
É a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe e nem ela acredita que seja.
Coloca a mão por cima da chávena fumegante de chá não para o manter quente mas para aquecer a mão e pensa nessa sua antiga tendência natural de correr para a berma do abismo e atirar-se para depois em pleno ar tentar bater as asas e viver. Algumas poucas vezes conseguiu, noutras caiu. E perguntavam-lhe: “Não tens medo do abismo?” – respondia sempre que não, que no mínimo no fundo do abismo encontra sempre um jardim plantado por si, e aproveita para o regar. Medo tem é de um dia não existir abismo. É que Deus é caprichoso, o diabo manhoso, e afinal quem manda em quem? Tantas perguntas num pátio bonito e tempo frio. Destapa a chávena deixando a mão suspensa no ar e uma borboleta pousa e percorre as linhas da mão: uma premonição? Terá lido o seu caminho até aqui, e o seu destino a partir daqui? Se em vez de chá fosse café tentaria ler o futuro nas borras alojadas no fundo da chávena mas faz a sua escolha e continua a ler o livro dela. Porém, a dado momento lembra-se do poema da Adília Lopes chamado “A Propósito de estrelas”, onde ela escreve “Não sei se me interessei pelo rapaz por ele se interessar por estrelas/se me interessei por estrelas por me interessar pelo rapaz/hoje quando penso no rapaz penso em estrelas/e quando penso em estrelas penso no rapaz.” – Interrompe a leitura e pegando na caneta preta escreve sobre o papel branco a sua adaptação do mesmo: “É a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe, e nem ela acredita que seja. Não sei se me interessei pela rapariga por ela ser a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe e nem ela acredita que seja, se me interessei por ela ser a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe nem ela acredita que seja por me interessar por literatura, hoje quando penso em literatura penso na rapariga que é a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe e nem ela acredita que seja e quando penso na rapariga que é a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe e nem ela acredita que seja penso em literatura, como me parece que me vou ocupar com literatura até ao fim dos meus dias parece-me que não vou deixar de me interessar pela rapariga que é a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe e nem ela acredita que seja até ao fim dos meus dias, nunca saberei se me interesso por literatura por causa da rapariga que é a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe e nem ela acredita que seja se me interesso pela rapariga que é a melhor escritora de sempre e o mundo não sabe nem ela acredita que seja porque me interesso por literatura, já não me lembro se me interessei primeiro pela literatura se me interessei primeiro pela rapariga que é a melhor escritora portuguesa e o mundo não sabe e nem ela acredita que seja ou se quando me interessei pela literatura me interessei pela rapariga que é a melhor escritora de sempre e o mundo não sabe e nem ela acredita que seja.” – Termina aqui, e assim, enquanto coloca a mão sobre a chávena fumegante de chá não para o manter quente mas para sentir o calor. Há lugares secretos por detrás de muitas fachadas lisboetas. Portais mágicos.
Leonel Ventorim, Abril de 2026
Se possível Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula médica, de poesia a epitáfio, de guião audiovisual a boletim meteorológico. Já fez crítica de arte, jornalismo cultural, um programa de entrevistas na rádio, e tem livros publicados. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro, as quais practica actualmente. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, gosta de gelado de chocolate e pistáchio e é torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas. Pretende tirar uma licenciatura em Mediação Artística e Cultural.
