A Pedra que Levita por Leonel Ventorim

A especiaria rara

Apesar da globalização tornar quase tudo igual – um franchising incaracterístico e monótono, é inevitável que a primeira vez que se pise em solo não ocidental não se tenha um choque cultural. Bastou descer do avião no aeroporto de Marraquexe e senti logo. Era definitivamente outra coisa, uma coisa nova, não necessariamente má – e aqui é importante realçar a noção de culturas diferentes e de que o mundo – apesar da tal massificação – ainda não é de todo igual e nem sequer o nosso é necessariamente superior. Goste-se ou não, é preciso tentar compreender o diferente, “o outro”. Marrocos não me era uma paixão mas morava na minha imaginação através dos escritores da Beat Generation: de Jack Kerouac a Gregory Corso, de Allen Ginsberg a Paul Bowles, mas muito especialmente neste caso, o William Burroughs. Nunca foi um santo e aqui vinha pecar porque era mais fácil, havia uma estranha tolerância para com os estrangeiros exista naquela década de 1950. Se trocarmos tolerância por dinheiro talvez a coise se explique sozinha, mas não me compete moralizar a vida de outros escritores. Pousando as malas no tradicional riad imediatamente procurei um café típico frequentado por locais deixando o recepcionista preocupado com a ausência do “ocidental”. Desnecessária preocupação, estava eu muito bem a beber o primeiro café local sendo que os nativos só estranharam quando entrei, depois, percebendo que me estava a colocar ao mesmo nível deles, éramos todos clientes, todos iguais, continuaram nas suas conversas. Nunca fui turista mas sim viajante,  provável herança do meu sangue veneto e seus aventureiros, sendo Marco Polo o mais famoso deles. No dia seguinte partiria e para o Saara tendo de atravessar as montanhas e na noite seguinte, ao pernoitar, tive uma inspiração beat – ou será possessão? O verdadeiro escritor é feito de espasmos e espanto. Eis: “Aquele hotel perdido naquela encruzilhada das altas montanhas do Atlas em Marrocos foi o meu pouso dessa noite. Na verdade não estava perdido o hotel, recebia era perdidos, não os perdidos geográficos mas os voluntariamente perdidos da aparente normalidade, os que se purificam através da loucura da vida ininterrupta, os que desistem da morte diária exigida pela sociedade, os que ascendem em vida aos instantes vividos e não às regras dos relógios e dos mapas. Muitas santas santos e anjos já devem ali ter pernoitado antes de continuarem caminho pelas estradas sinuosas e trilhos das montanhas, e certamente alguns demónios, ali, sozinhos nos quartos, tiraram o disfarce de humanos. As visões viriam de novo quando fossemos dignos delas, quando os chicotes se calarem com as histórias do Passado. O Passado então jazeria morto debaixo de uma pedra localizada exactamente no final das montanhas e no início do deserto onde a temperatura tiraria a roupa do frio para se desnudar ao calor tórrido e aí morto ressuscitar cobra de vidro. Tingi as roupas de mercurocromo e deitei-me numa nuvem. Quando um ladrão disfarçado de comerciante passou ao pé e julgando-me ferido parou, não para me socorrer, mas para me roubar os pertences, ao aproximar-se levantei-me de súbito, dei-lhe uma paulada na cabeça, e roubei-lhe eu as especiarias com as quais me droguei até dançar e cair da nuvem. E como estava escura, como estava escura a noite na traseira do hotel com vista para o penhasco onde ao fundo corria um fio de água, pobre riacho a morrer de sede. Estava escura a noite, amanhã seria novo dia e amor raro – a especiaria – seria precisa para suportar a azia da burocracia do viver sem razão. A austeridade minimal das paredes, tectos, quartos, corredores, enchia-me a alma mais do que a tagine o estômago, um prato feito para ouvir os sussurros da montanha enquanto sonharia com a bailarina caída das estrelas portadora de nova especiaria por aqui desconhecida e cujo rasto seria avistado a longa distância. O seguimento do seu rasto, o local da sua queda. Seria esse o meu caminho, inadiável destino. Sabia que ao amanhecer iria ter consciência de mim como uma pedra que levita, que continuaria perdido, e que levaria escondido vinho para a viagem.”

29 de Março de 2026

Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula médica, de poesia a epitáfio. Para revistas escreveu artigos de Jornalismo Cultural e crítica de arte e já produziu e apresentou um programa de rádio com entrevistas. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro, as quais practica actualmente. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, mais de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Já fez muita coisa e vai fazendo outras, mas prefere sempre o futuro.

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