A Pedra que Levita por Leonel Ventorim

A morte de Deus numa teológica tarde suburbana de unhas de gel

Existir e acreditar em espírito, vida após a morte, e consequente reencarnação, é-me suficiente perante tudo o que acontece em mim nos outros e no mundo como está? Em que bolso da alma guardar a revolta? Descrever o indescritível é impossível? O indizível é mudo? Profano ou sagrado são ambas faces da mesma moeda? Mas eu não desejo menos que o impossível, a felicidade bruta, diária, comestível, sensível e sensorial, divina e proibida. Estás-me a ouvir Deus? Não te faças de surdo, tira a merda dos fones dos ouvidos, também só ouves esterco. Ouves-me agora? Tomarei o meu destino nas minhas mãos! Vai-te foder mais à tua mania prepotente e bélica de sabotar as coisas belas, tu que moras num palácio intocável e nós em almas abarracadas construídas de imperfeições. Tomarei o meu destino nas minhas mãos e assumirei a imperfeição mais bela de sempre. Vou-te despedir ó incompetente, vais amargar a dormir em quartos baratos com baratas e vizinho de prostitutas baratas a exercer trabalho onde nem conseguirás dormir em condições com o barulho do fornicanço no quarto ao lado tu que o proíbes sem ser para reprodução no teu livro sagrado, tu que inspiraste O Livro mas não recebes nenhum direito de autor meu grande otário, e depois muito provavelmente vais para o olho da rua pois não poderás pagar a renda e dormirás em cima de papelão pardo onde talvez deixes a tua silhueta marcada pois o sudário dos miseráveis é o suor e o sarro – “O Sarro de Deus!” – irão anunciar esses tabloides e medias da net de merda de hoje em dia que só vivem de escândalos. “Deus vive nas ruas desta cidade que se quer limpa para os turistas e jovens católicos!” – dirá outra parangona bem ao estilo do tempo do Salazar mas esta do agora Presidente prepotente arrogante e narcisista da Câmara de Gás de Lisboa e também o vosso Excelentíssimo Dissidente da República anti-eutanásia irá visitar-te ali debaixo das arcadas do Museu Militar em Santa Apolónia e dar-te um abraço e um beijinho e tirar uma selfie contigo, sim, militar, não inventaste a Humanidade e a humanidade não inventou a guerra? Culpado! Covarde de merda! E a mim não me provocaste? Ironia na tua tromba é o meu cuspo para ti. Mas és tão justo não és? És capaz até de convidar o Excelentíssimo Dissidente da República para comer fora, sim, fora, ali mesmo, ao lado da carrinha da distribuição de comida feita por voluntários, ahahaha. Ofereces a tua bucha a um colega andrajoso e drogado mas mesmo assim não convences os voluntários de que és bom, generoso, de que afinal és Deus, o omnipotente, e eles não te dão mais vinhaça. Eles nem sabem dizer correctamente o teu nome não é verdade? Alguém o sabe? O teu nome verdadeiro? – “No Princípio não foi o Verbo”? – Escreveram mal no Cartão de Cidadão? E agora a tua morada? Vais ter de a alterar, acordar de madrugada para ir tirar senha como os comuns mortais e esperar horas numa Loja do Cidadão. Espera, sempre podes alegar estatuto especial. De velho. Velho marreta, velho jarreta, velho que já nem bate punheta. A tua punheta cósmica que a todos nos fez está há muito tempo estéril nessa picha mole e agora ficaste a contar macacos que tiras do nariz do Darwin nesse lar de terceira idade localizado num subúrbio feio como a merda, talvez Cacém, Póvoa de Santa Iria ou Corroios, arredores de algo humano, sim, talvez num subúrbio de merda more Deus, num lar manhoso de velhos doentes ou mesmo se for na luxuosa Avenida da Liberdade irá dar ao mesmo pois estarás paralítico em cadeira de rodas a babar clemência por uma morte digna, humana, mas os teus fans – ironia divina – não irão permitir o teu descanso ahahahah. Ah Deus! Não me interrompas a linha do comboio! Não te mandes para os trilhos e te faças em pedacinhos! Tenho mais que fazer do que estar aqui nesta plataforma à espera que anunciem no altifalante a Morte de Deus numa teológica tarde suburbana de unhas de gel.

Leonel Ventorim, Abril de 2026

Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula médica, de poesia a epitáfio, de guião audiovisual a boletim metereológico. Para revistas escreveu artigos de Jornalismo Cultural e crítica de arte, tem livros publicados e já produziu e apresentou um programa de entrevistas na rádio. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro, as quais practica actualmente. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Pretende tirar uma licenciatura em Mediação Artística e Cultural.

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