Notas de Leitura por José do Carmo Francisco

Tempestade seca e outros poemas de Domingos da Mota

Domingos da Mota (n.1946) abre o seu primeiro conjunto de poemas deste livro (Tempestade seca) com uma citaçãp de Hélia Correia e o segundo conjunto (outros poemas) com uma citação de Jorge de Sena.O livro de 89 páginas é uma edição da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto com apoio da Fundação Engenheiro António de Almeida. Além dos dois autores já referidos, os poemas do livro integram citações de Sá de Miranda, Padre António Vieira, Alberto Pimenta, Dinis Machado, João Cabral de Melo Neto, Luís de Camões, Hannah Arendt, João Guimarães Rosa, Jorge Sousa Braga, e Sérgio Godinho – entre outros. A Poesia é a Voz do Homem e se puder incorporar a Voz do Mundo – tanto melhor. Mas a Voz do Mundo é a voz dos outros poetas  os que viveram e escreveram antes de nós. Basta pensar em poetas que morreram jovens como Cesário Verde, António Nobre, Políbio Gomes dos Santos, António Maria Lisboa, Nuno Guimarães e Daniel Faria – seis nomes e todo um programa poético interrompido. Castelo Branco Chaves dizia que conhecer as Líricas Portuguesas de Cabral do Nascimento, José Régio, António Ramos Rosa e Jorge de Sena era essencial para conecer a Poesia Portuguesa. Querer passar ao lado disto é como querer fazer uma enxertia numa árvore que não existe. Por falar em Agricultura é preciso notar que verso é o nome latino do sulco do arado na lavoura de um campo. Fiquemos com o poema da página 73: «Contra a infâmia O poeta/morreu/subitamente. /Os amigos lamentam a partida/os inimigos procuram execrá-lo/os idiotas vomitam idiotias,/ os filhos da puta/chamam-lhe filho da puta/e os cobardes mostram o que são./O poeta já não pode ripostar./Mas deixou-nos/para ler os seus poemas/uma obra viva contra a infâmis». A Poesia nunca hesitou ao longo dos tempos em chamar as coisas pelos seus nomes, sempre.

José do Carmo Francisco, escritor  

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