
É surpreendente como Natália Correia, vinda do ventre verde das hortências, com avidez atravessou a fúria das águas, para se embrenhar na capital da cultura portuguesa da segunda metade do século XX.
A sua obra cresceu dentro de todos os géneros literários, desde a poesia ao romance, teatro, ensaio e tradução.
Também se destacou na atividade parlamentar, onde a sua intervenção era marcante, tanto pela sua lucidez, como pelo seu sarcasmo. A frontalidade saia-lhe do corpo, vestia-se de ironia, defendia a causa das mulheres e todas as preocupações alheias.
Escrevia com prazer, dentro de um projeto singular, de onde a imensidão das silabas abriam caminho, pela raiz do verbo.
Era uma mulher insaciada na sua jornada, uma boca tão especial, que tudo conseguia dizer, sem suprimir palavras e letras. Envolta em questões, atravessava com seu olhar rápido o medo e demonstrava o seu modo de estar na vida, como se estivesse à volta da sua ilha de S. Miguel.
No seu universo descobrira que, andar não custa nada, portanto, Natália teve de ir tão longe, tão longe, para alcançar a liberdade e o alongamento da sua estrada, como se esse espaço tivesse de ser seu.
Viveu como uma mulher insubmissa contra o vento, cujo desafio consistia em atravessar cada poema que escrevia, cada passo que percorria. A sua voz era um chicote contra os bajuladores das áridas e vazias silabas do tempo, porque ela procurava o seu vocabulário, na espuma branca do seu mar, tendo em conta, que os seus dias eram vigorosos e polémicos.
Colaborou em vibrantes tertúlias, tendo mais tarde, o lugar definitivamente marcado no bar Botequim.
Natália Correia conseguiu impor-se sempre, quer com a sua poesia, quer com a sua intervenção política. A sociedade muitas vezes repeli-a, mas ela não desistia, procurava estar em todos os lugares, onde o mérito fosse requisito.
As noites devoravam-lhe os dias e incitavam-na à permanência na imensa solidão. Cansada de lutar, com as palavras escritas e ditas, e de carregar as suas dores e as do mundo, acabou por fechar os olhos e morrer, em Lisboa.

Maria de Fátima Carvalho da Silva Cardoso usa o pseudónimo de Maria Fraterna,
quando assina a sua obra literária.
Nasceu no Minho, Portugal, em 1959.
É licenciada em Direito e trabalha como jurista, na Câmara Municipal de V. N. de
Famalicão.
Livros publicados:
- 2020 – “No Assédio do Tempo”, livro de poesia, um importante acontecimento
literário, por integrar o I Prémio Literário Ser Mulher 2019. - 2022 – “De Dentro para Fora”, livro de poesia
- 2023- “A Um Deus do Céu e outros contos”, sendo que o conto: “O Melhor Natal de
Sempre” já tinha sido premiado em 2020 - 2024 – “A Aurora da Sabedoria”
É coautora em revistas, coletâneas e antologias poéticas.

