Lima/Cheguei lá sem o sabão/Lavei a roupa com rosas/Ficou-me o cheiro na mão». A segunda ouvida em Ponta Delgada em 1989 – «Vale mais uma sardinha/Comida na nossa aldeia/Do que canja de galinha/Ou bifes em terra alheia». Nem mais.  

José do Carmo Francisco, escritor     

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