
“A separação académica jornalismo-literatura só convém aos jornalistas que escrevem mal”.
José Cardoso Pires (entrevista a Inês Pedrosa, jornal “Expresso” – 20/12/1997)
Sempre fui contra aqueles que advogam uma separação entre jornalismo e literatura.
Se atentarmos ao histórico, verificaremos que entre o livro e o jornal houve sempre uma interação permanente. É que, bem vistas as coisas, o livro e o jornal nasceram sob a maldição da censura. Por exemplo: no século XVI, enquanto a Inquisição lançava livros à fogueira, a bula a Ea Est cortava a mão pecadora aos cronistas (jornalistas) insubmissos…
Jornalistas versus romancistas? Não há nenhuma incompatibilidade entre jornalismo e literatura. Vejamos alguns exemplos de autores para quem esta diferenciação nunca existiu:
O grande poeta e dramaturgo Almeida Garrett fundou e dirigiu os jornais “O Portuguêz” e “O Entreato”, foi redator do semanário “A Regeneração” e colaborou no diário “O Português Constitucional”.
Camilo Castelo Branco, o prolífico escritor, foi jornalista: redator principal do jornal “O Porto” e “Aurora do Lima”, colaborou com vários periódicos, destacando-se “A Nação” e “O Imparcial”.
O enorme romancista Eça de Queiroz teve colaboração jornalística intensa: “Gazeta de Portugal”, “O Distrito de Évora” e “Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro”.
Ramalho Ortigão entregou-se, de alma e coração, ao jornalismo (“Jornal do Porto” e “O Correio”) e, durante uma vida inteira, colaborou em muitas outras publicações periódicas. “As Farpas”, que ele e Eça de Queiroz assinaram, outra coisa não são do que jornalismo e literatura de primeiríssima água.
O Raul Brandão de “As Ilhas Desconhecidas” fez jornalismo de excelência no semanário “O Micróbio” e nas revistas “Brasil-Portugal”, “Revista Nova, “Serões” e “Homens Livres”.
José Saramago, Nobel da Literatura, esteve ligado aos jornais, tendo dirigido o “Diário de Notícias” e colaborado no “Diário de Lisboa”.
(A propósito, abro aqui um parêntesis para recordar um outro Nobel da Literatura, Gabriel Garcia Márquez, que mesmo depois de galardoado, continuou a escrever regularmente para “El País”, afirmando não poucas vezes que nunca deixara de ser jornalista. Alinharam pelo mesmo diapasão, no espaço anglo-saxónico, autores como Fielding, Proust, Hemingway, Capote, entre outros).
Há toda uma tradição de jornalistas que, em Portugal, se dedicaram à literatura, nunca deixando de parte os jornais: Jorge de Sena, Augusto Abelaira, Stau Monteiro, Baptista Bastos, Alçada Baptista, Alexandre O´Neill, José Cardoso Pires, Carlos Pinhão, Mário Castrim, Mário Zambujal, Fernando Dacosta, Fernando Assis Pacheco, entre muitos outros “jornalistas-escritores”.
Nos tempos que correm, muitos jornalistas destacam-se na literatura, cruzando a crónica, o romance e a investigação jornalística com a escrita criativa: Manuel António Pina, José Jorge Letria, Miguel Sousa Tavares, Clara Ferreira Alves, Inês Pedrosa, José Rodrigues dos Santos, Francisco José Viegas, Isabel Stilwell, entre outros.
No espaço açoriano, há a destacar o movimento cultural surgido na cidade da Horta em finais do século XIX e primeiro quartel do século XX, movimento esse que é inseparável e indissociável do desenvolvimento da imprensa escrita na ilha do Faial, em que uma escrita jornalística vai contagiar, de forma decisiva, toda uma escrita literária, surgindo uma plêiade de prosadores e poetas de primeira grandeza: João José da Graça, Roberto de Mesquita, Manuel Garcia Monteiro, Manuel Joaquim Dias, Florêncio Terra, Manuel Zerbone, Nunes da Rosa, Ernesto Rebelo, entre outros.
Este “jornalismo literário” deu frutos nos Açores nos séculos XX e XXI, com destaque para os nomes incontornáveis de Manuel Ferreira, Pedro da Silveira, Manuel Tomás, Eduardo Jorge Brum, Carlos Tomé, Sidónio Bettencourt, Joel Neto, entre outros.
Dito isto, a minha conclusão é esta: a tarimba vivida por muitos autores nas redações dos jornais agilizou-lhes a escrita. Por isso continuo sem perceber a separação, que alguns querem ver estabelecida, entre escritores e jornalistas, como se de entidades diferentes e antagónicas se tratasse.
Victor Rui Dores, poeta, romancista, cronista e dramaturgo.
