Nota de leitura por José do Carmo Francisco

Paulo da Costa Domingos quarenta anos depois

987654321

A revista «Seara Nova» de 1986 no artigo «Poesia Portuguesa anos 80 – algumas direcções» já registava o percurso do poeta Paulo da Costa Domingos (n.1953) referindo o seu – ao tempo – recente livro «Violeta Náutica». Portugal é um país pequeno e pobre, um país de camponeses e escritores abandonados (Carlos de Oliveira dixit) e sabemos todos que no tempo de Cesário Verde o poeta mais popular era Cláudio Nunes e no tempo de Camilo Pessanha o mais conhecido era Augusto Gil. Paulo da Costa Domingos, quarenta anos depois, permanece na primeira linha com este trabalho recente «987654321» que é uma co-edição da «Barco Bêbado» e da «viúva frenesi» com uma foto do autor feita por Paulo Nozolino em 1981. Abre com citações de Emily Dickinson, José Manuel Pressler e Alexandre Herculano. Esta poesia recusa ser um «luxo cultural» (Gabriel Celaya dixit) antes se envolve no concreto do Mundo e se revela «uma poesia descritiva» (Vitorino Nemésio dixit). Vejamos o ponto de partida que pode ser o primeiro poema do conjunto: «Suor, náuseas, a corda tensa / cheia de nós narcolépticos, /olhos que escrutinam/para lá do véu lacrimal/deste apontamento : de côr/ ?Que diabo de autor poude/pensar tais coisas?». O ponto de chegada pode ser este excerto: «Linha sobre linha, absolutamente: /sozinho. Repetir, repetir,/retirar do esquecimento». Um pequeno livro que não é um livro pequeno.

José do Carmo Francisco, escritor

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