FEZ-SE LUZ!! Por Maria Luísa Soares

             Há dias diferentes em que uma pessoa se sente também diferente.

       O dia 28 de abril de 2025, a partir das 11.30, foi um desses. Tinha eu ido à piscina do Campo de Ourique quando, já nos últimos retoques do vestir, fui surpreendida por três apagões quase seguidos. Que tristeza, que desconforto o mundo assim escuro! De todas as vezes  um coro de protesto encheu o reduto:  Mas que é isto? Que falta de consideração! Em Lisboa estas coisas não deviam acontecer! Que…!

      Mas  lá acabámos por nos despachar e com luz, a costumeira luz dos outros dias. Só que no caminho para casa fui sendo informada, a princípio, de que o apagão abrangia a rua toda, depois que afinal abrangia Lisboa inteira e, finalmente,que era a nível país. A nível país! As inconveniências que isso iria provocar: só me lembrei dos tempos da pandemia.

       Quando cheguei a casa fiz como muita gente:  pus-me a telefonar e em ligação com  os Açores   quis saber  se  também o arquipélago estava sem luz. A resposta foi de um espanto inaudito, Nós, sem luz!? E quando eu disse que a notícia era de que o apagão abrangia Portugal de lés a lés, a resposta foi, Isso é a prova mais provada que nós não somos Portugal.

     Ri-me daquela independência açoriana assim unilateralmente declarada. Mas quem me atendeu depressa retomou o uso da palavra para me dizer com a máxima seriedade, E nem imaginas a autoria  desse apagão, pois não? 

     Quem me dera saber!, mas apanhados assim de surpresa,  nem eu nem ninguém sabe nada, andamos todos às escuras! A escuridão é total!, atirei-lhe  do lado de cá do fio.

    Ora, não é preciso procurar muito: está-se mesmo a ver que foi algum hacker russo a mando do Putin! Ataques informáticos, ataques de toda a espécie são com ele! Aquele homem é capaz de tudo! Voltei a rir e acabámos por desligar, cada um virado para os seus afazeres.

     Entretanto, muita coisa ia acontecendo. Podia dizer-se que Portugal tinha parado : os aeroportos estavam cheios de gente e  as viagens suspensas, as filas à espera de transporte para casa eram de uma extensão a perder de vista, sendo que também os comboios e  autocarros  eram insuficientes para aquele aglomerado de pessoas e os táxis raríssimos  Mas estávamos todos vivos, embora assustados. E para os meus lados a vida saia à rua  não só para o abastecimento de víveres como água, pão,velas e pilhas, mas em manifestação de   solidariedade: pessoas que procuravam  saber umas das outras, Está tudo bem? Grupos em passeio ou sentados nos bancos da  praças em frente da minha casa, com crianças a desfrutarem daquela inesperada animação nas suas bicicletas e bolas de saltar. Até os cães pareciam participar daquela união com os humanos.  E muita gente à  janela  ligada aos pequenos rádios que as iam informando  da situação que se vivia. Ficou-se a saber que a Espanha também vivia o mesmo problema mas que estava a ter a possibilidade de retomar mais cedo a eletricidade porque tinha interligações com outros países. Nós só tínhamos com a Espanha. Acabou se a jantar à luz das velas,  mas ainda sem se saber ao certo as causas das dez horas daquele  apagão.

     Para isso vamos ter  que  remontar ao velório  do corpo do recém falecido Papa Francisco.

     Toda a gente testemunhou o surpreendente encontro entre Trump e Zelensky na Catedral em  Roma. O mesmo talvez não se possa dizer daquele que ocorreu, no mesmo espaço,embora de forma bem mais discreta. Não, não estou a inventar. A comprová-lo estão os factos-cosequência ocorridos mais tarde..

      Conhecendo nós as exigências da alta política, principalmente quando se jogam cargos de 1º ministro em tempo de eleições, não nos admiremos do passo dado por L. Montenegro. Ambos na mira  dos votos, ele e Sanchez de Espanha (este sendo já 1º ministro, mas votos sempre deram jeito) aproveitando a  disponibilidade daquele Trump de coração amolecido,  juntaram-se a Zelensky para, juntos, formalizarem os seus pedidos ( e as suas oferendas pois que foram essas oferendas que iriam despoletar muitas coisas). Começaram pela adulação a Trump, homem poderoso e zelador da felicidade de muita gente, lá na sua América. Que fosse misericordioso e não desalojasse mais portugueses e espanhois. Que fechasse os olhos a irregularidades que acaso  pudessem  existir. Seria abençoado ad eternum pela gratidão de muitos, mesmo muitos portugueses e espanhóis (que até tinham votado nele).

      Quanto a Zelensky, acordaram os dois ali mesmo com ele e por escrito receberem nos seus territórios todos os ucranianos que  quisessem começar uma vida nova. Além de que ofereciam também um contingente de tropas para reforço do cansado exército ucraniano Ainda ninguém  tinha ousado imitar a Coreia do norte: que vergonha! Ofereciam-se para remediar o mal, não só com as suas tropas, como iriam lançar esse  pedido de ajuda nas instâncias internacionais.

      E, claro,não se esqueceram de invetivar Putin, o responsável pela guerra. Homens daqueles nunca deviam ter nascido! Gloria à Ucrânia!!

      Não ouviram foi o comentário de Trump: Meninos bem comportadinhos da Nato a cometerem imprudências dessas?  Mas não era mesmo para se ouvir.

    Só no outro dia, quando já a luz estava de regresso e o país a viver  normalidades  com a situação da crise energética já resolvida, os muito curiosos tinham chegado às seguintes respostas quanto à origem dela: !–um fenómeno atmosférico raro; 2__avião que danificou uma linha de alta tensão; 3_ataque informático liderado pela Rússia.

    Quando, ao fim de algumas horas a Rússia de Putin assumiu o dito ataque, ficaram desfeitas todas as dúvidas.

    Razão tinha quem dos Açores já há muito a tinha encontrado.

                                     M. Luísa Soares – escritora

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