Não há e nunca houve açores nos Açores por Víctor Rui Dores

O açor é uma ave de rapina que nunca existiu nos Açores e cujo nome foi nestas ilhas aplicado por engano.

Disso deu conta, em Saudades da Terra, Gaspar Frutuoso (1522-1591), o nosso mais antigo historiador: o que os marinheiros de D. Henrique encontraram nestas ilhas não foram açores, mas milhafres. A explicação é plausível: quando aportaram a estas paragens, esses navegadores não observaram as aves de perto, mas em pleno voo. Tendo o açor e o milhafre tamanho e plumagem semelhantes,  natural foi a confusão gerada por aqueles mareantes, dada a sua ignorância em matéria de ornitologia.

Tendo vivido durante 70 anos em pleno século XVI, num aspeto Frutuoso é categórico:  açores eram aves que não existiam nos Açores.

A propósito, o tenente-coronel José Agostinho (1888-1978), numa palestra proferida em 1966 aos microfones do Rádio Clube de Angra (1),  lembrava que, em pleno século XV, o açor era ave muita apreciada em Portugal Continental, dado o seu largo emprego na arte da caça da altanaria –  um género de desporto então muito em voga. E compreende a lamentável confusão por parte dos marinheiros portugueses, referindo que, na época, não havia armas de precisão para que fosse possível uma observação atenta dessas aves. Estas eram então apanhadas apenas através de armadilhas, laços, redes, etc.

Este investigador (meteorologista, sismologista, naturalista) estabelece diferenças entre o açor e o milhafre nos seguintes termos: o açor é ave rara, tem asas pequenas e a cauda maior, efetuando voos baixos, diretos e rápidos, raramente se afastando do arvoredo onde vive. Pelo contrário, o milhafre, com cauda curta, possui asas enormes, de extremidades arredondadas, e opera de alto, pairando  em  círculos e vigiando o solo, com vista agudíssima, em busca de ratos, coelhos ou galinhas. É a esta ave que o nosso povo aprendeu a chamar de “queimado”.

E, no entanto… não há e nunca houve açores nos Açores;  e também não há e nunca houve milhafres nestas ilhas. Em rigor, e segundo a ciência, o que sempre existiu foi a águia de asa redonda.

Porém, o açor veio para ficar: não só deu nome ao arquipélago, como até é a sua figura que, de asas abertas e representando as 9 ilhas, encima armas e brasões de várias cidades açorianas, fazendo hoje parte da heráldica da Região Autónoma dos Açores.

                  Victor Rui Dores José Agostinho – Palestras no Rádio Clube de Angra, coletânea de 20 CDs, Paulo Henrique Silva, editor do áudio, edição do Município de Angra e Rádio Clube de Angra, 2023

Víctor Rui Dores, poeta, ficcionista, ensaísta e dramaturgo.

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