
A Lenta Revelação do Mundo: Entre a Ilha, a Presença e a Palavra
A página abre-se como um caminho ainda húmido de madrugada, e antes de qualquer palavra já se sente o sopro leve da ilha — esse respirar antigo onde o verde e o azul não são cores, mas estados de alma. Um livro não começa aqui: começa no corpo que se inclina sobre o guiador, na primeira pedalada que rompe o silêncio, na promessa íntima de que cada curva será também uma revelação.
Há uma travessia inscrita neste gesto inicial — não apenas no território, mas também no próprio ser. A bicicleta avança e, com ela, avança uma consciência que se quer inteira, despojada, disponível ao espanto. O mundo não é descrito: é tocado, respirado, incorporado. Cada verso nasce como quem recolhe orvalho nas mãos, sabendo que o instante é breve, mas absoluto.
Neste livro, a paisagem não está diante de nós — está dentro de nós. A ilha infiltra-se como memória futura, como presença que antecede a linguagem. E a palavra, por sua vez, não tenta dominar o real: acompanha-o, escuta-o, deixa-se moldar por ele. Há uma ética do olhar que se transforma em ética da escrita — uma fidelidade quase devocional ao que é simples, ao que é essencial.

É nesse território sensível que A Bicicleta Açoriana — uma viagem poética, de Rita Gomes, com ilustrações de Urbano, se revela como mais do que um livro: uma experiência de presença. Desde o prólogo, a autora propõe uma cartografia dupla — “duas narrativas, duas densidades de cor” — uma mais intensa, ligada à travessia física da ilha de São Miguel, outra mais leve, nascida das pausas, da memória e da contemplação. Esta estrutura não é apenas formal: é o próprio coração do livro, o seu ritmo interno, a sua respiração.
É no prefácio que outra camada se ilumina — mais histórica, mais humana, mais profundamente política. Recorda-nos Cátia Oliveira que a bicicleta não foi apenas um objeto, mas um gesto de libertação: para muitas mulheres, tornou-se “extensão das suas próprias pernas e braços”, ampliando-lhes o mundo e redesenhando o seu lugar no espaço público . Esta memória não é decorativa — ecoa silenciosamente em toda a obra. Cada pedalada que aqui se escreve traz consigo essa herança de resistência, essa conquista íntima da liberdade.
E talvez por isso este livro não seja apenas uma viagem — mas uma forma de habitar o mundo com inteireza. Como o próprio prefácio sugere, há nesta escrita uma escolha rara: a de “se deixar espantar todos os dias com a beleza e a espontaneidade de cada coisa”. Essa disponibilidade, ao espanto, torna-se o verdadeiro motor da travessia.
A bicicleta surge, assim, como eixo e metáfora — instrumento de deslocação e dispositivo de pensamento. Pedalar torna-se um modo de conhecer, uma forma de inscrever o corpo no mundo. E nesse movimento, a paisagem deixa de ser cenário para se tornar relação. Veja-se o poema “ILHA”, onde o território se constrói como entidade viva:
“Num fiel compromisso
o vento sopra…
Desenha-se
dentre pedaladas,
alma adentro.”
Aqui, a ilha não é apenas geografia: é interioridade. A travessia física coincide com uma travessia íntima, na qual o sujeito se dissolve na matéria do mundo.
Essa fusão entre corpo e paisagem aproxima Rita Gomes de uma linhagem que, no contexto americano, encontramos em autores como Mary Oliver e Wendell Berry, na qual a natureza é vivida como experiência ética e espiritual. Tal como nesses autores, há uma escuta profunda do real, uma humildade diante daquilo que existe. Mas há também uma diferença essencial: enquanto a tradição americana frequentemente se ancora na vastidão continental, aqui a escrita nasce da insularidade — de um espaço limitado que, paradoxalmente, se expande em densidade.
A natureza açoriana não é distante nem sublime no sentido clássico: é próxima, táctil, íntima. O verde, o cinzento, os azuis não são apenas descritos — são sentidos como texturas da existência. E essa proximidade estende-se às pessoas, que surgem integradas no mesmo tecido sensível da paisagem.
Num dos momentos mais belos do livro, lemos:
“Saúdo o ancião embevecido,
consinto boleia…”
Este gesto simples revela uma ética da proximidade profundamente enraizada na experiência açoriana. A bicicleta, aqui, não é apenas um meio de transporte: é um convite ao encontro, à partilha, à lentidão que permite ver o outro.
Neste sentido, A Bicicleta Açoriana dialoga com certas tradições da literatura de viagem contemporânea, mas distingue-se por recusar a lógica da fuga. Não se trata de escapar ao mundo, mas de mergulhar nele com maior intensidade. O percurso não é evasão — é presença.

A dimensão visual do livro reforça essa experiência. As ilustrações de Urbano não acompanham o texto; expandam-no. O seu traço, ao mesmo tempo delicado e essencial, capta o mundo numa linguagem quase primordial. Há, nos seus desenhos, uma economia expressiva que remete aos gestos primeiros da criação — como se cada linha fosse uma tentativa de tocar o essencial.
Urbano é, de facto, um artista no sentido pleno da palavra. O seu trabalho não ilustra: interpreta, traduz, reimagina. As suas imagens — pássaros, paisagens, fragmentos de natureza — não fixam o real, mas sugerem-no, abrem-no, deixam-no respirar. E, nesse diálogo com o texto, criam uma obra verdadeiramente híbrida, em que palavra e imagem se completam sem se anularem.
A poesia de Rita Gomes, por sua vez, move-se entre o sensorial e o reflexivo. Em “POESIA”, escreve:
“Sensações escritas
em palavras,
leem-se.”
Esta definição simples encerra uma poética inteira: a escrita como tradução da experiência sensível. Mas essa sensorialidade não é superficial — conduz a uma reflexão mais profunda sobre liberdade, identidade e criação.
Há, portanto, uma política subtil nesta obra — uma política da atenção, da presença, da liberdade vivida no quotidiano. Não se trata de um discurso explícito, mas de uma ética incorporada, de uma forma de estar que resiste à pressa, à superficialidade, à alienação.
Comparado com obras americanas que exploram o contacto direto com a natureza — muitas vezes por meio da caminhada, da viagem solitária, da imersão em espaços vastos — este livro oferece uma visão alternativa: uma ecologia da proximidade, uma filosofia da ilha. Aqui, o mundo não se mede pela extensão, mas pela intensidade das relações.
E talvez seja essa a sua mais profunda revelação: que o mundo não se impõe de uma só vez — revela-se lentamente. Na cadência do pedal, no encontro com o outro, no silêncio que antecede a palavra. Entre a ilha que se percorre, a presença que se habita e a palavra que se procura, nasce uma forma de conhecimento que não separa — liga.
Assim, a viagem não termina na última página. Permanece como exercício de atenção — uma aprendizagem contínua de olhar, de escutar, de dizer. Porque é nesse entre — entre a ilha, a presença e a palavra — que o mundo se revela.
Diniz Borges
A Bicicleta Açoriana — uma viagem poética de Rita Gomes com ilustrações de Urbano e prefácio: Cátia Oliveira (A garota não) Edição: Letras Lavadas edições, fevereiro de 2026
