
NAVALHA
O próprio nome assusta
embora seja só
uma operária a sangrar
a pele da fruta. Como um sol
multiplicando-se no seu corpo de aço
marfim ou corno de boi: como um sino
vibrando se se toca
com ela numa pedra
de casa ou sepultura.
Com ela limpo às vezes
o lixo do tempo: sóbria mergulhadora
em unhas, pães, barrigas.
Fechada é como um nome
calado para sempre.
A JANELA
Às vezes o poeta tira
coisas da cidade: um muro, a sombra
dum morto, cores que o obrigam
a ficar ligeiramente envergonhado. Dizem
que é operação vulgar esta pesquisa
de memória rendida em geografia
adormecida. Mas o poeta insiste: tira
por exemplo uma janela. Tira três ou quatro
belíssimas pernas de mulher, um sentimento
um cheiro, endomingadas recordações
em suma: elementares presenças
comunicadas entre os anos. Tira a janela. E coloca
a janela em diversos pontos
do Universo: aqui vê um rio
acolá sente através da janela gritos e risos
e depois a janela esvoaça
com as mãos e a cabeça do poeta enrodilhadas
como que perdidas
solenemente atentas
na noite ardida. A janela reparte-se
por países e por rostos. O poeta perde
a janela de vista. A janela desapareceu.
A janela repousa nas paredes
a janela cola-se-lhe à roupa, a janela
obriga o poeta a pestanejar. A janela talvez
seja menos ou mais que um simulacro
de animais que viajam no triângulo dos tectos
no impenetrável reflexo das madrugadas
na palma da mão de alguém que já não pode
abrir ou fechar uma janela.
A janela constrói-se
pouco a pouco, a janela diz
milhares de palavras inventadas
e nuas, é uma imagem
em equilíbrio subtil. A janela é agora
quase porta, parece feita de
altas meditações familiares. Nem precisa de ser
ausência, como um retrato
que sai de nós para todas as ruas
onde irrompe um perfil enegrecido
onde alguma outra vida se acolheu.
CHAPÉU
Serve para quase tudo: para honrar, desonrar
os planetas, as putas, os homens.
Como uma alma disforme, já foi visto
esmagado sob o cu de uma duquesa
sentada num canapé, distante
e distraída. Como a luz, também pode
ser uma figura de retórica.
Levou tiros, rolou
no pó dos pátios, entrou
brutal nas sinagogas; e é sempre um elemento
combinado, composto
de círculos e recordações. Às vezes
tira-se o chapéu se a carteira não presta.
Nunca se concluiu
se verdadeiramente foge às responsabilidades: contudo
é animal capaz para o deserto
de baixo ou de cima
livre na velha terra dos dicionários
ou dos cactos. Raramente é tão-só uma ilusão
ou miragem.
Se nos cai da cabeça
por mera distracção
ou golpe de vento
há sempre alguém que o pise ou o apanhe
o chapéu é que já não é o mesmo
porque entretanto aprendeu muito
sobre como se comportar em sociedade
ou na rua.
É muito raro ficar
na cabeça dos mortos
ao contrário da camisa
que é de uso obrigatório. Rola sempre
para o lado da aurora
aos arrancos ou com grande doçura
como uma estrela
pendurada
num cabide.
LUA
Há palavras que toda a gente conhece
que são quase comuns a todas as pessoas
Palavras propagadas através da gelada
superfície dos números e dos tempos
que nos cercam com o seu peso imaginário
de coisas construídas.
Por vezes um cadáver entre as pontes
justifica a grande evidência.
Pensemos na palavra Lua por exemplo.
Não há ninguém que não saiba o que é a Lua.
Por presença constante em todos os espaços
paralela ao ser dos seres e dos signos
de aqui até ao infinito
a olhamos de verbo a verbo.
Mas meditemos
no que efectivamente significa
ela e o seu rumor transposto
ela e o silêncio multiplicado
da sua imagem mortal.
No fundo nada significa
A não ser pelo oculto existir do sensível
plano da luz e da penumbra
no mundo das cidades.
Está no alto é verdade emitindo ruídos
tão nítidos e negros tão débeis na distância
que houve que edificar um espectrómetro sonoro
a fim de lhe captar os arquejos
de animal pré-histórico. Está algures
num deserto da Austrália
esperando pacientemente algo de novo e vital
e o seu rosto escarlate de serpente
não é um objecto mais para o tempo da pedra
e do metal incompletos. Da sua carne
brota um falo por vezes é uma antena
para as plantas e os lagartos perpétuos.
Quantas vezes
o gélido e inquietante murmúrio das areias
se confundiu na sua brancura devastada?
Ei-lo no descampado: uma sombra uma ausência
proibida e sábia
longo e espiralado como um nervo do crâneo
como um rápido sulco fotográfico
no peito em ruínas.
Há rostos ao longe memória de hecatombes.
Não é que a Lua seja inconfessável abismo
embora tenha um corpo projectado e essencial
de vida e morte. Não falemos sequer
nos seus enquadramentos diversos
nas suas presenças repentinas, nos seus credos
ou no fugaz tecido laminar da sua
franja de esquecimento. Apenas
a palavra conta, conquanto nada ultrapasse
o exterior universo do seu Universo próprio.
E ainda
que tudo lhe faculte a impossibilidade
de estar nos outros como em si ou de ser afinal
matéria de febris prestígios
uma parede trapos velhos carnagem –
não está em nada não reside em nada
ela não está em nada não rola sobre nada
que da boca não saia quer seja acto ou urina
um rasgão de tiros na noite um vidro a mais
quer seja a incontável câmara do sangue
dos olhos esmagados
das negruras com que o sopro do tempo passa
e flutue
e penetre
e comunique
e seja enfim em todo o lado o segmento infindável
da dúvida.
in “OS OBJECTOS INQUIETANTES”
(Prémio nacional Revelação/Poesia 90 da Ass. Port. de Escritores)
