
Melânia Pereira de Castro[1]
RESUMO
Na obra Já não Gosto de chocolates[2], de Álamo Oliveira, a questão da identidade do ilhéu emerge num constante dinamismo: entre o sentimento de pertença à Ilha e o esforço de entendimento do processo de (re)construção do “eu” que se afirma num horizonte alargado de liberdade.
A presente reflexão pretende analisar, a partir do fenómeno de assimilação cultural, no qual se verifica a tradução do nome do sujeito, bem como a apropriação de uma nova língua, por necessidade funcional, o impacto que este tem na estrutura identitária do sujeito insular. O nome deixa de ser habitação do ser, isto é, espaço simbólico de inscrição identitária e passa a ser instrumento facilitador de integração na nova sociedade. É o nome que o outro consegue pronunciar, reconhecer e empregar. O nome traduzido não carrega genealogias, não evoca os mortos e não responde à memória coletiva. É uma identidade, em parte, sem ressonância interior, portadora de um vazio existencial.
É nesta assimetria entre o “eu” da Ilha e o “eu” da Sweet Land of Liberty que surge a recusa simbólica de Joe Sylvia: “já não gosto de chocolates”, ou seja, a afirmação de uma identidade que recusa a doçura de uma liberdade que lhe exige o apagamento da alma. Como expressa o autor, através do discurso de John, “Quando se nasce numa ilha, é como se a gente nunca saísse da barriga da mãe. Estamos envolvidos por uma placenta de amor que nos protege e acaricia”[3].
A emigração para a Sweet Land of Liberty, em Álamo Oliveira, reflete não só os constrangimentos exteriores, como revela as camadas mais profundas da geografia ontológica do sujeito, entendida como o modo como o indivíduo se situa e se reconhece no mundo, possibilitando uma leitura humanista do processo identitário associado à emigração.
Palavras-chave: Identidade, Emigração, Nome, Língua, Tradução e Memória.
Pensar com Álamo Oliveira[4]
É pensar a condição daqueles que partem, não apenas de um lugar, mas de si próprios.
A emigração açoriana[5] para os Estados Unidos da América não constituiu apenas um fenómeno histórico, económico, político ou sociológico; representou, também, uma experiência de deslocação identitária, no sentido em que forças de ordem material e moral influenciaram as condições de vida e os sistemas de valores da comunidade açoriana. Como observa Matozzi:
A emigração açoriana, tradicionalmente ligada ao Brasil, começou a deslocar-se em massa para os EUA, já em meados do século XIX, com a descoberta do ouro na Califórnia. […] Este fluxo irá aumentar a partir da década de 1950 do século XX, indo gradualmente formar a 10.º ilha, ou que Onésimo Teotónio de Almeida define de LUSAlândia (Matozzi, M., 2019, p.120).
Deste processo resultou uma reconfiguração da consciência coletiva, marcada por experiências de ausência, adaptação e transformação identitária.
Os Estados Unidos da América exerceram durante quase toda a metade do século XX, uma grande atração sobre os ilhéus açorianos, quer pelas suas expetactivas que alimentavam de melhoria do estatuto social, quer ainda pela possibilidade de juntarem aos familiares que lá se encontravam. Com efeito, muitos emigrantes tinham na ideia serem um dia iguais a quem nas ilhas era abastado (Mendonça, L., 2024, p. 194).
Álamo Oliveira na obra Já não gosto de chocolates[6] transforma a travessia da ilha Terceira, da freguesia do Raminho para a Califórnia, numa reflexão sobre a condição do emigrante insular em trânsito[7]. O percurso da ilha à Sweet Land of Liberty não é apenas geográfico, é também um itinerário ontológico inscrito na ordem relacional do sujeito, e “era raro aquele que tinha a possibilidade de conseguir um passaporte e não o aproveitava, quer fosse trabalhador rural, lavrador ou até alguém com alguma especialização ou instrução secundária” (Mendonça, L., 2024, p. 194). É essa a história de Joe Sylvia, que através de carta de chamada[8] da tia Quitéria, emigra para a Califórnia na década de 50 do século XX, com a família.
A carta de chamada da tia Quitéria pôs a família em alvoroço. Os vizinhos apressaram-se a dar-lhe os parabéns, a desejar-lhe a sorte de todas as sortes, a lágrima no canto do olho, que era mais inveja que de saudade pressentida. “A ilha deu o que tinha para dar…” diziam-lhe (Oliveira, A., 2017, p. 33).
Apesar do contentamento da família e de considerar uma sorte para os filhos, e como dizia Maria de Fátima, “Lá não fica feio uma mulher trabalhar fora e Lúcia sabe muito bem tomar conta de uma casa. Era isso que ele não queria: que as suas mulheres trabalhassem fora de casa. Na ilha, nunca tal se vira (Oliveira, A., 2017, p. 33).
Joe Sylvia tem consciência de que, ao aceitar o pedido da carta de chamada, tudo muda. Não é só uma mudança de espaço físico e da conceção de trabalho que ele conhece; é toda a organização do mundo no qual ele cresceu e se sente seguro que, lentamente, irá desaparecer noutro espaço e tempo. Através de um conjunto de analepses, o narrador permite a emergência de um entrelaçado de dualidades e contradições da condição humana.
O narrador descreve Joe Sylvia como um homem idoso, sentado numa cadeira de rodas, que olhando da janela do seu quarto de 30 m² contempla uma paisagem fabricada pelos homens. “Se lhe perguntassem como se chamava, mesmo assim, responderia «José Silva». E logo acrescentaria: «Excuse me! Joe Sylvia!», abanando a mão e sorrindo vagamente pela língua materna” (Oliveira, A., 2017, p. 21). O seu olhar em alguns momentos alargava-se entre tempos fragmentados, sem sequência lógica e para diversos espaços, que o remetiam para a cidade de Tulare quando chegou à América, na década de 50, para regressar à ilha, à sua infância, reviver o relacionamento com os pais, as suas primeiras experiências de juventude, Maria de Fátima, para quase em simultâneo recordar acontecimentos relacionados com os filhos, as conversas com os amigos ou as festividades da sua ilha.
Joe Sylvia transforma-se numa espécie de memória cristalizada, que às vezes, se estilhaçava por explosão, fazendo emergir passados das gavetas mais recônditas da alma para, depois o íman, que o peso da idade, testicularmente, lhe depositou, rechamar os mil pedacinhos de cristal, formando uma tampa de escuridões rasuradas (Oliveira, A., 2017, p. 21)
Esta é a história de uma família-tipo que em tempos e espaços distintos parte da ilha (origens/passado) para a América (o sonho e a utopia/futuro), iniciando um processo de reorganização de hábitos e rotinas num quotidiano exigente. Esta cisão de tempos e de espaços não é apenas estrutural, ela traduz modos distintos de habitar o mundo. Como Michel Renaudbem refere ao citar Heidegger “Habitar o mundo significa que o ser humano é um passageiro finito, marcado pela certeza objetiva da morte. Mas enquanto estivermos na terra, temos que inverter a relação entre o construir e o habitar: «não habitamos porque construímos, mas porque somos habitantes e somos [ou existimos] enquanto tais». (Renaud, M., 2003, p. 236). Ou seja, o ser humano não ocupa simplesmente um espaço, ele constrói (ou não), sentido nele, enraizando-se cultural e existencialmente.
Joe Sylvia tomara a decisão de partir para a Califórnia, aos 42 anos, tardiamente como ele refere ao longo da sua reflexão, recordava as palavras do Pe. Meneses: «Sabeis como todos gostamos da América. Tantos dos nossos andam por lá e mandam águias de oiro, roupas, candins, gamas, chocolates. Porque lá enriquece-se depressa, sem ser preciso negar Deus, roubando os outros» (Oliveira, A., 2017, p. 31).
Neste contexto, impõe-se a interrogação central: na deslocação de espaços, como se reconfigura a identidade do insular?
A ilha como centro simbólico da identidade expande-se como um verdadeiro axis mundi, afirmando-se como matriz ontológica que encontramos no olhar retrospetivo e na saudade de Joe Sylvia, que, ao evocar o seu passado, também apela às lembranças de outros e de si próprio, como vemos na descrição da despedida:
“E numa manhã de agosto, lúcida de azul, partiram com destino à América. Pelo caminho, foram olhando para os pequenos montes da ilha, para as árvores e cerrados, para as igrejas e impérios, para as pessoas e animais, com aquela sensação esquisita de quem vê o que sempre estivera diante dos olhos e por quem de repente, se sente uma paixão mortal. Não olharam para o mar. Ele seria, a partir desse momento, o seu obstáculo maior, o seu adversário invencível” (Oliveira, 2017, p. 35).
A memória devolve a Joe a dor inicial da partida. A condição de quem parte é que deixa sempre um pouco de si e leva um pouco dos outros. Segundo Michel Renaud,
A emigração para outros continentes, para os Estados Unidos da América ou para o Canadá, principalmente confere à vida açoriana a consciência, muito mais desenvolvida que no Portugal continental, de uma identidade diferente, como se o oceano facilitasse a conexão com aquilo que está além-mar (Renaud, M., 2003, p. 238).
Quem parte nunca vai inteiro. Anos mais tarde, ao regressar à ilha com a família e com Mary, irá compreender que a maior saudade que sentiu não foi da terra, mas de si próprio. A memória do emigrante não sendo reprodutiva, mas recriadora, idealiza a ilha, imagem que nem sempre coincide com a realidade do regresso.
Joe ainda tinha dúvidas em ter aceite o pedido da carta de chamada, não tinha a certeza de ter valido a pena, a sua consciência não lhe pesava, mas sabia que a América era uma terra de oportunidades e de muitos desafios, de “liberdades impensáveis que os filhos ousaram ter (Oliveira, A., 2017, p. 32).
É inevitável o sujeito retornar a si pela busca de um entendimento que lhe permita ligar quem ele foi e no que se transformou. A ilha configura-se-lhe como espaço-vivo “projeção do si próprio que sobre si próprio age” (Centeno & Freitas, 1991, p. 252), acumulando memórias e estruturando sentidos.
Na segunda visita à ilha, após 15 anos, pós 25 de Abril, o casal não consegue compreender as transformações sociais que ocorreram na ilha, nem a mudança de atitudes e comportamentos nas pessoas, não conseguem reconhecer a sua gente “A ilha afastara-se dos seus imaginários sem qualquer delicadeza” (Oliveira, A., 2017, p. 50) A ilha passa a ser um espaço de desencontro para Joe e Mary, e “deixaram de gostar do mar” (Oliveira, A., 2017, p. 53). A fronteira líquida que delimita a ilha não apenas a isola, mas também intensifica o distanciamento não só físico, mas relacional.
A transição de um regime ditatorial para uma democracia, em que as liberdades individuais se afirmam, não faz sentido para Joe, pois quem aprendeu apenas a obedecer e a trabalhar, e mantém esse registo na Sweet Land of Liberty, este contacto provoca não só estranheza, como uma fratura cultural, que fere a dimensão ontológica, ou seja, a ilha entendida enquanto condição de ser, já não corresponde à ilha interiorizada, a ilha que habita a memória e a saudade. Só na morte, Joe Sylvia reencontra a “ilha da utopia” é nela que reata os laços com a família, que unifica a sua identidade, não num tempo cronológico, mas relacional. Como expressa Joe Sylvia, na ilha a morte tem outro sentido: «na ilha era outro o morrer […] mas com direito a lágrimas salgadas sentidas» (Oliveira, 2017, p. 22). Em Joe, o insular emigrante, a ilha circunscreve o início e o fim, persistindo como horizonte ontológico, mesmo quando é habitado noutra língua. “Apesar do regresso constituir um dos grandes sonhos dos emigrantes, nunca se volta ao ponto de partida” (Matozzi, M., 2019, p. 164), é essa a dolorosa aprendizagem de Joe, como refere o filósofo Heráclito, “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Quando regressou à ilha novamente, não só a ilha não era a mesma, como ele também não era o mesmo.
A possibilidade de transição para a Sweet Land of Liberty começou a ser imaginada com o testemunho dos emigrantes que visitavam a ilha e falavam de outras abundâncias, aparentemente de um enriquecimento fácil. A América passou então a ser sonhada como um “grande chocolate”[9], metáfora de abundância e doçura que se contrapõe ao sal da insularidade — não apenas geográfico, mas existencial.
Para José Silva, a realização do sonho americano residia em dar um futuro melhor aos filhos; porém, a chegada às terras do Tio Sam revela a outra face da realidade. O sonho americano surge como uma construção idealizada que organiza expetativas coletivas, mas que se concretiza de modo fragmentário.
A vida centra-se no trabalho duro, que absorve o tempo quase todo, tornando forçosa uma rápida adaptação ao sistema social: a aprendizagem da língua e a apropriação do discurso são os elementos-chave para uma integração bem-sucedida. O que não se concretiza, a língua restringe-se ao mínimo funcional: “Lixasse-se a gramática inglesa, mas só aprenderiam a falar o suficiente para o desenrascanço” […] Cada vez havia menos tempo para falar (Oliveira, A., p. 41). E num espaço curto de tempo, a família assume, sem cuidado onomástico, a tradução dos nomes como o primeiro gesto facilitador de aculturação. Se o nome na língua materna remete para uma herança da tradição e para uma genealogia de pertença; o nome traduzido permite a interpelação do sujeito e o seu reconhecimento na comunidade.
José Silva é traduzido para Joe Sylvia, diminutivo de Joseph, com direito a Sylvia, nome feminino, bem como, os restantes membros da família, também, assumem a tradução dos outros nomes: “Mary, Maggie, Lucy, Tony e Johnny.” Vale lembrar a argumentação de Steiner, na obra Depois de Babel, na qual o autor refere que traduzir é, também um ato de interpretação. Mas a tradução dos “nomes próprios” é mais complexa porque os mesmos resistem à arbitrariedade pura, que a convenção nem sempre pode explicar, “o significado não pode nunca ser totalmente separado da forma da expressão” (Steiner, G. 2002, p. 263).
A tradução da língua assinala, assim, a transição iniciática do microcosmo insular para a América, o novo mundo, em que a designação do nome é reconhecida como parte fundamental do novo discurso linguístico, “Escutar o meu nome é sempre escutar o outro, escutar o outro que me chama” (Han, B-C., 2021, p.47). O outro que reconhece a minha presença e que lembra a ausência do sentido de pertença. Ao permitir que o nome seja traduzido, o sujeito mostra-se recetivo a um diálogo que transcende as barreiras linguísticas.
É de referir que nas comunidades rurais açorianas, a importância dada ao nome era pouca, daí a facilidade que o alteravam, havendo subtração ou adição de nomes ao nome próprio. Como menciona António Mendes, no seu trabalho de recolha e divulgação de materiais de literatura oral em relação aos nomes:
Ao emigrar para os Estados Unidos da América, americanizava-se o nome: uma Maria do Céu ou dos Anjos passa a ser Mary Lanne, um João Sousa, voltava como John Smith; e um Francisco da Silva ou Francisco Rodrigues era agora um Frank Silva ou Frank Roger (Mendes, A., 2020, p. 9).
Em alguns contextos era atribuído o nome do santo da devoção ao filho, com a intencionalidade de proteção, mas à maior parte das crianças era atribuído o nome dos pais, dos avós, dos padrinhos, como uma forma de transmissão do nome de geração em geração, transportando assim a história da família.
Assim, a tradução do nome não implica apenas transferência de sentido, mas alteração da forma simbólica que sustenta a identidade. Com a tradução do nome o que se ganha em funcionalidade social perde-se em densidade simbólica, como demonstram os discursos diretos de Maggie, Lucy e Milu. É relevante o destaque que o autor dá ao discurso feminino, retratando quatro mulheres insulares, que reconstroem a sua identidade a partir de uma nova liberdade e como a aprendizagem dessa língua lhes permite afirmar essa liberdade.
A comunicação de Maggie constrói-se na intensidade, não na reciprocidade. Joe Sylviaé já se tinha habituado à banalidade das suas palavras e à apropriação agressiva da língua: “era capaz de dizer não em perfeita desobediência; […] dizer “palavrões no mais puro inglês” (Oliveira, A., 2017, p. 60). O intuito é afirmar uma posição, mas o mecanicismo fútil e a banalidade do seu discurso produzem instabilidade na comunicação e fragmentação identitária.
No caso de Lucy, ela abdica da ação comunicativa em favor de uma acomodação estratégica, prefere sobreviver a compreender. Era cómodo não ter de decidir como sobreviver aos medos iniciais da América. “Aprendeu a falar com o sotaque californiano, sem necessidade de gramática […] a rilhar os dentes no trabalho, evitando assim dar parte de fraca. (Oliveira, A., 2017, p. 76). Há uma desresponsabilização em assumir o compromisso com um discurso que possa gerar consenso e abrir outras possibilidades de diálogo. A língua não é apreendida, nem interiorizada, fica apenas reduzida à sua função pragmática.
O discurso de Milu também revela a aprendizagem incorreta da língua. A primeira palavra que aprendeu foi “Uel”, que passou a utilizar como uma máscara discursiva. A sua constante repetição revela insegurança e falta de competência comunicativa, “não conseguia conciliar a força do desejo com a sua franqueza mental” (Oliveira, A., 2017, p.102). “Uel” não é apenas erro fonético, é um símbolo de deslocação cultural, uma tentativa de pertença. Milu fala, mas não comunica, a sua ação discursiva não produz entendimento; produz ruído. Outro exemplo é a atribuição do nome americano ao primeiro filho, marcando uma ausência de relação às raízes insulares, o nome não o inscreve na genealogia familiar. Ao recusar um nome de família, Milu rompe com a tradição, a memória e com a continuidade simbólica.
É com Mary, a figura maternal, que o discurso irá ganhar o sentido de reconciliação: “Quando chegaram a Tulare, Mary foi a força para equilibrar todas as disputas. […] Foi com a sua tenacidade que prosperaram. Sem a persistência de Mary, tal sucesso não teria sido possível. Por tudo isto, Joe Sylvia respeitava-a devotamente” (Oliveira, A., 2017, p.135). “Ao contrário de Milu, nunca exigiu que o seu nome fosse apregoado em altifalante para um aplauso seguido de arroto.” «Não tenho nada a ver com isso. O que fiz está feito.» (Oliveira, A., 2017, p.139). Perante o excesso de Maggie, o silêncio de Lucy, como alternativa de linguagem, e o exibicionismo de Milu, o discurso de Mary busca a compreensão e a delicadeza, é ela a instância mediadora que mantém a coesão familiar. Quando Joe comenta que eles se tinham esquecido de aprender “a terra e o país”, e talvez por esse motivo os desentendimentos e conflitos com os filhos, «Somos por demais estúpidos…» / Mary responde: «O que não dá direito a que sejamos maltratados», ou ainda, refere Joe, “Mary não aprovava o vocabulário de vaqueiro” (Oliveira, A., p. 134), a desaprovação demonstra o valor que Mary dava a um discurso cuidado, sem atropelos. Na primeira visita do casal à ilha, é Mary a figura mediadora, que tem o cuidado de traduzir o discurso dos filhos aos pais. Toda a ação discursiva de Mary revela características de um agir comunicativo aberto à alteridade, evidenciando que o fundamental, não é só saber falar outra língua, mas o modo como ela é apropriada pelos sujeitos; e o modo de apropriação de Mary inscreve-a num registo de procura pela autenticidade.
A análise dos discursos indica-nos dificuldades e constrangimentos na apropriação correta da língua e a sua consequente fratura identitária, mas também a busca de autenticidade do insular para superar os constrangimentos.
A Sweet Land of Liberty passa a ser um espaço de aprendizagem — não da abundância imaginada, mas da consciência de si.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entre a ilha idealizada e a América desmistificada, o sujeito aprende a habitar o intervalo — e é nesse intervalo que a identidade se reconfigura. Se, num primeiro momento, o sonho americano é desconstruído quando confrontado com a dureza do trabalho e da adaptação, progressivamente emerge uma consciência distinta através dos monólogos e discursos de Joe Sylvia. A identidade do emigrante-insular não reside exclusivamente na fidelidade ao passado, nem na assimilação plena do presente, mas na capacidade de habitar a tensão entre ambos.
Para Joe Sylvia: “Pela sua parte, o sonho realizara-se.” (Oliveira, A., 2017, p. 67). Se tivesse ficado na ilha não tinha melhorado a sua condição. Sentia-se mais americano do que português. Era com orgulho que referia:
«Pago os meus impostos. Mando os meus filhos para a catequese. Não odeio os negros. Iço, à frente da minha casa, a bandeira americana no Memorial Day». Mas não adiantava outro patriotismo. Aliás, nunca gostara de hambúrgueres; nunca ia à missa celebrada em inglês; não respeitava os holidays nem as suas causas. O Memorial Day era um caso à parte, até porque gostava de chocolates americanos e vestia, muitas vezes, «alvaroses d’ingrim» (Oliveira, A. 2017, pp. 68-69).
De certo modo, como menciona Cota Fagundes, “Existencialmente, uma vez que se tenha sido emigrante, sobretudo se continua a residir na pátria da imigração, nunca deixa de sê-lo”
(Fagundes, C., 2009, p. 107). Era assim que Joe Sylvia se sentia, um cidadão obediente que cumpria e celebrava o essencial ao equilíbrio da sua vida como emigrante, contudo a sua integração é parcial e restrita à formalidade do que está implicado pela norma social básica e não numa relação de proximidade, o que faz emergir uma identidade híbrida e também fragmentada, que integra diferentes elementos culturais e sociais num processo contínuo de (re)construção.
A reconfiguração da identidade dá-se enquanto processo dialético linguístico inacabado, envolvendo momentos de rutura, abertura a novas experiências sociais e reconfiguração do sentido da experiência. Entre o imaginar o gosto doce do chocolate (metáfora cultural coletiva/América), e “já não gosto de chocolates”, há desilusão, desconstrução, mas também reinterpretação da experiência emigrante, que produz conhecimento: uma verdade que emerge não como facto empírico, mas como revelação existencial. À luz de Paul Ricoeur, o enunciado metafórico caracteriza-se pela tensão entre uma referência suspendida e uma nova referência manifestada. Como afirma o filósofo, “o enunciado metafórico […] mostra de forma clara esta relação entre a referência suspendida e a referência manifestada” (Ricoeur, A Metáfora Viva, Estudo VII, p. 330). Assim, a afirmação “Já não gosto de chocolates” suspende o seu sentido literal para manifestar uma nova compreensão da experiência emigrante, tornando-se metáfora viva da ilusão do sonho americano. A identidade revela-se, em última instância, como um processo de uma tradução inacabada, aberto às futuras gerações. Como observa Eduardo Lourenço, “a língua é uma manifestação da vida e como ela em perpétua metamorfose” (Lourenço, E., 2004, p. 122).
Habitar a América não implica abandonar a ilha, mas reinscrevê-la numa língua em transformação. A identidade constrói-se na tensão e na metamorfose. A utopia já não é alcançar um espaço físico, mas um horizonte relacional que permita fixar o sentido de pertença. No fim, não se emigra verdadeiramente da ilha: aprende-se apenas a habitá-la noutra língua. Aprende-se a questionar, a compreender, a falar daquilo que se conhece de dentro.
BIBLIOGRAFIA
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Almeida, Onésimo Teotónio (2014). Minima Azorica: O Meu Mundo é Deste Reino. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas.
Benjamin, Walter (2015). Linguagem / Tradução / Literatura: Filosofia, Teoria e Crítica. Tradução e edição de João Barrento. Lisboa: Assírio & Alvim.
Centeno, Yvette K., & Freitas, Lima de (1991). A simbólica do espaço: cidades, ilhas, jardins. Lisboa: Editorial Estampa.
Coelho, Leonor M. (coord.) (2021). Insularidades: rotas, gentes, lugares. Porto: Edições Afrontamento.
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Mendonça, Luís (2024). História da emigração açoriana (séculos XVII–XX). Ponta Delgada: Letras Lavadas.
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Ricoeur, Paul (1975). A metáfora viva. Porto: Rés Editora.
Rodrigues, Francisco Cota (2009). “Percursos migratórios afetivos: ser-se açoriano na América e como.” In Reflexão sobre mundividências da açorianidade, coord. Gabriela Castro, Berta Pimentel Miúdo e Magda Costa Carvalho. Ponta Delgada: Universidade dos Açores.
Rosa, Duarte Manuel Gonçalves da (2020). Açorianos na terra da abundância: diálogos multiculturais a partir de Álamo Oliveira, Marcolino Candeias e Onésimo Almeida. Dissertação de mestrado, Universidade dos Açores, Angra do Heroísmo.
Steiner, George (2002). Depois de Babel: aspetos da linguagem e tradução. Lisboa: Relógio d’Água.
[1] Melânia Pereira de Castro é licenciada em Filosofia e Cultura Portuguesa, mestre em Filosofia Contemporânea, e possui pós-doutoramento em Ciências da Informação. Encontra-se a desenvolver doutoramento em Literaturas e Culturas Insulares, com investigação centrada na obra de Dias de Melo, nomeadamente nas questões da insularidade, identidade, memória coletiva e tradição oral. Exerce funções na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, onde desenvolve projetos de promoção da leitura, mediação cultural e valorização da memória coletiva. É responsável pela dinamização de iniciativas como clubes de leitura, projetos de matriz humanista e programas dedicados aos livros, à literatura e à cultura açoriana.
[2] Já não gosto de chocolates é um “romance sofrido, foram necessários sete anos para a sua conclusão. A sua escrita implicou: observar, entender, interpretar, escrever, rebuscar e rescrever, dado que todas as vezes que ia à Califórnia falava com pessoas que lhe iam contando experiências de vida e histórias que conheciam. Assim, construiu as personagens desta obra, dotando-as de rica densidade psicológica” (Rosa, 2020, p.7).
[3] Oliveira, Álamo (2017). Já não Gosto de Chocolates. 1.ª ed. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas. p. 2126.
[4] José Henrique Álamo (1945-1925), como menciona Diniz Borges, na revista online Filamentos Artes e Letras, é o “poeta do Raminho, o homem que soube fazer da palavra enxada, um espelho, uma bússola e uma flor de combate. A sua voz era a do povo e das pedras, do corpo e do espírito, da ilha e do exílio”.
[5] De 1953-1990, ciclo da explosão migratória para o Canadá e EUA, em que o levantamento das restrições impostas pelo governo americano marca a deslocação de uma grande parte da população de açorianos para o continente americano, em busca do sonho e de uma vida melhor. (Mendonça, 2024, p.177).
[6] A obra Já não gosto de chocolates, é considerado o 1.º romance português que trata, exclusivamente, do fenómeno da emigração dos Açores para o continente americano, como menciona Diniz Borges, no prefácio de O meu coração é assim: Antologia (Oliveira, Álamo, 2003, p.8).
[7] A nossa Emigração é parte integrante e importante da nossa História. Vivemos nestas ilhas há quase 600 anos e há mais de quatro séculos que saímos das ilhas sem nunca as deixarmos, levando-as connosco, no nosso pensamento e no nosso coração, e criando novas ilhas, iguais às nossas, no outro lado do Atlântico.
(Andrade, J., 2025, p. 12)
[8] A carta de chamada (Affidavit of Support ou, de forma mais simples, sponsor letter) funcionava como uma garantia de que o emigrante não se tornaria um encargo público para o governo. Era escrita por um familiar ou empregador que assumia a responsabilidade de sustento do emigrante.
[9] Luiz de Assis Brasil, in prefácio, Já não Gosto de chocolates, 2017, p.11.
