Do Atlântico ao Mundo: As Análises Literárias de Vamberto Freitas

A crónica como ficção e ficção como crónica

Encosto a cabeça à parede branca; fecho os olhos. O som da viola envolve a noite e deixa um rasto suave, um rasto de saudade. É qualquer coisa que se desprende, que se despede…

Maria Teresa Horta, Quotidiano Instável/Crónicas

Vamberto Freitas

     Quando recebi o novo livro de Maria Teresa Horta os meus olhos brilharam ainda quando li o título Quotidiano Instável/Crónicas (1968-1972). Foram anos cruciais da minha vida nos Estados Unidos à beira do Pacífico, anos da mesma incerteza numa faculdade, sem esperar muito do futuro, que afinal viria a ser ameno, mas também turbulento. Foram os anos em que eu raramente pensava em Portugal, um açoriano inseguro (e por algum tempo sem a companhia de outro compatriota) entre mais de 30 mil alunos e em busca do seu lugar naquela grande sociedade. Em pouco tempo, tudo isso viria a mudar, a minha auto-confiança e um certo regresso a “casa”, à vida do meu país natal através de livros e jornais, e depois do 25 de Abril de 1974, já quase formado e prestes a iniciar a minha vida no ensino secundário oficial da Califórnia. Antes disso, já percebia que algo estava a ser “insinuado” em Portugal, que iria ser libertado em breve, ou pelo menos transformado numa sociedade um pouco mais aberta. A saga de As Novas Cartas Portuguesas, um livro de poesia, prosa poética e outras formas, publicado em 1972, levantaria um dos maiores escândalos internacionais da nossa memória, para além da guerra colonial em três frentes contra a oposição de praticamente o mundo inteiro, menos dos países hipócritas que nos forneciam armas e todo o tipo de ajuda mortal em África. Não segui de imediato a sorte das suas autoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Não imaginam o orgulho que senti, quando a 2 de Fevereiro de 1975 vinha estampado na primeira página do The New York Times Book Review uma longa recensão ao livro que a grande editora Doubleday intitulava The Three Marias: New Portuguese Letters, as suas autoras retratadas na contracapa, e já ilibadas pelo regime que acabaria com a ditadura Salazar-Caetanista. Na capa dessa edição americana, entre outras muitas palavras, destaco as Edward Bailbay: “…de uma profundidade e beleza raramente igualada… trata-se de um livro com um ritmo que é constante, a sua pulsação de vida presente em todas as frases… uma obra prima”. Todos os leitores mais atentos sabem muito bem que esta obra foi inspirada pelas cartas da Mariana Alcoforado, que viveu nos séculos XVII-XVIII, e escreveria as famosas cartas a um oficial francês por quem se apaixonara. Não é, no entanto, o que quero abordar neste momento (se bem que ainda há poucos anos a escritora luso-americana Katherine Vaz dedicaria um longo romance à mesma figura, ao seu tempo e amor, precisamente intitulado Mariana nas versões em inglês e português. São as presentes crónicas que me interessam aqui, pelo momento em foram publicadas há décadas, pelo que prevêem na obra suprema da sua autora que viria até aos nossos dias.

Todas as crónicas de Quotidiano Instável vêm datadas, como está indicado no próprio título do livro, com a excepção do que a autora chama de “Antecipação”, e esta recua até 1963, como uma espécie de introdução a todas as páginas seguintes. Estes textos foram todos coligidos durante quatro anos e prefaciados por Ana Raquel Fernandes, que contou com a colaboração da própria autora. Por mais estranho que pareça, a prefaciadora afirma-nos que qualquer uma destas páginas serve de introdução a toda a obra de Maria Teresa Horta na poesia ou no romance. Estamos aqui em anos pré-transição para um regime que ninguém previa, e ainda mais vinda das próprias forças armadas. Não se lê a palavra “política” ou “regime” então no que nos parecia o seu pleno poder. Creio que poderemos sintetizar a temática que nos dá o fio condutor de página em página: sensualidade, saudade e solidão. Quanto à narradora, tanto nos aparece sempre sem nome mas identificável com a autora, ora dissimulada numa outra voz conforme a dor e a dúvida do momento. O estado dormente, ou “amordaçado”, como um dia diria Mário Sores, da sociedade lusa só nos é sugerido pelo estado em que vive quotidianamente uma mulher com desejos de cama, ou então sentada numa redação de um jornal. Quase todos estes escritos foram publicados originalmente naquela época no diário A Capital. Precisaria de um censor muito inteligente para topar as metáforas e simbolismos com que a autora nos segura à sua prosa. Não sabemos onde começa a “realidade” vivida ou a invenção de “ficções” várias. É um género que me parece sem igual entre nós, ou então cultivado por outros com muito menos imaginação ou habilidade literária. O que resulta daqui, pois, vai além do estado existencial da sua voz na primeira pessoa, abrange toda uma sociedade vivendo calada, ou olhando ruas e rio numa descrença e quase medo do que vê ou parece antecipar. Poesia e prosa, a alma humana a derramar-se ora no desespero ou na indiferença ou aceitação do Nada. Por mim, nunca tinha lido “crónicas” em que uma só voz se torna polifónica, falando de si e, suponho, de quase nós todos. Não tenho a certeza de que este livro apenas nos relembra o estado de ser numa determinada época. Se mudarmos as datas recuadas, pensaremos que a autora nos fala, de certo modo, dos nossos próprios dias mesmo que em liberdade plena e sem prisões políticas. Na aparente quietude do presente ferve em nós algo de muito semelhante, só que agora não temos de tornear os censores, que passaram, também me parece evidente, a residir dentro de nós próprios. Só que estas “crónicas” daqueles outros anos como que anunciam o que em poucos dias viria a público: a condição  feminina e feminista da sua autora e das suas mais próximas colegas literárias. Aliás, o livro termina com o texto “Fábula das Mulheres que Caminhavam no Deserto”, nem mais palavras seriam necessárias, estariam fora do seu lugar nesta obra.

“Sempre estrangeira – escreve a autora num dado passo acutilante – entre as pessoas,   aqui, só, sinto-me pertencer integralmente a alguma coisa: àquele ‘nada’ que se estabelece entre o sol e o mar e fica suspenso como uma lâmina brilha brilhante, raivosa.

É quando o cheiro do mar invade todo o corpo e me debruço sobre a praia, apoiada na balaustrada branca, a sorver ansiosa este hálito abrasado que uma ligeira brisa quebra junto dos lábios ressequidos.

Então lembro-me. Lembro-me mais desesperadamente do que em as ocasiões em que me lembro sempre. E Estás a meu lado, a tomares-me nos braços para o teu corpo: meu país de fertilidade e abundância”.

Toda a grande prosa e poesia oscila entre o pessoal e público. Se Maria Teresa Horta escreve com a paixão de sempre e a sua dor interior, escreve aqui do mesmo modo: com ironia, outra marca maior da sua escrita sobre si, sobre a sociedade ou comunidade em que, voluntária ou involuntariamente, está inserida pela sua nascença, pelo seu destino imbatível. Não é apenas uma resistente política, como o foi no tempo em que era imperativo sê-lo, é uma resistente literária, que de livro em livro, nos seus géneros de eleição, nos fornece um espelho estreito ou então deliberadamente alargado e distorcido para que cada um tenha a coragem de se enfrentar a si próprio ante, uma vez mais, o desejo, a saudade e solidão. É o seu e o nosso labirinto quotidiano, quase sempre, sim, mais instável do que seguro ou mesmo feliz. A voz liberta de uma mulher é igualmente a libertação dos homens, quando sabemos pensar e ter a força da liberdade e igualdade no mais profundo do nosso ser. Estas “crónicas” em nada estão ultrapassadas, mesmo que a autora faça questão de incluir as datas da sua publicação. Entre a numerosa obra da autora destaco aqui, pelas suas estórias interligadas, o romance  Ambas As Mãos Sobre o Corpo, de 2014.

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Maria Teresa Horta, Quotidiano Instável/Crónicas (1968-1972), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2019. A tradução da breve citação de Edward Bailbay é da minha responsabilidade. Publicado na minha Coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 25 de Outubro de 2019.

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